26 março, 2010

UM ROTEIRO PARA MORAR NO FUTURO - Entrevista com Marc Giget, cientista social e economista


“O fato de praticamente todos os conhecimentos do mundo estarem disponíveis na internet libera os professores de uma parte de seu trabalho e lhes permite dedicar mais tempo à pedagogia, a projetos, a experiências”.

“A educação e o acompanhamento sanitário, interligados
pela formação e dinamismo econômico, são o único meio de resolver a pobreza e a exclusão”.


UM ROTEIRO PARA MORAR NO FUTURO - Entrevista com Marc Giget, cientista social e economista.



Cidades verticalizadas, casas com mais cômodos destinados a encontros e ao mesmo tempo com mais espaço de uso pessoal, um transporte mais limpo e ágil, uma alimentação mais verde e saudável. Nenhuma grande revolução à vista, mas mudanças significativas, já em curso. Esse é o prognóstico do que esperar das cidades em um futuro não muito distante, de acordo com o francês Marc Giget. Formado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e doutor em Economia Internacional pela Universidade de Paris, Giget é criador do Instituto Europeu de Estratégias Criativas e de Inovação, órgão dedicado a estudar o futuro das cidades. Hoje, Giget desembarca em Curitiba para fazer, na Federação das Indústrias, a palestra “Vida nas Cidades a partir de 2030”. Em entrevista à Gazeta do Povo, Giget antecipa temas de pesquisas urbanas desenvolvidas em seu instituto.

O que podemos esperar das cidades em 2030? Serão muito diferentes daquelas que conhecemos hoje?

As mudanças se concentrarão principalmente na melhora do consumo de energia, com ganhos globais de performance estimados em 40% da consumação atual. Os novos edifícios serão energeticamente autônomos e neutros em emissões de gás carbônico.

Estamos considerando também a chegada de cidades radicalmente novas, caracterizadas por serem menos horizontais e mais verticalizadas, ao contrário de cidades como São Paulo e Belo Horizonte, onde o perímetro urbano é muito vasto. Esse é o projeto das “Cidades Colina”, que apresentamos recentemente na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, realizada em Curitiba.

Ao contrário de outras instituições, a escola formal mudou pouco ou quase nada nos últimos séculos. Devemos esperar alguma grande mudança para a educação nos próximos anos?

A educação, sem dúvida, sofrerá mais transformações neste horizonte em razão, principalmente, da chegada de um grande número de novas tecnologias de informação extremamente eficazes e com custos que diminuem a cada dia. Muitas experiências estão em curso no mundo inteiro e apontam para uma melhora considerável em relação a esse tema, dando margens à formação de qualidade de um maior número de pessoas, onde quer que elas estejam e a todo momento. O fato de praticamente todos os conhecimentos do mundo estarem disponíveis na internet libera os professores de uma parte de seu trabalho e lhes permite dedicar mais tempo à pedagogia, a projetos, a experiências.

Devemos esperar uma grande mudança nas relações de trabalho?

As tecnologias de informação já começaram a mudar as relações de trabalho e isso se potencializará. Mas, em sua essência, quaisquer que sejam as novas tecnologias, as relações humanas continuarão sendo feitas de contatos físicos e trocas. A natureza do trabalho deverá evoluir com uma organização baseada em projetos, na cooperação entre pessoas e no uso de diferentes formas de parceria.

O que deverá mudar em nossas casas?

Em geral, as pessoas são muito apegadas aos domicílios tradicionais e não sonham com casas de alta tecnologia. Já existe uma evolução em curso – a do desenvolvimento sustentável das moradias. Em paralelo, as habitações devem se desenvolver trazendo mais conforto, permitindo, ao mesmo tempo, mais convivência nos cômodos destinados aos encontros e novos espaços de uso pessoal.

E em relação ao que comemos? Pode haver falta de comida? Teremos de adaptar a nossa alimentação?

Em nível global, há um risco muito pequeno de falta de alimento – salvo nas zonas de conflito. Mais que novos tipos de alimentos, teremos uma evolução verde, com uma alimentação mais saudável, com menos açúcar. Isso quer dizer, sobretudo, que teremos mais vegetais e mais variedade, com novos formatos e alimentos com um aspecto mais atrativo. A alimentação evolui, de fato, muito lentamente, em função das tradições. A tendência atual da obesidade, por exemplo, está ligada ao fato que de que os modos de vida evoluíram mais rápido que os hábitos alimentares.

Hoje, o trânsito é um dos mais importante temas de debate. O número de carros não para de crescer. Ninguém quer usar ônibus ou outro meio de transporte coletivo. Pedestres não têm espaço em nossa cidades. O que esperar do futuro? O caos ou uma grande mudança?

Um dos principais problemas é o extremo crescimento das cidades. As regiões metropolitanas estão se expandindo para muito longe do centro das cidades, exigindo a utilização de meios de transportes individuais, fazendo com que os transportes públicos sejam pouco eficazes e pouco atrativos nas zonas de habitação de baixa densidade. Mas estão chegando os meios de transportes – públicos e individuais – “suaves”, leves, ágeis, que gastam bem menos energia, permitindo assim um menor gasto e menos poluição.

A violência é uma das maiores preocupações da sociedade. Podemos esperar dias melhores?

Algumas tecnologias revolucionárias podem ajudar na luta contra a criminalidade, o que é um desafio para as democracias. É preciso meios e ações muito fortes, além de valores que abranjam toda a sociedade.

Que tipo de ação pode ajudar no desenvolvimento social das cidades?

Os principais vetores são a educação e o acompanhamento sanitário, interligados pela formação e dinamismo econômico, único meio de resolver a pobreza e a exclusão. É da emergência de novas atividades econômicas e industriais que vai nascer o crescimento tecnológico, permitindo um progresso considerável neste sentido.

Qual a sua impressão da cidade de Curitiba no presente e no futuro?

Na ocasião da conferência “Cidades Inovadoras”, que aconteceu há uma semana, pude ver e entender o quanto os gestores urbanos de outros continentes estão seduzidos por Curitiba. Eu estou muito confiante quanto ao futuro desta cidade, que já tem no seu ativo várias e belas realizações.

Para o futuro, seus grandes atributos são a extrema riqueza humana ligada a uma característica cultural única – fator determinante de inovação –, o diálogo e a troca entre as comunidades e as diferentes forças vivas da cidade para a construção do futuro.

Foi nesse sentido que o trabalho de reflexão “Cidades Inovadores Curitiba 2030” foi bastante apreciado. Há uma dinâmica empreendedora e uma renovação. Por fim, a abertura internacional crescente deverá consolidar a cidade como lugar de encontros internacionais para discutir a concepção do futuro, notadamente nas suas dimensões de desenvolvimento sustentável.



(CABRAL, Themys. Gazeta do Povo. Curitiba: 22/03/2010. Tradução: Antoine Moreau, Rafael Asinelli e Marilia de Souza)



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Colaboração para o blog do Prof. Jayme Bueno



20 março, 2010

OS ROYALTIES DO PETRÓLEO E DA PITOMBA - Por Urariano Mota*

A última votação do petróleo no Congresso Nacional gerou toda sorte de ignorância, casada e rimada com arrogância. A julgar pelo Jornal Nacional, teve início um combate do gênero todos contra o Rio de Janeiro. Segundo as imparciais reportagens, os estados da federação estariam tentando um assalto aos recursos naturais mais fluminenses que o Zé Carioca. No ar, além das imagens das lágrimas de Sérgio Cabral Filho, os brasileiros de todos os brasis viram fumaças de uma nova guerra de secessão. E com algumas ameaças: adeus, olimpíadas, adeus, Copa, adeus, colírio de nosso maior cartão postal. Mas se no parágrafo seguinte couber um breve recuo no tempo, veremos que o primeiro assalto foi cometido antes da votação, contra o espírito público.

Tudo começou com a proposta do governador Eduardo Campos, que sugeriu uma repartição mais justa – vale dizer, para todos os estados brasileiros - dos royalties do petróleo da camada pré-sal. Atenção, vocês leram bem: a idéia, ou a filosofia, como dizem os burocratas, era para os recursos do petróleo no pré-sal. Na proposta nada havia que mudasse as regras em vigor para os recursos mais cariocas que o Zé de Walt Disney. Em vigor? Sim, mas que balançaram depois das declarações do governador Sérgio Cabral, que se referiu a “roubo” dos royalties, quando ainda se discutia a partilha federativa das receitas do pré-sal. Então os 369 deputados “ladrões” responderam contra os 72 que julgavam ter eterno o velho vigor. A coisa, já antes, tamanha era a arrogância, já havia descido a perigosa ladeira do deboche. Em artigo na Folha de São Paulo, em dezembro de 2009, Ruy Castro tentara o caminho da sátira, da graça, um gênero em que lhe faltam graça e talento. Assim falou Ruy, o biógrafo de Nelson Rodrigues: "O Estado de Pernambuco é responsável por 85% da mangaba e da pitomba produzidas no Brasil. Um abençoado acidente geológico fez com que seu território fosse ideal para a exploração dessas frutas, que são boas de comer ou servem de base para sucos e sorvetes e respondem por boa parte da economia pernambucana.... Pois vamos supor que, de repente, o Rio, que só produz caju e banana, resolva unir-se a outros Estados que também não produzem mangaba e pitomba e, juntos, comecem uma campanha para que os royalties das ditas frutas destinados a Pernambuco sejam distribuídos por igual entre os Estados. A alegação é a de que Pernambuco não é dono do Brasil, que a mangaba e a pitomba pertencem a todos e que cabe à União socializar a dinheirama gerada por elas". Ora, brincadeira tem hora. O insigne Ruy Castro, ao escrever com a tinta da galhofa, naquele dezembro não soube nem viu que essa pitomba "base para sucos e sorvetes” tem um caroço desproporcional, que atrapalha qualquer voo gastronômico. A sua polpa – da pitomba – é fina, grudenta e avara, agarrada ao caroço de um modo tal que prejudica os mais saborosos sucos e sorvetes. Não teria sido melhor que o colunista, naquele dezembro, tivesse visto alguma vez uma pitomba? Mais: de onde Ruy teria retirado que, além de petróleo, o Rio só produziria caju e banana? O abacaxi, o coco e a laranja também mereciam e merecem um lugar no tabuleiro. E de que lugar ele concluíra, sei, era só um véu de alegoria, uma espirituosa aproximação, mas em que alegres trópicos as frutas pagariam royalties? Talvez nas terras em que pitombas pulassem na esteira rolante de indústrias revolucionárias. Sem caroço, limpas e puras, só polpa.

Voltando ao passado mais próximo, o fato é que Paulo Bernardo, o ministro do Planejamento, afirmou há poucos dias que “o pagamento dos royalties sobre as atuais reservas continua como está, mas haverá novas regras para as jazidas do pré-sal, em que todos os estados e municípios terão o mesmo direito. Não tem cabimento deixar que o petróleo explorado a 250 quilômetros da costa renda royalties para apenas um estado, um município”. A essa declaração pública, o governador Sérgio Cabral faz de conta que não é com ele. Na hora em que esta coluna se publica, ele chama para um ato público pela sobrevivência dos royalties em vigor. E dos que virão, pois grande é seu particular espírito público. Mas para maior clareza ele deveria chamar também, em alto e bom português: “o petróleo é nosso, brasileiros, mas o nosso aí é do Rio de Janeiro”.

*Urariano Mota, escritor e jornalista, autor de “Soledad no Recife” (Boitempo – 2009) seu último romance, indicado como um possível livro do ano pelo conceituado site Nova Cultura, elaborado e administrado na Alemanha, com os destaques literários da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa. É colunista do site Direto da Redação, edita o blog SAPOTI DE JAPARANDUBA http://urarianoms.blog.uol.com.br/
Urariano também faz parte de nossa equipe aqui "No Rastro da Educação Cultura e Política" e do blog "Juntos Somos Fortes"

18 março, 2010

Sistema de Cotas Raciais II

O texto sobre "as cotas" ainda não saiu.
Enquanto isso, mais uma repostagem: Razões.

O poema não fora escrito sob a "inspiração da imagem". Eu nunca faço isso [nada contra]. Escrevo e busco a imagem depois. Nem tampouco sob a inspiração do tema desta postagem. Contudo me pareceu apropriado, pois argumentos -  favoráveis ou desfavoráveis - faltam para sustentar discussões e até pensamentos...








Razões



Em cada ser, suas razões.
Sendo estas a empreender-lhe ações.
Isto, por fim, explica quase tudo.

O que resta - de inexplicável -
está na opção por não se perceber
as razões alheias.

Estas, então, menores,
fazem toda a diferença.

A isto chamamos balança.
Ou justiça.

Taninha Nascimento


16 março, 2010

Sistema de Cotas Raciais I

Pensei em escrever um artigo sobre a polêmica questão do Sistema de Cotas Raciais.
Ainda não consegui.
Então, reposto um poema do blog " No Rastro da Poesia... " onde a tela de Tarsila não foi o motivo da inspiração, mas me reporta a esta e outras "ene" questões.


Operários, de Tarsila do Amaral: um retrato da miscigenação brasileira








à mercê



reverberar o breu opaco
do silêncio da voz

- à mercê de palavras

cheias de vazios em cada signo

traduzido em sons -,

é o que posso dizer da cor

das tuas e das minhas íris - que envolvem

nossas pupilas atentas à justiça que tarda

e falha desde vinte dois de abril de mil e quinhentos.







ah, nossos olhos... tão mudos e atentos...



por taninha nascimento



10 fevereiro, 2010

Parafuso de Cabo de Serrote e Paisagem de Interior - ORAÇÃO FORTE E MILAGROSA PARA AFUGENTAR O MAU-OLHADO DO CONGRESSO NACIONAL - Jessier Quirino





Parafuso de cabo de serrote
Jessier Quirino

Tem uma placa de Fanta encardida
A bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.

Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço e armador
Enxadeco, fueiro, e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco e alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.

É bodega pequena cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.

No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom... tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.

A Segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho e cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum março de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se encontra uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.

Prateleiras são tábuas enjanbradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio de flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.

Tem cabides de copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Tem rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado num sabão
Bodegueiro despacha a um artesão
Parafuso de cabo de serrote








Paisagem de interior

Jessier Quirino


Matuto no mêi da pista
menino chorando nu
rolo de fumo e beiju
colchão de palha listrado
um par de bêbo agarrado
preto véio rezador
jumento jipe e trator
lençol voando estendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Três moleque fedorento
morcegando um caminhão
chapéu de couro e gibão
bodega com surtimento
poeira no pé de vento
tabulêro de cocada
banguela dando risada
das prosa do cantador
buchuda sentindo dor
com o filho quase parido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Bêbo lascando a canela
escorregando na fruta
num batente, uma matuta
areando uma panela
cachorro numa cadela
se livrando das pedrada
ciscador corda e enxada
na mão do agricultor
no jardim, um beija-flor
num pé de planta florido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Mastruz e erva-cidreira
debaixo dum jatobá
menino querendo olhar
as calça da lavadeira
um chiado de porteira
um fole de oito baixo
pitomba boa no cacho
um canário cantador
caminhão de eleitor
com os voto tudo vendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um motorista cangueiro
um jipe chêi de batata
um balai de alpercata
porca gorda no chiqueiro
um camelô trambiqueiro
avelós e lagartixa
bode véio de barbicha
bisaco de caçador
um vaqueiro aboiador
bodegueiro adormecido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Meninas na cirandinha
um pula corda e um toca
varredeira na fofoca
uma saca de farinha
cacarejo de galinha
novena no mês de maio
vira-lata e papagaio
carroça de amolador
fachada de toda cor
um bruguelim desnutrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Uma jumenta viçando
jumento correndo atrás
um candeeiro de gás
véi na cadeira bufando
radio de pilha tocando
um choriço, um manguzá
um galho de trapiá
carregado de fulô
fogareiro abanador
um matador destemido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um soldador de panela
debaixo da gameleira
sovaqueira, balinheira
uma maleta amarela
rapariga na janela
casa de taipa e latada
nuvilha dando mijada
na calçada do doutor
toalha no aquarador
um terreiro bem varrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um forró de pé de serra
fogueira milho e balão
um tum-tum-tum de pilão
um cabritinho que berra
uma manteiga da terra
zoada no mêi da feira
facada na gafieira
matuto respeitador
padre, prefeito e doutor
os home mais entendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.




ORAÇÃO FORTE E MILAGROSA PARA AFUGENTAR O MAU-OLHADO DO CONGRESSO NACIONAL


(Jessier Quirino)





Modese obter um milagre bem milagrado e verdadeiro, o puxador da reza deve ter FÉ num partido defunto, porém, zero-cabaço de pebice e ladroagem.


A reza é pra ser tagarelada de boca toda, braço arribado e mão de abano, por cento e vinte beata, bem na frente do Congresso Nacioná. Primeiro, cada rezadeira faz um banho para lavagem da rampa e dos batente: 9 pimenta malagueta, 3 dedo de amoníaco, 9 folha de pinhão roxo, 3 alho macho, um taco de fumo de rolo, dois tõe de canela em pó, um trevo Amansa Tudo, 10 galho de Desempata, 3 folha de Vinde-cá e raspa do microfone do Congresso Nacioná. Mistura com dois litro de solução de bateria, nove pingo de mijo de senador, sobejo do cafezinho dum deputado risão, água de colônia da boa e dois dedo de cachaça. Enterra por sete dia e, naquela hora lá, tome-lhe banho de bassoura e etc. e coisa tá: escovão, palha de aço, também ácido muriático, água de matar verruga, creolina, soda cáustica, lixa 8, lixa 12 e fé em desempatar.


Para este banho a defumação é: 4 folha de Puçá, 3 caroço de Uxi e 3 broche de sutiã de uma caba eleitorá. Junta com um retrato de um prefeito honesto, sumo de vinte título de eleitor, mais a raspa da carteira de quatro vereador.


Com um rosário verde e amarelo em formato de pulseira e caindo pelas mão, o puxador da reza se benze com a bandeira do partido, e, de mãos ambas, dá de garra duma folha de coqueiro e vai fazendo cruz no espinhaço do Congresso como quem abana um elefante comilão e afundado no cocô. Concentra-se na força milagrosa do partido e larga o pau a rezar:





Oh, meu saudoso partido! Vós que aqui fostes nascido e aqui foste sepultado! No teu tempo esse Congresso era virge desse olhado!


Oh, Congresso Nacioná! Se com dois te botaram, com três eu te tiro; pelos poder do supremo, pelos poder dos poder; poder das força divina, poder do PPPP. (aí diz o nome do Partido cabaço de pebice e virge de ladroagem).


Se botaramna tua arquitetura, nas tuas grande vidraça, na tua rampa de subida honesta e descida mais-ó-meno, no teu lema de luta e teu passado de glória, todo olhar maldiçoado, tinhoso e excomungado há de se arretirar! Perdoai, oh perdoai! Mais duas vez perdoai, esses partido safado, ferino e falsificado lá da casa de carái!


Oh, meu Congresso sofrido! PPPP te conhece, PPPP te amou, PPPP te conserta, PPPP te liberta desse mal que te entrou.


O mesmo milagre te cure o ar torto; ar morto; ar quente; ar de arrenego; ar de projeto má votado; ar de riso e embromação; ar de toco e de propina; ar de 20, 25, 30, 40%; ar de discurso safado; ar de bajulação; ar toma-lá-dá-cá; ar de desculpa maldada; ar de rixa e deduragem; ar chegado à baitolagem; ar de raparigagem; ar de tapa e confusão; ar de lugar sem dono; ar de farra e gente ruim; ar de gente amundiçada, vadia e barra-pesada, ar traíra de Caim; ar de felaputice; ar de zona e lei-do-cão; quá-rá-quá-quá frente às câmara; ar batedor de carteira; ar de esculhambação!


Credo cruz, verbo em carne, padre virge e coisa e tá! (duas reza de ibope com mais três credo as avesso e três missa de Natá). PPPP teje contigo por quanto tempo durar. Pelos poder do supremo. Pelos poder dos poder. Poder das força divina. Poder do PPPP!


Depois da reza aplaudida o cabra solta um seguida, um tirinete de fogos do fumaceiro avoar, Estado Zunido zunir e corruto se mijar










Jessier Quirino é paraibano de Campina Grande, arquiteto por profissão, poeta por vocação, vive atualmente em Itabaiana. É o autor dos livros "Paisagem de Interior", "A Miudinha", "O Chapéu Mau", "O Lobinho Vermelho" e "Agruras da Lata D'Água", além de cordéis, causos, musicas e outros escritos. O crítico do Jornal do Commércio - Recife fez o seguinte comentário, quando do lançamento de seu último livro:

"A poesia matuta já é um estilo consagrado da literatura brasileira. Nomes como Patativa do Assaré, Catulo da Paixão Cearense e Zé da Luz são conhecidos em todo o país como os principais representantes do gênero. Um pouco menos famoso que os três, mas podendo ser considerado tão importante quanto, é Jessier Quirino, poeta paraibano que vem se destacando por seu estilo humorístico."

Fonte:

http://www.releituras.com/jessierq_menu.asp

10 dezembro, 2009

Comunidade "Soledad no Recife"

Amigos, amigas e resistentes




Foi criada no Orkut uma comunidade para o livro "Soledad no Recife". Está aqui http://www.orkut.com.br/Main?rl=ms#Community?cmm=96852995




Em Soledad no Recife, um narrador-personagem conta com um sentimento de amor os últimos dias de Soledad Barret. É um olhar de 37 anos depois para um dos muitos crimes hediondos da Ditadura pós 64.



O assassinato de militantes, em especial de Soledad Barret, grávida de seu ex-companheiro e infiltrado da Ditadura Militar, o famoso Cabo Anselmo, que a entregou a Fleury. "Nenhuma ficção sobre o período foi tão longe e nem tão fundo", na definição do escritor e ex-preso político Alípio Freire.



"Vamos, através desta comunidade, difundir a beleza deste livro..vamos discutir a 'sombra' que separa o os 37 anos do personagem-narrador...escancarar a ignomínia do Cabo Anselmo e a indecência desse crápula que mandou sua companheira e seu filho-feto para os porões da tortura e morte!! ", diz o perfil da comunidade.

10 novembro, 2009

UM ARTIGO POLÊMICO - Fernando Henrique Cardoso





Fernando Henrique Cardoso (Rio de Janeiro, 18-06-1931), antes, durante e depois da presidência da República, tem se portado como o intelectual e sociólogo que realmente é. Doutor em Ciências Políticas pela USP (1961), fez estudos de pós-graduação na Universidade de Paris. Na época da Revolução de 1964, exilou-se no Chile e depois na França. Nesses países, conviveu com dirigentes das principais organizações políticas internacionais, principalmente a ONU. Foi interlocutor de políticos importantes da América do Sul e da Europa. Trabalhou na CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e no ILPES - Instituto Latino-Americano de Planejamento Econômico e Social, onde também foi professor. Lecionou na FLACSO - Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, e na Universidade do Chile. Em Paris, para onde se mudou em 1967, foi professor da Universidade de Paris-Nanterre. De volta ao Brasil, em 1968, retomou a carreira acadêmica e assumiu a cadeira de Política na USP. Mais tarde, fundou o CEBRAP - Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Em 1969, publicou seu mais importante livro, Dependência e Desenvolvimento na América Latina (com Enzo Faletto) e, em 1971, Política e Desenvolvimento em Sociedades Dependentes: Ideologias do Empresariado Industrial Argentino e Brasileiro. Em 1975, saiu outra importante obra: Autoritarismo e Democratização. Antes de começar carreira política, lecionou nas universidades de Stanford (1972), Cambridge (1976-1977) e Paris (1977).

Seu primeiro cargo político, em 1978, foi como suplente de Senador pelo antigo MDB. Em 1980, participou da fundação do PMDB e, três anos mais tarde, assumiu o Senado, quando Montoro assumiu o governo de São Paulo. Reelegeu-se em 1986. Em 1985, havia se candidatado para a à prefeitura de São Paulo, mas perdeu para Jânio Quadros. Foi um dos fundadores do PSDB, em 1988. No governo de Itamar Franco, foi ministro das Relações Exteriores (1992-1993) e depois ministro da Fazenda (1993-1994). Neste cargo, lançou o Plano Real, com o qual o país conseguiu algo inédito, a estabilização econômica. Elegeu-se presidente como o candidato da aliança PSDB/PFL/PTB/PPB. Reelegeu-se em 1998, graças a uma emenda constitucional aprovada em seu primeiro mandato

Em julho de 1995, Fernando Henrique Cardoso foi homenageado com os graus de Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra e da Universidade do Porto, ambas em Portugal. É co-presidente do Inter-American Dialogue; membro dos Conselhos Consultivos do Institute for Advanced Study, da Universidade de Princeton; e da Fundação Rockefeller, em NovaYork.

Sobre política e governo, publicou Dependência e Desenvolvimento na América Latina, 1969; Perspectivas, 1983; O mundo em português, 1998; O presidente segundo o sociólogo, também 1998. Escreveu uma obra autobiográfica, em que avalia o seu governo, A Arte da Política: a história que vivi, 2006. Nesse mesmo ano, publicou Carta a um jovem político. Ainda em 2006, em 7 de setembro de 2006, lançou Carta aos Brasileiros, na qual analisa o momento político e as eleições de 2006.

Foi casado com a antropóloga Ruth Cardoso, discípula de Lévi-Strauss, na França. Ela foi professora e grande colaboradora do governo. Foi idealizadora e uma das criadoras da Comunidade Solidária, órgão ligado à Presidência da República, mas não-governamental - como ela própria gostava de salientar. A Comunidade Solidária reunia representantes de ministérios da área social, da sociedade civil e do empresariado. Segundo Dilma Pena, Secretária de Saneamento e Energia do Governo do Estado de São Paulo, Dona Ruth “mobilizou todo o País pela solidariedade, com uma política solidária respeitosa para que cada vez mais o brasileiro fosse cidadão no sentido pleno”.

Recentemente, Fernando Henrique Cardoso publicou um artigo, Para Onde Vamos?, que se tornou polêmico pelos problemas que enfoca:

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da terra”, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?

Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.

É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista” deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha casa, minha vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que tivesse se esquecido de acrescentar “l’État c’est moi”. Mas não esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.

Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.

Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde.

ALGUNS COMENTÁRIOS:

1. Elio Gasperi, jornalista, em artigo intitulado: FHC Expôs o Lado Sombrio do Poder Petista:

“Fernando Henrique Cardoso está em grande forma. Num artigo intitulado ‘Para onde vamos?’ mostrou que é a única voz articulada com coragem para acertar a testa de Nosso Guia. (...)

Seu argumento central faz todo sentido: Lula está construindo uma teia de alianças e interesses que desembocará num "subperonismo". (...) O ex-presidente adverte para a formação de um novo ‘bloco de poder’, interessado num continuísmo que deve ser contido, pelo voto, ‘antes que seja tarde’.

Em dois momentos o ex-presidente teve a infelicidade de comparar atitudes do atual governo com práticas do tempo do "autoritarismo militar". Lula, com seus ‘impropérios’ é capaz de ‘matar moralmente empresários, políticos, jornalistas’. O ex-presidente exagerou”.

2. Carlos Guilerme Mota, historiador, na entrevista O risco de uma nova marcha autoritária, Gazeta do Povo, 09/11/09:

Pergunta: O ex-presidente FHC acertou ao dizer que o governo Lula conduz o Brasil para um subperonismo?

Resposta: “Prefiro definir o cenário como um superpresidencialismo desbussolado e pitoresco. A nação assiste, bestificada, à montagem de um novo bloco de poder. O tratamento dado ao segmento social que o governo entende por povo tem algo em comum com o dos descamisados de Evita e de Perón, mas é pior”.

Pergunta: No que é pior?

Resposta: “Porque o populismo de Perón politizava, e o pobrismo daqui avilta. O assistencialismo brasileiro é deprimente, pois trata esses condenados da terra como fracassados. E as condições de melhoria social – tão sonhada e ensinada por figuras como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro ou Florestan Fernandes – são pífias. Aqui o capitalismo andou para um lado e a política social andou para outro. Basta ver que o governo não consegue encaminhar a questão dos sem-terra, por exemplo.(...)”.

3. José dos Santos, em http://joseagripino.wordpress.com/2009/11/04/para-onde-vamos-de-fernando-henrique-cardoso/

Como bem disse Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.

Porém, podem me bater, o FHC foi mais importante pro país do que Lula, e Lula sabe disse. O FHC implantou mudanças estruturais no país. E o Lula, o que mudou na superestrutura do país? (...)

O grande pecado do FHC: privatizações. Foi a coisa mais demoníaca que o FHC fez. E o Lula, quantos empresas reestatizou? 0x0. Ou seja, o Lula é mais “privatista” do que o FHC, pois apenas chancelou o grande pecado do FHC. Por que não seguiu o exemplo do Chaves? O Chaves foi coerente, pois, ao contrario do Lula, estatizou (...).

Eu morei no interior do Pará antes e depois da CELPA ser privatizada. Simplesmente era impossível ter freezer. Assim que congelava, acabava a luz e todo que tinha lá o povo tinha que engolir correndo, se não estragava tudo. (...)Tá precisando cortar a grama, como falar com o cara. Só pegando o carro e indo atrás dele. Hoje, dá pra chamar o cara tanto em casa como na rua: a miragem estatal do telefone pra pobre, acabou. Ele tem celular e linha fixa.

Aliás, as estatais que ficaram, serviram, principalmente, pra cabide de emprego. (...) E o requisito pra contratar esses caras, tenho certeza, foi só e apenas “mérito”, não é verdade? (...) Já imaginou se o FHC não tivesse privatizado aquele monte de estatais? Cara, ia ter petista saindo pelo ralo.(...) Um dos motivos da Petrobras ter que fazer empréstimo no BNDES (inacreditável) foi o inchaço da estatal. Aliás, foi a estatal que mais “ajudou” os “companheiro”. (...)

Ah! a Vale foi vendida abaixo do valor de mercado. Qual o melhor parâmetro pra saber o valor de mercado de qualquer bem? Colocar à venda, é obvio. O preço pelo qual é vendido é valor de mercado. Aliás, não teve venda mais divulgada, até hoje, do que a Vale. Todo mundo sabia do Leilão. (...) Pergunto: como pode ter malandragem na venda da Vale? (...) E a EMBRAER? Tornou-se a 3.ª maior fabricante de aviões. Pergunto: vocês acham que foi ruim o FHC “entregar” a EMBRAER pros malvados capitalistas?

O maior mérito do Lula, com certeza, foi na economia. Quem é que promoveu as mudanças necessárias pra arrumar a economia? Não preciso dizer, todo mundo sabe quem foi. (...)Um avanço importante na educação foi estabelecer uma prova universal para todo mundo que acabava o ensino médio e superior. Também mudou de nome. Era “provão”, agora é... esqueci o nome, me lembrem.

4. É bom lembrar e eu lembro bem de uma decisão tomada contra membro de sua própria família. Seu filho era casado com uma herdeira do Banco Nacional. Ele, como Presidente e com o objetivo de sanear o sistema bancário nacional, para que não acontecesse o que aconteceu recentemente nos EUA e no mundo, decretou a falência do Banco da família Magalhães Pinto. Do mesmo modo, assinou o encerramento das atividades do Banco Bamerindus de propriedade do senador paranaense, José Eduardo de Andrade Vieira, ministro da Indústria, Comércio e Turismo (out.1992/dez.1993) e cumulativamente de set./1993/out. 1993 com o Ministério da Agricultura, no governo Itamar Franco e, portanto seu colega de Ministério. Depois, Andrade Vieira participou do governo de Fernando Henrique Cardoso, no cargo de Ministro da Agricultura, Abastecimento e Reforma Agrária de jan.1995/maio 1993. Este banqueiro e político paranaense, grande amigo pessoal de Fernando Henrique e que foi participante ativo e grande financiador da campanha para a eleição do próprio Fernando Henrique à presidência da República, teve seu Banco e de sua família liquidado. Com a decretação do fim do Banco Bamerindus, o banqueiro teve todos seus bens, como os da sua família, tornados indisponíveis. Os ativos do Bameríndus de que Eduardo Vieira era Presidente foram transferidos para o grupo HSBC.

5. Com estas medidas e outras liquidações, o governo de Fernando Henrique Cardoso conseguiu sanear o sistema bancário brasileiro e nenhum depositante teve prejuízo, porque antes, como presidente da República, FHC havia criado o PROER - Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional.



JAYME FERREIRA BUENO, 10/11/2009

07 novembro, 2009

Algumas falas...













"O Rio de Janeiro não é violento"
[Depois, lamentou-se...]

José Mariano Beltrame secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro




“Que bom companheiro Arruda que a gente tenha uma polícia ganhando um salário razoável, que a gente tenha uma polícia ganhando aquilo que merece e uma polícia do ponto de vista da sua formação profissional muito mais qualificada. Para que a gente tenha a certeza que a única hipótese de a gente não ter um policial levando propina da bandidagem é o policial ganhar o suficiente para cuidar da sua família”



Luiz Inácio Lula da Silva - Presidente.









Imagem disponível no Google

04 novembro, 2009

Claude Lévi-Strauss

“O antropólogo é o astrônomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para as configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento, das que estão imediatamente próximas do observador.”
“Anthropologie Structurale”, 1967



" O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas".
"The Raw and the Cooked", 1964.




“A linguagem é uma razão humana que tem suas razões, e que o homem não sabe.” –
“La pensée sauvage”, 1963.



“Nada se parece mais com o pensamento mítico que ideologia política.” –
 “Anthropologie Structurale”, 1967.



“A humanidade está constantemente às voltas com dois processos contraditórios, um tende a criar um sistema unificado, enquanto o outro visa manter ou restaurar a diversificação.” –
“Race et histoire”, 1952.






Sugestão de Leitura - Blog do Prof. Jayme Bueno:

http://jaymebueno.blogspot.com/2009/11/claude-levi-strauss-pensador-frances-e.html



Vale a pena conferir!

22 outubro, 2009

PRÊMIO NOBEL - HERTA MÜLLER – OBRA POLÍTICA - Por Jayme Bueno



PRÊMIO NOBEL - HERTA MÜLLER – OBRA POLÍTICA








Herta Müller, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura - Capa da edição alemã – Capa da tradução brasileira



1. Prêmio Nobel – o teor político

Este prêmio foi instituído em 1895, pela vontade expressa em testamento de Alfred Nobel (1833-1896), industrial sueco. A partir da nitroglicerina, Nobel patenteou a hoje conhecida dinamite. A fortuna adquirida pelo industrial com o novo produto foi destinada à criação de uma fundação e de um prêmio. Ambos, fundação e prêmio, mais tarde, em memória de seu fundador receberam o nome de Nobel.

Os prêmios concedidos oficialmente pela Fundação Nobel são apenas cinco: 1. Medicina, 2, Física, 3. Química, 4. Literatura e 5. da Paz. O de Economia, cujo nome verdadeiro é Prêmio de Ciências Econômicas Sveriges Riksbank em Memória de Alfred Nobel, não é de responsabilidade da Fundação Nobel. Foi instituído em 1968 pelo Banco Central da Suécia, instituição que concede o prêmio com dinheiro próprio e começou a ser atribuído em 1969. Só como uma homenagem, o prêmio de Economia pode ser chamado de Prêmio Nobel.

Nas cinco categorias oficiais, o Prêmio Nobel começou a ser concedido em 1901. Inicialmente, e por vontade de Nobel, deveria ser entregue a jovens cientistas que necessitassem de uma ajuda financeira para se dedicarem inteiramente às pesquisas. Mais tarde, a Fundação, por medo de críticas por poder atribuir a alguém que não viesse a se destacar na área de sua atuação, passou a concedê-lo a pesquisadores, intelectuais ou pessoas importantes com obra já publicamente reconhecida. Assim, o objetivo fundamental do prêmio foi de certo modo desvirtuado.

A atribuição do Prêmio passou também a assumir um caráter político, de acordo com as tendências do momento. No caso do Prêmio de Economia, A Fundação Humboldt, uma das mais renomadas instituições de apoio científico da Alemanha, tem concedido o Prêmio sistematicamente a economistas humboldtianos. “Os Nobel de Economia de 2009, assim como outros 41 ganhadores do prêmios Nobel, são ‘humboldtianos’". O presidente do comitê que outorga o Prêmio procura defender-se ou, ao menos, abrandar a situação, quando declarou à France Press: "as tendências políticas dos ganhadores do prêmio são muito variadas. Alguns são claramente conservadores ou de direita, enquanto que outros são obviamente de esquerda, ou pelo menos do centro do espectro político”.

Em 1905, o Prêmio da Paz foi concedido a Bertha von Suttner, não só uma pacifista, como a pessoa que inspirou ao seu amigo Alfred Nobel a criação do prêmio. Foi considerada na época a figura máxima do movimento pacifista em todo o mundo. Ela lutava intensamente contra o fanatismo nacionalista, contra o militarismo que começava a tomar corpo no início do séc. XX, mas principalmente contra o anti-semitismo.

No caso específico da concessão do Prêmio de Literatura neste ano a Herta Muller, a Academia justifica com um argumento literário e ao mesmo tempo político, quando afirma que a obra: “com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, descreve a paisagem dos despos¬suídos”. Acrescenta mais um argumento, este somente político: O Comitê “reconheceu uma auto¬ra que se recusou a deixar o lado inumano da vida sob o comunis¬mo ser esquecido, 20 anos depois do fim do conflito Leste-Oeste”.

Lya Luft, a tradutora da versão portuguesa de Heute wär ich mir lieber nicht begegnet, declara sobre o Prêmio: “Prêmios de literatura são em geral muito estranhos”, e acrescenta: “Muitos (autores premiados) não são interessantes, nem muito bons, e a gente não sabe por que ganha”.

2. A escritora romeno-alemã Herta Müller

Herta Müller nasceu em 17 de agosto de 1953, em Nitzkydorf, um vilarejo da região de Banat, na Romênia. Aí se localizava uma grande comunidade de imigrantes alemães, conhecidos por Donauschwaben, os “suábios do Danúbio”. Na época do Nazismo, muitos romenos de ascendência alemã foram deportados para campos de trabalhos forçados na União Soviética. Dentre eles, encontrava-se a mãe de Herta Müller, que passou cinco anos na região da Ucrânia. Em livro atual, Atemschaukel (“Ritmo da respiração”), Herta Muller retrata o exílio desses romenos na URSS.

Entre os anos de 1972 e 1976, Herta Müller estudou filologia germânica e românica em Temeszwar (Timisoara), a capital da região de Banat, na Romênia. Nessa época, ingressou no Aktions-gruppeBanat, que reunia intelectuais que se opunham ao regime de Ceausescu e lutavam pela liberdade de ex¬pressão.

Depois de 1976, passou a trabalhar como tradutora em uma fábrica de máquinas. Logo, porém, é despedida por não aceitar colaborar com a policia secreta do regime romeno, a Securitate. Passa, então, a trabalhar como professora. Também por motivos políticos, foi impedida de exercer esta função.

As suas más experiências com a polícia secreta do regime comunista da Romênia vão-se tornar o tema da sua vida. Os livros de Herta Müller descrevem, de forma crítica, o tempo da ditadura de Ceausescu, contituindo uma espécie de ajuste de contas com esse passado tenebroso.

O primeiro livro de Herta Müller, Niederung (traduzido como Depressões) são contos que focalizam a vida no pequeno vilarejo onde nasceu com o cenário de repressão que se vivia ali. A obra foi censurada pelo governo comunista. Em 1984, a obra foi contrabandeada para a Alemanha, onde fez sucesso. No mesmo ano, ela lançou na Romênia Drückender Tango (traduzido como Tango opressivo). Dentro do mesmo espírito de crítica à situação política, o livro foi também proibido, e a autora passou a ser proibida de voltar a publicar. Perseguida pela ditadura romena, Herta e seu marido emigraram para a Alemanha em 1987. Dois anos depois, caiu o regime comunista de Ceausescu.

Contabilizados os prêmios que não foram atribuídos por alguma razão geralmente guerras - anos de 1918 e de1940 a 1943) e considerando as vezes que o prêmio foi atribuído a dois ganhadores em uma mesma edição (1904, 1917, 1966 e 1974), Herta Müller assumiu o número107 na lista dos ganhadores do Nobel de Literatura. Herta Müller tornou-se a 12.ª mulher a receber o Prêmio.

Dentre suas obras principais, além das duas primeiras, já referidas, destacam-se: os romances Der Fuchs war damals schon der Jäger,1992 (“A raposa era o próprio o caçador”), Herztier 1994 (“Animal do coração”) e Heute wär ich mir lieber nicht begegnet,1997 (“Hoje eu não gostaria de me encontrar”), obras que, segundo o Comitê do Prêmio: “apresentam, com detalhes primorosos, um retrato da vida sob a estagnação da ditadura”. Além desses: Der Mensch ist ein groβer Fasan auf der Welt, 1986 (“O homem é um grande faisão sobre a terra”); Barfüβiger Februar, 1987 (Fevereiro descalço); Reisende auf einem Bein, 1989 (“Viajante em uma perna”); Der Teufel sitzt im Spiegel, 1991 (“O diabo está no espelho”); Eine warme Kartoffel ist ein warmes Bett, 1992 (“Uma batata quente é uma cama quente”); Der Wächter nimmt seinen Kamm, 1993 (“O vigia pega o seu pente”); In der Falle, 1996 (Na armadilha); Im Haarknoten wohnt eine Dame, 2000 (“No nó do cabelo vive uma senhora”); Heimat ist das, was gesprochen wird, 2001 (“Pátria é o que é falado”); Der König verneigt sich und tötet, 2003 (“O rei se inclina e mata”); Die blassen Herren mit den Mokkatassen, 2005 (“Os pálidos homens com as xícaras de cafezinho”); e Atemschaukel, 2009 (“Ritmo da respiração”). Há ainda um livro de ensaios Hunger und Seide,1995 (“Fome e seda”).

As suas obras vêm sendo traduzidas para o inglês, espanhol, francês e sueco. A única obra em português é a tradução brasileira de Heute wär ich mir lieber nicht begegnet feita por Lya Luft, escritora também nascida em reduto de fala alemã, aqui no Brasil, no interior do Rio Grande do Sul. Foi publicada pela Editora Globo, em 2004. Nessa obra, a escritora retrata as dificuldades e as humilhações vividas por ela na Romênia da época comunista. Na edição brasileira, a obra recebeu o título de O Compromisso, contra a vontade da própria tradutora, que desejava algo mais próximo do título alemão, que é algo como “Hoje eu não desejava me encontrar”. Muitos traduzem, porém, como “Hoje eu não gostaria que me encontrassem”. Os que o fazem assim talvez tenham sido influenciados pela história de perseguição que a personagem vive na obra.

O título brasileiro O Compromisso teria sido escolhido pela Editora, levada pela tradução americana, em que a obra se intitula The Appointment. É interessante notar que em francês o livro recebeu o título de La Convocation. A ideia de convocação aparece já no início da narrativa: “Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto. / Sou convocada cada vez com maior freqüência...”

É interessante notar que Lya Luft não deu nenhuma importância ao livro que traduziu. Chegou a dizer que, ao traduzi-lo, a obra de Herta Müller não chamou a sua atenção.

Ao receber a notícia que Herta Müller havia vencido o Prêmio Nobel de Literatura, a escritora brasileira teve uma reação como a de muitas outras pessoas: "nunca ouvi falar". Declarou ela: "Não me chamou muito a atenção. Esqueci dele. Não foi um livro particular para mim, nem nunca mais tinha ouvido falar da autora", disse Luft por telefone ao Globo. Alegou, porém, que o motivo do esquecimento foi o fato de o livro no Brasil ter saído com título diferente do que ela havia proposto. Não lembra exatamente qual foi o título que sugeriu, só sabe que era algo mais parecido com o título original. De modo crítico, a acrescenta: “Na minha opinião, não era um livro importante. Era só um dos muitos que já traduzi. Confesso que nunca pensei, ‘puxa, isso ainda vai dar o Prêmio Nobel’.”. Desculpa-se, porém, quando afirma não ser especialista em literatura alemã. Lya Luft já traduziu os escritores alemães Hermann Hesse (este também suábio, como Herta Muller); Thomas Mann (Prêmio Nobel de Literatura, 1929); e Günter Grass (Prêmio Nobel de Literatura, 1999). Para estes autores, a tradutira não economiza elogios. Porém, sobre Herta Muller e seu livro, ela reafirma de modo cáustico: “não tenho coisas interessantes para dizer”.

3. O político na obra de Herta Müller

A obra de Herta Müller na sua grande maioria busca retratar a vida sob a ditadura socialista de Nicolae Ceausescu na Romênia, principalmente as dificuldades, humilhações e sofrimentos infligidos aos imigrantes e mesmo aos próprios romenos que se colocassem contra o governo, ou mesmo que se negassem a colaborar com a Securitate, a polícia política. Herta foi uma dessas perseguidas, como havia sido a sua mãe na região da Ucrânia pelo regime comunista de Moscou.

Os dois livros, Niederungen (1982) e Drückender Tango (1984) têm como tema a vida dos habitantes de uma pequena cidade romena de maioria alemã. A autora serviu-se, como modelo, do vilarejo Nitzkydorf, onde nasceu e passou os seus primeiros anos de vida. Aí, as pessoas tinham de conviver com a corrupção, a intolerância e a repressão sem que puedessem expressar-se contra tal situação. Em obras mais recentes como Der Fuchs war damals schon der Jäger (1992), Herztier (1994) e Heute wär ich mir lieber nicht begegnet (1997), o tema é também a vida sob a ditadura que imperou naquele país até a queda de Ceasescu. Na última dessas três obras, um oficial da polícia secreta persegue e assedia uma trabalhadora de uma fábrica de roupas (A autora foi empregada em uma fábrica, na qual foi perseguida e depois despedida por motivos políticos). A personagem com frequencia é “convocada”, para ser interrogada em datas aleatórias e sobre acusações despropositadas e completamente sem sentido. Essa fixação na convocação torna-se um dos motivos condutores da obra. Assim, ela inicia o livro e sempre volta a essa ideia.

Vários outros de seus livros falam da vida da minoria alemã, sob um regime opressivo principalmente em três aspectos: falta de liberdade, intolerância racial e cultural, e a opressão dos homens sobre as mulheres.

Ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura Herta Müller declarou , sobre o conteúdo de seus livros:

1. “Ich bin überrascht und kann es noch immer nicht glauben, mehr kann ich im Moment nicht dazu sagen” – (“Estou surpresa e ainda não consigo acreditar; neste momento não consigo dizer mais nada.”).

2. “Minha escrita sempre tratou de como uma ditadura surge, como uma situação pode ocorrer em que um punhado de pessoas poderosas dominam um país e o país desaparece, e só resta um Estado”.

3. “Acho que a literatura sempre emerge de coisas que fizeram dano a alguém, e há um tipo de literatura em que os autores não escolhem seu assunto, mas lidam com um que lhes foi lançado - não sou a única escritora assim”.

No caso da tradução brasileira é interessante notar que a tradutora, Lya Luft, afirma que havia esquecido que fora ela quem traduzira Heute wär ich mir lieber nicht begegnet. Disse ela: “Só fui me recordando quando entrei na internet, lendo que trata de um dos grandes fantasmas da Europa, da opressão desses países. É uma personagem bastante kafkiana, com essa coisa persecutória da pessoa que se vê envolvida em uma situação a que não sabe como chegou, sempre muito fragilizada”.

Fica patente, assim, a inclinação política da obra de Herta Müller, principalmente após a leitura de um fragmento de O Compromisso.O trecho de Heute wär ich mir lieber nicht begegnet (1997), traduzido do alemão por Lya Luft e publicado no Brasil em 2004, é o que segue:



Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.

Sou convocada cada vez com maior freqüência: às dez em ponto na quinta, às dez em ponto no sábado, na quarta ou na segunda. Como se os anos fossem uma semana, fico imaginando que depois do fim de verão logo teremos outra vez inverno.

No trajeto até o bonde os arbustos voltam a emergir através das cercas, com suas frutinhas brancas. Como botões de madrepérola costurados embaixo, talvez até terra adentro, ou como migalhas de pão. Para cabecinhas de pássaros com bicos tortos, as frutinhas são pequenas demais, mesmo assim penso em cabeças de pássaros brancos. E isso dá vertigem. Prefiro pensar em flocos de neve no capim, mas aí a gente se perde, e pensar em giz nos dá sono.

O bonde não tem horários fixos.

Penso que é ele que chega rumorejando, se não forem os choupos com suas folhas duras. Está chegando, o bonde, e hoje me levará logo. Estou decidida a deixar o velho de chapéu de palha embarcar na minha frente. Quando cheguei ele já estava na parada, sabe lá fazia quanto tempo. Não parece frágil, mas é magro como sua sombra, meio corcunda, e abatido. Não tem bunda para encher os fundilhos, nem quadris, só os joelhos marcam a calça.

Mas se no exato momento em que a porta do bonde se abrir ele resolver escarrar no chão, eu embarco antes dele. Quase todos os assentos estão livres, ele os examina com o olhar e fica de pé.

Como é que gente tão velha não fica cansada e insiste em ficar de pé mesmo quando se pode sentar. Às vezes, ouvimos os velhos dizerem: Já vamos ficar deitados tempo suficiente no cemitério. Mas nem estão pensando em morrer, e têm razão. Não há uma ordem fixa, jovens também morrem. Sempre que não preciso ficar de pé, eu me sento. Viajar sentado é como caminhar sentado. O homem me examina, é fácil perceber isso no carro vazio. Hoje estou sem vontade de conversar, senão perguntaria o que é que ele vê em mim. Nem se apercebe que seu olhar me incomoda. Lá fora passa metade da cidade, alternando-se entre árvores e casas. Dizem que gente de idade sente mais do que pessoas jovens. Talvez ele até perceba que hoje tenho na bolsa uma toalhinha de rosto e pasta de dentes, além de uma escova. Mas nada de lenço, pois não pretendo chorar. Paul nem percebeu como eu estava com medo de que hoje Albu pudesse me levar para a cela debaixo do seu gabinete. Eu não lhe disse nada; se acontecer, ele vai saber logo. O bonde anda devagar. O chapéu de palha do velho tem uma fita manchada, provavelmente de suor ou chuva. Como sempre, Albu vai me saudar com um beijo na mão molhado de cuspe.

O major Albu pega minha mão nas pontas dos dedos e aperta tanto minhas unhas que quase solto um grito. Beija meus dedos com o lábio inferior, o superior fica livre para poder falar. Sempre beija minha mão do mesmo jeito, mas ao falar, cada vez diz uma coisa diferente:

Ora, ora, hoje seus olhos estão inflamados.

Parece que você está ficando com buço, meio cedo na sua idade.

Ora, hoje a mãozinha está gelada, espero que não sejam problemas de circulação.

Ora, ora, sua gengiva está murchando como se você fosse a sua avó.

Minha avó não envelheceu, eu digo, ela nem teve tempo de perder os dentes.

Albu deve saber o que aconteceu com os dentes de minha avó, por isso menciona o fato.

Uma mulher sempre sabe como está sua aparência a cada dia. E que um beijo na mão, primeiro, não deve doer, segundo, não deve ser molhado, terceiro, deve ser dado nas costas da mão. Homens sabem ainda melhor do que mulheres como deve ser um beijo na mão, certamente também Albu. Toda a cabeça dele cheira a Avril, um perfume francês que meu sogro, o comunista de perfumaria, também usava. Nenhuma outra pessoa que conheço compraria esse perfume. No mercado negro custa mais do que um terno numa loja. Talvez se chame Setembro, mas eu sempre reconhecerei aquele odor amargo e fumacento de folhas queimando.

Quando me sento junto da mesinha, Albu vê que esfrego os dedos na saia, não apenas para voltar a senti-los, mas também para limpar o cuspe. Ele revira seu anel de sinete e dá um sorrisinho. E daí, a gente pode limpar o cuspe, ele seca sozinho e não é venenoso. Todo mundo tem cuspe na boca. Tem gente que cospe na calçada e esfrega com o sapato porque nem mesmo na calçada sedeveria cuspir. Albu certamente não cospe na calçada, ele banca o cavalheiro refinado nesta cidade onde não o conhecem. Minhas unhas doem, mas nunca ficaram roxas do seu aperto. Elas acabam se descontraindo, como acontece quando está muito frio e a gente entra num lugar quente. O veneno é eu acreditar que meu cérebro escorrega para a frente, sobre a cara. É humilhante, não há outra palavra, sentir-se descalça no corpo inteiro. Só que, quando a melhor palavra ainda não é suficiente, não se pode dizer muita coisa com palavras.

4. Comentário sobre o texto

Do ponto de vista político, pode-se perceber por este curto trecho de O Compromisso o ambiente de perseguição e terror em que se vivia na Romênia sob o domínio da ditadura de Nicolau Ceasescu. Mesclando aspectos sociais e psicológicos, a autora nos leva a acompanhar a trajetória da personagem com suas observações sobre principalmente um dos passageiros, o velho, que surge na narrativa como uma espécie de contraponto entre a velhice e a juventude. Há em meio à paisagem humana também a paisagem da natureza, as plantas, flores, pássaros. Sempre, porém, está a ideia do regresso do inverno. A personagem, pouco a pouco, vai antecipando o que pensa que irá acontecer na inquirição a que será submetida. Para isso, ela foi convocada mais uma vez. Segue firme e com o propósito de não chorar. Fica a pensar em seu companheiro Paul, de quem se despediu antes de seguir para a entrevista com o comissário Albu.

A constante convocação e os contínuos depoimentos que a personagem tem de prestar a um comissário “pegajoso” refletem por si sós uma forma de constante tortura. Tudo isso transfere à protagonista esse eterno sentimento de asco, de humilhação, de sentir-se de corpo despido e com o cérebro como se continuamente se deslocasse para a frente. Chega a sentir a impossibilidade de dizer com a palavra, seja ela qual for, o que realmente sente.

Esses aspectos contidos no trecho inicial de O Compromisso justificam o comentário do Comitê da Academia de Estocolmo ao anunciar a concessçao do Prêmio Nobel de Literatura de 2009: “com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, descreve a paisagem dos despos¬suídos”. “A paisagem dos despossuídos” tem sido a forma usada pela imprensa, talvez por se considerar politicamente mais correta, para o texto original da Academia, que seria: “a paisagem dos errantes e perseguidos”.

10 outubro, 2009

SOLEDAD NO RECIFE - LIVRO DE URARIANO MOTA

SOL: A MÁRTIR DO PERNAMBUCANO URARIANO MOTA
(Luiz de Almeida)*

     Minhas lentes já estavam vencidas, prejudicando assim qualquer esforço para uma rápida leitura, mesmo tendo a prática da leitura dinâmica. Mas, ao receber o livro do meu amigo Urariano Mota, Soledad no Recife, não tive outra escolha após ler os textos do Alípio Freire e a apresentação do Flávio Aguiar: Primeiro fui passar um novo café, conferir o maço de cigarros e ajeitar o abajur ao lado da escrivaninha. Enquanto a água fervia, lembranças já vagaram e divagaram pela mente: ditadura militar, 1970, Grêmio Estudantil Guilherme de Almeida e o grande jornal “Cadelão Taimes” (Não é erro de digitação, o jornal tinha esse “nome”), DOI/CODI, OBAN, Cemitério Dom Bosco no Distrito de Perus/SP, assassinato do José Maria Ferreira Araújo (ou Edson Cabral Sardinha), assassinato do jornalista Luiz Eduardo Merlino (SP), Mário Alves (RJ), o sumiço do Rubens Paiva, e... Mentira, traição e medo. Um resíduo de raiva parecia renascer dentro do peito trazendo a execrabilidade da minha paz interior.
     Nas primeiras páginas não consegui discernir o escritor do personagem. Vibrei. Ele seria ele uma testemunha ainda viva? Aos poucos essa pré dedução foi sendo desfeita pela imaginável fisionomia facial e contornos corporal de Soledad. Daniel seria apenas um coadjuvante. E fui degustando página a página, um café, outro cigarro, divagações entre uma tragada e outra, novas lembranças... Meu Deus, quatro horas da madrugada e só então percebi que havia parado de ler na página 86. O café não desceu e com as mãos trêmulas, mal consegui ascender mais um cigarro. Um trepidar incontrolável dos lábios, soluços e lágrimas. As palavras do cabo Anselmo descritas por Urariano fizeram-me estremecer de raiva. Episódios de traição maligna medraram na minha mente. Lembrei-me do episódio do “Cadelão Taimes”, onde eu e meus outros amigos fomos abandonados por um “anselmo” do grupo que se passava por amigo, justo nas ocorrências da censura e prisão do Jornal. Descobria ou relembrava, não sei até agora discernir corretamente, que aqui em Piraju também existiu e ainda vive um traidor com atitudes similares às do mentiroso, covarde e traidor cabo Anselmo, pois no momento do aperto, enquanto éramos “solicitados” para deixar a escola e chamados para depoimentos, como fui no DOI/SP, o borra-botas fugiu. E continua assim até hoje, mentiroso e traidor. Apesar de tudo: sinto pena, pois ao vê-lo pelas ruas só consigo avistar um derrotado e sem prestígio, e que ainda se presta ser boi-de-piranha no meio político daqui. É ainda daqueles que mente e acredita nas suas próprias mentiras.
     Mais calmo, retomei o livro e custou-me parar de virar e desvirar as páginas 89 até a 86. Aquelas imagens de Soledad me cativaram. O sorriso estampado numa face sincera reflete bem o eu interior daquela mulher. Sorriso igual só havia visto em 1970, na face de outra mulher, minha mãe, de nome Zita, ao ver-me entrando portão adentro retornando de São Paulo após uma noite e um dia de privação no DOI, ocasião que fui salvo pelo meu tio Luiz Alves de Almeida, um sargento da antiga polícia Metropolitana e participante ativo da OBAN, que somente em 2007 fiquei sabendo que havia falecido. A causa-morte eu não sei até hoje.
     Li até a síntese biográfica. Já era dia. Meus olhos ardiam e a língua ficara áspera de tanto café e cigarros. Não estava com sono, mas ainda em estado de raiva e êxtase misturados. Esqueci da Sol e lembrei-me do Urariano. Voltei abrir o livro no “capítulo 13”: Um livro se constrói sob dificuldades – na penúltima linha onde Urariano cravou: “(...). Bem sei que autores não choram. Autor deve ser duro e frio. (...)”. Aqui, o único ponto que discordei do Urariano, pois se “autores” não choram, não têm o direito de fazer seus leitores chorarem.
     Está marcado para o final deste mês, provavelmente no dia 25, eu ler este livro novamente. Só que agora o lerei em voz alta e com platéia. Essa platéia é especial, pois será composta de apenas duas pessoas. Um casal amigo. Moram em Botucatu/SP. Ele é cego. Estudou comigo no colégio interno quando tínhamos 12, 13 anos. Em 1971, numa manifestação estudantil, estilhaços de uma possível granada desfiguraram seu rosto e a visão. Era um líder estudantil e cursava medicina. Hoje, casado com aquela que foi sua namorada desde 1970, escutei seus berros de alegria e urros e mais urros quando falei com ele ao telefone e contei sobre o livro do Urariano que acabara de ler. E ouvia sua esposa, ao seu lado, dizendo: é a Sol assassinada em Recife, é a Sollll... Confirma o livro é sobre a Sol. Perguntaaaa. E foi o que aconteceu. Confirmei ser realmente a Sol, Soledad Barrett Viedma.
     Fiz esse preâmbulo apenas para comentar sobre o Urariano e seu livro Soledad no Recife, lançado dia 29 de julho deste ano, pela Boitempo Editorial, São Paulo. É difícil falar do Urariano como pessoa, pois não o conheço pessoalmente, apenas pela Internet. Tive a honra de receber matéria de sua autoria para postar no meu Blog Retalhos do Modernismo. Mas, gostaria de tecer alguns comentários a respeito dele, primeiro apenas o meu Dileto Amigo Urariano “virtual”:
     - Percebi seu potencial quando me enviou o texto para postar no meu Blog. Antes de ler Soledad no Recife, conheci Urariano por foto, que postarei no final. Meu filho é fotógrafo profissional. Ele me ensinou que, tirando as pessoas que são modelos profissionais, nós, os simples mortais, sempre estampamos na fisionomia eternizada numa foto, todo o nosso eu interior e os nossos sentimentos mais aguçados naquele momento do clique da máquina. E nessa foto do Amigo Urariano, percebe-se, refletido na sua fisionomia, o seu interior inquieto e recheado de honestidade e justiça – grandezas essas que estão se escasseando dia após dia. Percebi sua satisfação e alegria por ter tido a coragem de ressuscitar a Soledad que existe dentro de cada um de nós, pelo menos dentro daqueles que não são “traíras”, medrosos e mentirosos. Urariano, meu amigo “ainda” virtual, ainda terei a oportunidade de um dia poder abraçá-lo – e que nesse dia haja Sol. Considero Você, Dileto Urariano, o Ernesto Cardenal Pernambucano (guardada as devidas diferenças de credo religioso).
     O Escritor Urariano: Sinceramente? Ao ler Soledad no Recife, fica difícil definir o estilo urarianico: um Romancista? Um Contista? Não seria ele um Poeta? Você, nobre Escritor Urariano, caso tivesse escrito o Soledad como auto (O Auto de Soledad no Recife), não teria tirado o efeito proporcionado pela belíssima forma utilizada. É indecifrável a forma do Soledad. Posso apenas cravar aqui uma única e ousada opinião pessoal:
     - “Você conseguiu com Soledad no Recife adentrar-se no rol dos escritores mais nobres deste país”.
     Dileto Urariano: concluo este meu artiguete feliz por ter tido a oportunidade de ler o teu Soledad no Recife e talvez ter sido, na minha edição, o teu primeiro autógrafo do lançamento. Parabenizo a Boitempo Editorial, pois sei muito bem que muitas outras grandes editoras não suportam esse estilo de texto. Acho que ainda existem Editores que tremem quando estão diante de textos que focam os delitos e os genocídios ocorridos no Brasil durante a ditadura pós-64. Não posso deixar de elogiar também a maravilhosa apresentação do Flávio Aguiar e a belíssima síntese do Alípio Freire.
     E ao Dileto leitor deste Blog: Caso ainda não teve a oportunidade de ler Soledad no Recife, procure adquiri-lo. Faça um bom café ou chá, e comece a ler num dia que não tenha nenhum compromisso, pois você não conseguirá parar. E não tenha vergonha de sentir raiva e chorar, pois a história é ficção, mas os personagens e os fatos foram e ainda são reais, assim como muitos outros fatos similares ainda não foram devidamente explicados – e que mais nenhuma “Sol” venha tornar-se mais uma “mártir” neste nosso país.


Urariano Mota com a filha de Soledad no dia do lançamento do livro - 29 de Julho de 2009 - São Paulo.
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* (Luiz de Almeida (57): Piraju, São Paulo. Escritor e Pesquisador da Semana de Arte Moderna de 22 e Seus Personagens. Autor do livro de poemas ECOS. Moderador do Blog Retalhos do Modernimo - http://literalmeida.blogspot.com ).