23 junho, 2010

A morte de Saramago - por Jayme Bueno

José Saramago


O Prof. Jayme faz parte de nossa equipe aqui no blog.  O mestre, além de dominar os conhecimentos da Literatura Brasileira, é profundo conhecedor da Literatura Portuguesa. Em seu blog, fez uma postagem imperdível!

Vale a pena conferir e aprender mais sobre José Saramago lendo o post: A morte de Saramago no blog do Prof. Jayme Bueno.


Uma degustação do post:


Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,

manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, /

e dizem-se as palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.

Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece /

e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste.



21 junho, 2010

A Morte de Saramago - por Daniel Osiecki

Na foto: José Saramago



Daniel Osiecki é um jovem professor de Literatura Brasileira, revisor de texto e escritor. Graduado em Letras e Especialista em Literatura Brasileira (mais precisamente em Moacyr Scliar).

Em seu blog, Távola Redonda, Daniel faz excelentes postagens e o qualifica como um "espaço para discussões sobre literatura, muito em especial a Literatura Portuguesa.Viagens poéticas e narrativas".

Por ocasião da morte de José Saramago, Daniel escreveu um belo e breve texto sobre o autor que merece ser lido por conter informações preciosas  - com a credibilidade de um leitor voraz; excelente professor e escritor que é Daniel Osiecki.

Segue o texto:



Nota-se a passagem do tempo quando os mais velhos morrem, e desta forma sabemos que caminhamos para o mesmo fim. É mais desalentador quando um grande mestre, próximo ou não, nos deixa.Caso de José Saramago, morto na última sexta-feira em sua casa em Lanzarote.



Saramago era um sujeito controverso, polêmico, muitas vezes incoerente, mas é inegável o fato dele ser um grande escritor. leia na íntegra aqui

15 junho, 2010

Futebol, teoria e prática

Maicon celebra primeiro gol do Brasil na Copa do Mundo 2010 - foto: Reuters



Sempre que eu escrevo aqui sobre futebol, tem umas senhoras que reclamam.

Acontece que, em primeiro lugar, eu adoro futebol. Em segundo, minha cara, se o Roberto DaMatta escreveu, se o Verissimo escreveu, se o Ubaldo escreveu e o pau não comeu, por que não eu? Viram?, estou até rimando.

É que eu tenho uma teoria sobre o nosso futebol paraguaio. Não sou homem de muitas teorias, sempre fui um prático. Mas há 30 anos, exatamente desde a Copa de 70, venho acompanhando a queda do nosso futebol. De lá para cá - exceção da seleção de 82 -, é sempre um sufoco assistir aos jogos da nossa seleção. Até contra o Panamá, país onde passa um canal no meio do campo, a gente ficou na agonia durante exatamente 61 minutos.

A minha teoria é a seguinte. Até 70, não havia substituições no jogo.

Machucou, saía e continuava com dez. Ali começou o imbróglio. Com as três substiuições, veio o banco de reservas. E com o banco, ele, o técnico. Deus.

Era aqui que eu queria chegar. Depois deixaram o Deus ficar de pé. E gritar.

Gritar palavrão, dar ordens, xingar, ameaçar, mandar fazer isso ou aquilo.

Sendo dono da coisa, da cabeça e do talento dos nossos meninos.

Ou seja, o técnico quer que o jogador faça o que ele quer e não o que o jogador sabe. Fico a imaginar um técnico gritando com o Garrincha, que dribrava para trás. A pedir para o Pelé não entrar pela direita. Teve um até que chegou a dizer que o Pelé estava ficando cego. Céus.

O jogador brasileiro tem aquele nível cultural que você conhece. É tímido, envergonhado, semi-analfabeto. Hoje, erram uma jogada e olham para o banco.

Já reparou? E, quando acertam, vão lá beijar o dono deles, o pai deles, o homem que pensa por eles.

A minha idéia é acabar com esse negócio de substituição e deixar os onze craques lá dentro. E eles se virarem entre eles. Eles perceberem com o talento que o verdadeiro Deus lhes deu e se ajeitarem. Vai voltar a criatividade e a ginga dos moleques canarinhos.

Eu não sei qual é a sua profissão. Mas imagine você trabalhando e um sujeito (que se julga superior a você, mas nunca fez aquilo) martelando no seu ouvido.

Fico imaginando eu aqui, escrevendo e um sujeito gritando ao meu lado:

- Olha a vírgula, porra! Olha a vírgula!!!

Sem saber onde é que eu ia terminar a frase.

- O parágrafo tá ficando grande! Corta! Corta!

- Tá usando muita reticência... Assim o leitor não agüenta. Olha o trema do agüenta!!!

- Crase, não! Você não sabe colocar crase. Não inventa!!! Escreva o feijão-com-arroz.

E quando eu dou uma paradinha para pensar, lá vem ele de novo:

- Pára de valorizar a palavra. Vai logo para a linha final e cruza uma exclamação.

Eu olho para ele e já não sei o que era mesmo que eu pretendia com a linha de cima.

Mas ele, ali na beira da mesa, gritando comigo. Dizendo palavrões que eu não posso colocar aqui. Eu começo a pensar numa frase bonita para correr até ele e dar um beijo. Ajeito o título.

- Isso é título que se apresente, rapaz!!! Muda o título. Mude o tipo. Use corrier, arial não está com nada. Olha o espaço! Olha o espaço, porra! Assim não vai dar. Olha o tempo. O pessoal da redação está ligando. Pensa na ilustração.

Já estou pensando em ser substituído. Estou cansado.

- Vamos cara, falta só um parágrafo. Vai mais para a esquerda, o texto tá meio reacionário. Olha a revisão. Jeito não é com g!!! Cobre o espaço!

Já pensou? Os jogadores devem ficar lá dentro com a mesma aflição. Não existe mais jogador. Existe aquele homem ali, que entende de tudo, que se veste bonito, fala bonito e - geralmente - é um tremendo de um mau-caráter e seu vocabulário se resume a palavrões e chavões.

Tirem aquele homem de dentro do campo, pelo amor de Deus, pelo amor e talento aos nossos craques. Ninguém trabalha sob pressão, com palpites.

Bem fazia o Feola, campeão de 58, que dormia nos treinos e deixava a garotada trabalhar com prazer.


o estado de s. paulo

15/08/2001

Mário Prata

04 junho, 2010

SOCIEDADE É INFORMAL. POR QUE USAR MESÓCLISES?

Sírio Possenti, professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp é colunista do “TERRA MAGAZINE” (http://terramagazine.terra.com.br/), do Bob Fernandes. Dia 27 de maio pp., escreveu interessante texto, que achei mais interessante ainda postar neste blog, pois parece-me bem pertinente. E sem mais detalhes, segue o texto na íntegra:

SOCIEDADE É INFORMAL.

POR QUE USAR MESÓCLISES?

Sírio Possenti
Este texto não tem nada, mas também tem tudo a ver com sugestão de traduzir "Call me" por "Me chame". Nada, porque não trata de tradução; tudo, porque comenta a incorporação de construções menos formais à linguagem literária. No caso do romance, lugar da encenação do plurilinguismo (coisa que todos poderiam ter visto, e que Bakhtin tematizou explicitamente), a coisa é mais tranquila. Mas há casos também na poesia.
Drummond de Andrade desafiou o cânone gramatical com seu "Tinha uma pedra no meio do caminho" e João Cabral fez o mesmo com "Joga-se os grãos na água do alguidar". Cabral aceitou "corrigir" a construção, que substituiu por "jogam-se" na edição da Aguilar (deve ter achado que "joga-se" era uma pedra no feijão...). No Google, as duas construções convivem. É impossível saber se são cópias ou "edições".
Esta nota tem a ver com uma notícia de jornal (espero que esta esteja correta!): lendo reportagem sobre o lançamento de edição especial de Alguma poesia, descobre-se (repito, se a informação for verdadeira) que Mário de Andrade, em carta, comentou elogiosamente a transgressão gramatical (sic!) no verso "O poeta chega na estação". Drummond respondeu que foi um cochilo, que ia corrigir. "Ainda não posso compreender os seus curiosos excessos. Aceitar tudo que vem do povo é uma tolice que nos leva ao regionalismo", escreveu a Mário não sei se Mário o aconselharia aceitar "tudo" o que vem do povo. Mário o convence a manter a regência como seguinte argumento: "Quem como você mostrou a coragem de reconhecer a evolução das artes até a atualização delas põe-se com isso em manifesta contradição consigo mesmo" (Folha de S. Paulo, 22/05/2010). Drummond, como se sabe, manteve a forma "popular". Que, aliás, não é regionalismo.
A única questão relevante, tanto no caso de Drummond quanto no de Cabral, é por que empregaram a forma "popular" e só se deram conta de que há um "erro" quando alguém fez a observação? Há uma só resposta, em termos de história da língua: é porque essas construções não são mais erros, já eram formas cultas naquele tempo, à luz da melhor e da mais rigorosa noção de padrão linguístico. Tanto não são erros - já não eram há quase cem anos - que dois escritores que não eram populares as empregaram. Achando que estavam escrevendo "certo".
Há um dado sociológico visível que poderia ser considerado para defender que nossa escrita seja menos arcaizante: a sociedade se tornou francamente informal. Quem espiar algum documentário que mostre o "maracanazo" verá a quantidade de homens de terno vendo um jogo de futebol. E não verá nenhuma mulher de calça comprida. Muito menos de bermuda. Hoje, elas vestem homens e mulheres. Ou todos usam jeans e camisetas.
Ninguém mais chama os pais de senhor e senhora. Por que temos que insistir em ênclises e em mesóclises?

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.

FONTE:- http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4451566-EI8425,00.html
Autor da postagem:
Luiz de Almeida - Blog RETALHOS DO MODERNISMO

31 maio, 2010

Violência sem limites!

Violência sem limites!

Israel continua demonstrando que a força e a irracionalidade é sua marca principal.

O mundo civilizado tem que condenar o ataque ao comboio de embarcações que levava suprimentos à faixa de Gaza, e responsabilizar dirigentes israelenses pelas mortes ocorridas em águas internacionais. Isso é inaceitável.

Com o cinismo dos hipócritas, embaixadores e porta-vozes de Israel tem a petulância de dizer que seus soldados foram atacados...sabe com o que? Estilingues, bolinhas de gude e barras de ferro, isso tudo, depois de invadir por ar e mar, as embarcações que levavam suprimentos para a faixa de Gaza. Os soldados responderam à altura: dispararam mataram quase duas dezenas e feriram outro tanto.

Em uma das embarcações estava a cineasta brasileira, que mora nos Estados Unidos, Iara Lee, que foi presa e está sendo deportada de Israel.

Até o momento a totalidade das manifestações das nações civilizadas, condenaram esse ataque grotesco. Esperamos que sejam punidos os responsáveis...!!!
Esperamos....

26 maio, 2010

O ENSINO DA LITERATURA NO ENSINO MÉDIO

I - Justificativa pedagógica
Todo processo científico deve começar com uma indagação. Do mesmo modo, todo processo pedagógico deve começar com uma pergunta: por que ensinar determinada coisa? Assim, quando se vai ensinar literatura, deve-se perguntar: porque ensinar literatura no ensino médio? São os objetivos.
O ensino da literatura deve ser defendido por vários motivos pedagógicos: 1. Pelo lado informativo – deve-se ensinar literatura para que nosso aluno saiba e consiga transmitir conhecimento. Além do conteúdo que o texto literário contém, o estudante recebe outras informações, ou seja, o texto literário é forma de conhecimento; 2. Pelo lado formativo, Nelly Novaes Coelho, afirma: “literatura é reflexo da vida, é a exteriorização verbal artística de uma experiência humana, é evidente que usaremos dela para orientar a educação integral de nossos alunos” (COELHO, Nelly Novaes. O ensino da literatura, 1966, p. 8.). É comumente aceito que a literatura pode levar o aluno à sua formação humanística e assim à educação integral; 3. Com aprimoramento da leitura pelo contínuo contato com a literatura. Em conseqüência, melhorará também a sua escrita. Com isso, adquire o seu próprio estilo, modo peculiar de escrever e de comunicar-se pela linguagem.
Finalmente, como a literatura é cultura, o texto literário irá despertar esse gosto pelo conhecimento, pelo senso crítico. O aluno, assim, poderá saber distinguir um bom texto de um texto de menor valor, é a formação do leitor.
II - Justificativa do ensino por meio de textos
O ensino da literatura deve iniciar-se por textos mais leves, como as crônicas de Fernando Luiz Veríssimo, bastante adequados. Mais tarde, pode-se introduzir o estudo de autores tradicionais da literatura brasileira, como aqueles do Romantismo, que são relativamente fáceis, embora de uma outra época, o que às vezes não agrada muito ao aluno. Ao final do estudo da literatura, é que se pode começar com textos, mais complexos, como os de Guimarães Rosa e os de Clarice Lispector.
Simultaneamente aos textos em prosa, devem-se inserir os textos poéticos acessíveis, como os de Mário Quintana e os Manuel Bandeira. Cecília Meireles, Adélia Prado e outros autores mais complexos, como Carlos Drummond de Andrade, ficariam para mais tarde, ao final do ensino médio.
Pedagogicamente, seria bom que a escolha do texto a ser estudado fosse de escolha do professor em conjunto com o aluno, ou, então, do próprio aluno. Assim, ele se sentiria motivado para a leitura, compreensão e análise do texto.
III - Justificativa histórico-literária
Em sala de aula, o texto literário deve ser colocado em seu contexto: época de sua produção, autor que o produziu, a forma literária em que está escrito e outros relacionamentos que o próprio texto sugerir. Assim, um conto de Mário de Andrade deve vir acompanhado da explicação do professor sobre o contexto histórico: séc. XX, período após a Primeira Grande Guerra; o contexto literário: a Semana de Arte Moderna, de 1922; o papel de Mário de Andrade na organização e realização da Semana, ao lado de outros como Oswald de Andrade.
Do ponto de vista da Teoria da Literatura, o conto, como forma literária, deve ser visto como pertencente à ficção. Uma espécie de texto que é inventada, criada, e que, por isso, não deve corresponder exatamente à realidade.
O texto ficcional, como a própria palavra assinala, é ficção, é invenção, é fingimento. Assim, não tem compromisso com o real, com a verdade. Terry Eagleton ao definir literatura, afirma: “É possível, por exemplo, defini-la como a escrita ‘imaginativa’, no sentido de ficção – escrita esta que não é literalmente verídica” (EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução, s. d., p. 1).
Do mesmo modo, em textos dos anos 40, como os de Jorge Amado, há que se considerar o período do pós-guerra, quando o mundo todo entrou em colapso e surgiram ou se intensificaram vários movimentos filosóficos, como o Socialismo. Tudo isso serviu de base para uma literatura política e de alcance sociológico. Assim foram também os textos dos autores do Romance do Nordeste, como os de Graciliano Ramos e os de Rachel de Queiroz.
Do mesmo modo, devem-se enfocar textos da atualidade literária. Um texto de Clarice Lispector só pode ser compreendido após o Existencialismo de Jean-Paul Sartre, por exemplo. Um texto de Guimarães Rosa, com sua linguagem criativa e renovadora, só pode ser entendido após as várias formas de Experimentalismo na literatura.
Antonio Candido, sobre a relação entre história e literatura, declara que os textos históricos: “se não ajudam a penetrar no miúdo da análise, talvez ajudem a entender alguns traços gerais do poema, como o gosto pelos contrastes e a energia da descrição...” (CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária, 1986, p. 9). O mesmo acontece diante de outras relações, como aquela entre filosofia e literatura, por exemplo.
Quanto ao texto poético, há também que se explicar ao estudante como esse tipo de texto funciona: em versos ou não; com rima ou não; com ritmo próprio; e com as palavras que se transfiguram. Massaud Moisés ensina: “A poesia é a linguagem no seu ser genuíno” (MOISÉS, Massaud. A criação poética, 1977, p. 27). O poema, deve ainda merecer explicação da sua forma: forma fixa; soneto; construção mais livre, como é mais comum no Modernismo.
IV - Justificativa metodológica: o ensino com pesquisa
Uma última finalidade para o ensino da literatura no ensino médio é introduzir o aluno à iniciação da pesquisa. O aluno deve aprender a pesquisar textos literários, observar aqueles que mais chamam a sua atenção, fazer análises de alguns textos e também desenvolver-se em apresentações.
Esta metodologia pedagógica vem sendo amplamente defendida e difundida no ensino brasileiro por Pedro Demo. Com ela, o aluno passaria de mero espectador no processo de ensino e de aprendizagem e assumiria papel de agente no seu próprio aprender. (DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento, 2002, p. 10).
O professor, por seu lado, deve dar a oportunidade ao aluno de mostrar o resultado de suas pesquisas, proporcionando-lhe tempo em sala de aula ou em evento paralelo, como Seminários e outros. Assim, facilita-se ao aluno e abrem-se para ele novas oportunidades.
V - Palavras finais
O magistério é a profissão daqueles que realmente querem ver o aluno desenvolvendo-se com base sólida para futuros estudos, vestibulares, concursos. O verdadeiro professor é aquele que procura fazer que o seu aluno progrida cultural e profissionalmente. Assim, a escola e os professores estarão cumprindo o dever de formar cidadãos conscientes, para a realização pessoal.
REFERÊNCIAS
CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 1986.
COELHO, Nelly Novaes. O ensino da literatura. São Paulo: FTD, 1966.
DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. 5. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2002.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Trad. Brasileira Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
MOISÉS, Massaud. A criação poética. 16 ed. São Paulo: Melhoramentos; Universidade de São Paulo, 1977.

18 maio, 2010

OLAVO BILAC E A POESIA INFANTIL E DIDÁTICA

OLAVO BILAC
Olavo Bilac (Rio de janeiro, 1865-1918) foi um eterno inconstante. Começou Medicina, no Rio, e depois Direito, em São Paulo, sem ter concluído nenhum desses cursos. Literariamente. em 1884, teve seu primeiro soneto, denominado Nero publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Em 1887, iniciou a carreira de jornalista literário. Em 1888, publicou seu primeiro livro, Poesias. Depois publicaria crônicas, conferências literárias, discursos, livros infantis e didáticos.
Esteve sempre engajado em movimentos políticos do país. Foi republicano e nacionalista, tanto que escreveu a letra do Hino à Bandeira. Mais tarde, ao fazer oposição ao governo de Floriano Peixoto, foi perseguido e teve de se afastar do Rio de Janeiro. Ficou por algum tempo como num exílio político no estado de Minas Gerais. Voltando ao Rio, foi membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1896. Já no século XX, em 1907, foi eleito o primeiro “príncipe dos poetas brasileiros”, em concurso patrocinado pela revista Fon-Fon. De 1915 a 1917, como o nacionalista que sempre foi, participou de várias campanhas cívicas, principalmente aquelas pelo serviço militar obrigatório e pela instrução primária.
Como grande poeta parnasiano, a sua obra póstuma Tarde (1919) é uma das mais representativas da poesia brasileira e marcante de uma época e de um estilo literário. A sua poesia infantil e didática mantém, embora sem grande fornalismo, a mesma qualidade de seus outros poemas.
O poeta faleceu em 1918 e nos deixou grande e importante legado de poemas e de exemplos de civismo e de participação social, como cidadão e como intelectual. Dentre esses, destacam-se os poemas infantis com lições sobre vários assuntos, desde os relacionados ao amor ao país, à natureza, à religião e à confraternização entre as crianças.
Nesta página, como ilustração da sua poesia infantil e didática, apresentam-se cinco poemas:
1. A Pátria
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente
em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...

Quem com seu suor a fecunda e umedece,
vê pago o sue esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
2.

O Universo
A Lua:
Sou um pequeno mundo;
Movo-me, rolo e danço
Por este céu profundo;
Por sorte Deus me deu
Mover-me sem descanso,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

A Terra:
Eu sou esse outro mundo;
A lua me acompanha,
Por este céu profundo...
mas é destino meu Rolar,
assim tamanha,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Sol:
Eu sou esse outro mundo,
Eu sou o sol ardente!
Dou luz ao céu profundo...
Porém sou um pigmeu,
Que rolo eternamente
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Homem:
Porque, no céu profundo,
Não há-de parar mais
O vosso movimento?
Astros! qual é o mundo,
Em torno ao qual rodais
Por esse firmamento?

Todos os Astros:
Não chega o teu estudo
Ao centro d’isso tudo,
Que escapa aos olhos teus!
O centro d’isso tudo,
Homem vaidoso, é Deus!


3. O Pássaro Cativo
Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar ?

É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender ;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste !
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti !
Não quero a tua esplêndida gaiola !
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol !
Com que direito à escravidão me obrigas ?
Quero saudar as pompas do arrebol !
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas !
Por que me prendes ? Solta-me covarde !
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar ! voar ! ... “

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão ...


4. A Boneca
Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira : “É minha!”
— “É minha!” a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxavam por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando a bola e a peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca ...
5.

Justiça
Chega à casa, chorando, o Oscar. Abraça
Em prantos a Mamãe.
“Que foi, meu filho?”
—“Sucedeu-me, Mamãe, uma desgraça!
Outros, no meu colégio, com mais brilho,
Tiveram prêmios, livros e medalhas...
Só eu não tive nada!”
—“Mas porque não trabalhas?
porque é que, a uma existência dedicada
Ao trabalho e ao estudo,
Preferes os passeios ociosos?
Os outros, filho, mais estudiosos,
Pelas suas lições desprezam tudo...
Pois querias então que, vadiando,
Os outros humilhasses,
E que, os melhores prêmios conquistando,
Mais que os outros brilhasses?
Para outra vez, ao teu prazer prefere
O estudo! e o prêmio alcançarás sem custo:
E aprende: mesmo quando isso te fere,
É preciso ser justo!”.


Nos cinco poemas apresentados, que fazem parte do livro intitulado Literatura Infantil–1880-1991, Olavo Bilac nos dá algumas lições:
1.no poema A Pátria, lição de civismo, embora num tom de ufanismo, como é uma bastante comum na literatura brasileira. Essa lição deveria ser ensinada às crianças, para que pudessem, mais tarde, quando adultos, praticarem-na em suas atividades como cidadãos;
2.no conjunto de poemas que constituem a série O Universo, a lição é de cosmologia e de sentimento de respeito à grandeza de Deus, o Onipotente, perante o Homem, mísero mortal, o que se apresenta sob a forma de alegoria no diálogo entre o homem e os astros;
3.no poema O Pássaro Cativo, aparece a lição de amor à natureza, uma espécie de Ecologia avant la lettre, com conceitos também como o de prisão versus liberdade;
4.em A Boneca, a lição se refere à procura da socialização das crianças, o aprender a dividir, primeiramente, os brinquedos, para, mais tarde, adultos, saberem exercer a solidariedade;
5.finalmente, no último poema, Justiça, a lição é sobre o senso de justiça, mas também o ensinamento de qualidades, como a dedicação aos estudos, o não cultivo da inveja e da soberba.


13 maio, 2010

O Navio Negreiro

Porão de Navio Negreiro. Gravura de Rugendas, 1835.


I



'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço

Brinca o luar — dourada borboleta;

E as vagas após ele correm... cansam

Como turba de infantes inquieta.



'Stamos em pleno mar... Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro...

O mar em troca acende as ardentias,

— Constelações do líquido tesouro...



'Stamos em pleno mar... Dois infinitos

Ali se estreitam num abraço insano,

Azuis, dourados, plácidos, sublimes...

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...



'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas

Ao quente arfar das virações marinhas,

Veleiro brigue corre à flor dos mares,

Como roçam na vaga as andorinhas...



Donde vem? onde vai? Das naus errantes

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Neste saara os corcéis o pó levantam,

Galopam, voam, mas não deixam traço.



Bem feliz quem ali pode nest'hora

Sentir deste painel a majestade!

Embaixo — o mar em cima — o firmamento...

E no mar e no céu — a imensidade!



Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!

Que música suave ao longe soa!

Meu Deus! como é sublime um canto ardente

Pelas vagas sem fim boiando à toa!



Homens do mar! ó rudes marinheiros,

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

Crianças que a procela acalentara

No berço destes pélagos profundos!



Esperai! esperai! deixai que eu beba

Esta selvagem, livre poesia

Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,

E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................



Por que foges assim, barco ligeiro?

Por que foges do pávido poeta?

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

Que semelha no mar — doudo cometa!



Albatroz! Albatroz! águia do oceano,

Tu que dormes das nuvens entre as gazas,

Sacode as penas, Leviathan do espaço,

Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.





II





Que importa do nauta o berço,

Donde é filho, qual seu lar?

Ama a cadência do verso

Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!

Resvala o brigue à bolina

Como golfinho veloz.

Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena

As vagas que deixa após.



Do Espanhol as cantilenas

Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,

As andaluzas em flor!

Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,

— Terra de amor e traição,

Ou do golfo no regaço

Relembra os versos de Tasso,

Junto às lavas do vulcão!



O Inglês — marinheiro frio,

Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,

Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,

Lembrando, orgulhoso, histórias

De Nelson e de Aboukir.. .

O Francês — predestinado —

Canta os louros do passado

E os loureiros do porvir!



Os marinheiros Helenos,

Que a vaga jônia criou,

Belos piratas morenos

Do mar que Ulisses cortou,

Homens que Fídias talhara,

Vão cantando em noite clara

Versos que Homero gemeu ...

Nautas de todas as plagas,

Vós sabeis achar nas vagas

As melodias do céu! ...





III





Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!

É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...

Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!





IV





Era um sonho dantesco... o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar...



Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!



E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais ...

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos... o chicote estala.

E voam mais e mais...



Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!



No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!..."



E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Qual um sonho dantesco as sombras voam!...

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...





V





Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!



Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa...

Dize-o tu, severa Musa,

Musa libérrima, audaz!...



São os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,

Sem luz, sem ar, sem razão. . .



São mulheres desgraçadas,

Como Agar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,

De longe... bem longe vêm...

Trazendo com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N'alma — lágrimas e fel...

Como Agar sofrendo tanto,

Que nem o leite de pranto

Têm que dar para Ismael.



Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram crianças lindas,

Viveram moças gentis...

Passa um dia a caravana,

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,

... Adeus, palmeiras da fonte!...

... Adeus, amores... adeus!...



Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.

Depois no horizonte imenso

Desertos... desertos só...

E a fome, o cansaço, a sede...

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai p'ra não mais s'erguer!...

Vaga um lugar na cadeia,

Mas o chacal sobre a areia

Acha um corpo que roer.



Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d'amplidão!

Hoje... o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar...

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar...



Ontem plena liberdade,

A vontade por poder...

Hoje... cúm'lo de maldade,

Nem são livres p'ra morrer. .

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente —

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoute... Irrisão!...



Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus,

Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!...

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

Do teu manto este borrão?

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão! ...





VI





Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...



Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...



Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!


Castro Alves

12 maio, 2010

Fundeb

Estados deixaram de repassar R$ 1,2 bilhão para ensino básico em 2009

Matéria publicada em 10/05/2010 às 11h28m

Demétrio Weber - Jornal O Globo - Educação


BRASÍLIA - O Ministério da Educação (MEC) constatou que 21 estados deixaram de aplicar R$ 1,2 bilhão em ensino básico no ano passado. O dinheiro deveria ter sido repassado ao Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), principal mecanismo de financiamento da rede pública. Mas, numa espécie de sonegação contábil, acabou livre para custear outras atividades.



O MEC já alertou os tribunais de contas dos estados e municípios, os ministérios públicos federal e estadual, os conselhos de acompanhamento e controle social do Fundeb e os respectivos governos estaduais. Convencido de que é preciso aumentar os investimentos em educação, o ministério quer evitar desvios nas verbas legalmente reservadas para o ensino.



Leia mais:
Fundeb: investimentos por aluno em 2010 ficará abaixo no necessário para ensino de qualidade

03 maio, 2010

OS SEGREDOS DOS BONS PROFESSORES

Com o título Os Segredos dos Bons Professores, a revista Época recentemente publicou uma ampla matéria, em que apresenta alguns pontos básicos sobre o modo de ensinar, qualidade de professores e outros temas correlatos.
Dando-se o devido desconto da forma bastante prescritiva, ainda naquele esquema skinneriano como são os estudos norte-americanos, pode-se tirar proveito da matéria.
Aqui se reproduz parte dessa matéria:

OS SEGREDOS DOS BONS PROFESSORES

O que todos nós temos a aprender com os mestres dedicados, capazes de transformar nossas crianças em alunos de sucesso

De uma carteira na penúltima fileira da sala de aula, relembro alguns conceitos de matemática que tanto me assustavam anos atrás. A minha volta estão cerca de 30 alunos do ensino médio de uma escola de primeira linha de São Paulo. O professor João (o nome é fictício, e você já vai entender por quê) dá uma boa aula. As fórmulas, as equações, os problemas se sucedem. Minha intenção não é reaprender matemática, e sim entender como atua um bom professor. João foi indicado pela direção da escola como um dos melhores.
Prender a atenção de um bando de adolescentes às 8 horas da manhã, com esse tema, já pode ser considerado um feito. E João conquista a quase unanimidade dos olhos grudados no quadro verde, onde resolve um exercício. Só dois grupos pequenos travam conversas paralelas (sobre a própria matéria) – e uma menina dá uma cochilada, a três carteiras de mim. Estou ali, tentando perceber os segredos de uma boa aula, quando escuto um diálogo cochichado:
– Não consegui fazer a maioria dos exercícios, acho que vou passar o resto da semana no plantão de dúvidas.
– Você já teve aula com o professor Fernando?
– Ainda não.
– Ele é demais, o melhor professor que eu já tive.
– Ele é legal?
– Não é isso. É que ele explica tudo de um jeito que a gente consegue entender.
A diferença entre esses dois professores – um bom, o outro ótimo – é o fator de maior impacto na educação. Não é que não seja importante ter computadores, visitar pontos históricos ou culturais, adotar bons livros e apostilas ou manter poucos alunos nas salas de aula. É. Mas, como revela um conjunto de estudos recentes, nada tem tanto efeito sobre o aprendizado quanto a qualidade do professor.
Fatores genéticos podem ser responsáveis por diferenças notáveis no desempenho de uma criança na escola. Mas eles só se manifestam se o professor for bom, diz um estudo da Universidade da Flórida, publicado na edição deste mês da revista Science. (O estudo analisou os níveis de leitura de gêmeos que estudavam em classes diferentes. Os que tinham professores piores – medidos de acordo com o resultado geral da sala – não atingiam o nível dos irmãos, com carga genética idêntica.) Esse resultado põe em xeque o mito de que bons alunos se fazem sozinhos.
Outro mito – a existência de alunos para quem o conteúdo é impenetrável – cai por terra diante das experiências de instituições de ensino nos Estados Unidos expostas em dois livros recém-lançados: (ETeaching as leadership: the highly effective teacher’s guide to closing the achievement gap nsinar como um líder: o guia do professor supereficiente para diminuir o déficit de aprendizado), de Steven Farr, e Teach like a champion: 49 techniques that put students on the path to college (Ensine como um campeão: 49 técnicas que colocam os estudantes no rumo da universidade), de Doug Lemov.
(...)
A discussão sobre a qualidade dos professores já está instalada no Brasil. É o cerne de uma batalha entre os sindicatos de professores, que exigem melhores salários e condições de trabalho, e algumas secretarias estaduais, que tentam implementar um sistema de meritocracia, similar ao vigente naqueles países que mais se destacam nas avaliações internacionais de ensino, como Finlândia e Coreia do Sul. Tal sistema já apresenta bons resultados. São Paulo adotou, em 2008, um programa de bonificação para escolas, diretores e professores cujos alunos melhoram o desempenho em provas. Em apenas um ano, o número de alunos da 4ª série que não conseguiam fazer contas básicas de soma e subtração caiu de 38% para 31%.
“Medir o resultado e premiar os melhores é o caminho certo para tornar a carreira de professor mais atraente”, diz Fernando Veloso, economista e especialista em educação. Mas o sistema é ainda incompleto. “Nenhuma das avaliações considera a ação do professor em sala de aula”, diz Paula Louzano, especialista em educação e consultora da Fundação Lemann, organização dedicada à melhora do nível do ensino.
Avaliar o desempenho individual dos professores permitiria não apenas premiá-los de forma mais justa e eficiente, mas também fazer algo ainda mais importante: entender como eles trabalham – e estender sua experiência aos demais. Porque, se é verdade que todo aluno pode aprender, é lógico acreditar que todo professor tem condições de tornar-se ótimo.
Premiar os bons professores e punir os ruins é essencial. Mas fazer apenas isso não basta para chegar a um ensino de qualidade. É aí que entram em cena os dois livros recém-lançados nos Estados Unidos. O primeiro, Teaching as leadership, foi escrito por Steven Farr, o responsável pela difusão de conhecimento da organização Teach for America, que dá aulas em escolas públicas para crianças de comunidades carentes. Em duas décadas de atuação, a Teach for America formou 25 mil professores, que deram aulas a 3 milhões de alunos. Mais do que apenas ensinar, a Teach for America vem colecionando dados sobre os professores mais eficientes. Suas técnicas, seus métodos, sua formação, como se preparam para o trabalho. Dessa análise surgiram o que Farr chama de seis pilares do ensino:
1) traçar metas ambiciosas com a turma, como “este ano vamos avançar dois níveis em um” ou “todos os alunos desta sala vão tirar mais que 9 no exame nacional” (não metas vagas, como “vamos aprender o máximo”);
2) envolver alunos e famílias, a ponto de traçar com os pais planos de incentivo individualizados para as crianças;
3) planejar com cuidado as aulas;
4) dar aulas com eficiência, aproveitando cada minuto e cada oportunidade;
5) aumentar a eficiência sempre;
6) trabalhar incansavelmente, porque cada um dos itens anteriores dá muito, muito trabalho.
Na mesma linha, o educador Doug Lemov lançou no início deste mês o livro Teach like a champion. Lemov dirige a Uncommon Schools (Escolas Incomuns), uma associação de 16 escolas que ensinam crianças principalmente de famílias carentes. “Uma de nossas missões é diminuir a distância na taxa de aprendizado entre ricos e pobres”, diz Lemov. Eles têm conseguido. Em 2009, 98% dos alunos da Uncommon tiraram notas acima da média estadual de Nova York em matemática. Na avaliação de inglês, foram 80%.

(GUIMARÃES, Camila. Revista Época, ed. 623. 26.abril.2010, 110-118)

26 abril, 2010

A Ignorância e a Burrice - Por Antonio Caetano

"As constelações servem para esclarecer a noite". Bela frase, não? A mim, soa como Guimarães Rosa, o uso ambíguo do verbo esclarecer sugerindo algo de arcaico e místico. Um astrólogo certamente enxergaria nela vestígios simbólicos, as constelações servindo para aclarar a obscuridade de nossos destinos. Um marinheiro, por outro lado, veria na frase a expressão de uma verdade empírica: à noite, navegamos orientados pelas estrelas — conhecimento indispensável quando nos faltam instrumentos. Eu fico com a ressonância lírica — me basta.

Juro: se pudesse, roubava a frase para dizê-la como um comentário displicente depois de observar longamente o céu salpicado de estrelas numa noite de lua nova, lá no alto da serra. Sim, depois de um longo silêncio eu sussurraria ao teu ouvido num tom grave e sorrateiro: "As constelações servem para esclarecer a noite", e certamente mais duas estrelas se acenderiam no teu rosto, cheias de admiração pela sabedoria que eu teria se a frase fosse minha...

E nem seria difícil me apropriar da frase, visto que ela talvez hoje envergonhe seu autor anônimo, depois de ter sido enjeitada pelos bedéis do senso comum que julgaram as redações da galera que prestou vestibular para UFRJ este ano. Eles não só não gostaram da frase como a incluíram em uma mensagem eletrônica que fizeram circular pela Internet (eu só recebi agora) reunindo o que consideraram ironicamente como "pérolas": frases que continham erros mais ou menos crassos — fosse de informação, sintaxe ou grafia.

[Continue a leitura em Projeto Releituras / textos para relaxar  -
crônica escrita em 5 de fevereiro de 2001]













Taninha Nascimento

17 abril, 2010

MATEMÁTICA MAIS ATRAENTE


Alunos da 4.ª série do CEI David Carneiro usam mesa com blocos e computador com jogos e exercícios: diversão que ajuda no aprendizado.

Aprendizagem na disciplina ocorre a longo prazo. Levar o aluno a entender o contexto, usar jogos e tecnologia podem tornar processo mais agradável
A tecnologia aliada à criatividade dos professores tem ajudado a tornar a matemática mais atraente para os estudantes. Avaliações de desempenho mostram que dominar a disciplina não é o forte dos brasileiros. O Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2007, último resultado disponível, mostra que estudantes brasileiros da 8.ª série do ensino fundamental, que deveriam ser capazes, por exemplo, de calcular o valor de uma expressão algébrica, incluindo potenciação, conseguem realizar apenas operações como multiplicação e divisão com dois algarismos, conteúdo que deveriam ter dominado na 4.ª série do ensino fundamental.
E a dificuldade com a disciplina se arrasta desde as séries iniciais. Na 4.ª série, de acordo com dados do Saeb, os alunos dominam habilidades que deveriam ter vencido na 2.ª série (veja tabela). O Saeb é um dos exames que integra a avaliação da educação básica no Brasil. É feito a cada dois anos e avalia uma amostra dos alunos matriculados nas 4.ª e 8.ª séries do ensino fundamental e 3.º ano do ensino médio, de escolas públicas e privadas, localizadas em área urbana ou rural.
Olimpíada estimula estudo
O governo federal continua apostando na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) para, entre outras coisas, melhorar o desempenho de professores na educação da disciplina e estimular o estudo da matemática. Uma avaliação econômica solicitada pelo Ministério da Educação (MEC) à Fundação Itaú Social mostra que a iniciativa tem tido bons resultados.
Entrevista: As crianças sabem, mas não conseguem se expressar
Aos 76 anos, o professor da Universidade Paris Gerard Vergnaud já orientou mais de 80 teses de mestrado e doutorado. Formado em Psicologia, é diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS, na sigla em francês), em Paris. Fez a própria tese de doutorado com ninguém menos que Jean Piaget, um dos teóricos mais estudados no campo da Pedagogia. O professor francês esteve em Curitiba no mês passado, quando concedeu a seguinte entrevista à Gazeta do Povo.
O que a avaliação mostra, na opinião de especialistas, é que boa parte da relação de ódio com números e operações, muito comum em crianças e adolescentes em idade escolar, tem origem no ensino fundamental. Para o professor da Universidade Paris Gerard Vergnaud referência mundial em educação matemática, autor do livro A criança, a matemática e a realidade, que acaba de ganhar versão em português, uma das razões que explicam esse conflito é que o aprendizado em matemática ocorre ao longo dos anos. Vergnaud é criador da Teoria dos Campos Concei¬tuais, que ajuda a entender como as crianças constroem os conhecimentos matemáticos. Para ele, os professores precisam usar mais desta teoria. “Os professores têm que se aliar aos pesquisadores e realizar um estudo empírico para acompanhar e dizer o que cada criança é capaz de aprender em cada idade. Os professores não têm conhecimento desta diversidade. E menos ainda os pais”, diz. O professor francês esteve em Curitiba no mês passado para ministrar palestra aos docentes do Grupo Positivo.
Para Vergnaud é possível, mas difícil, tornar o ensino da matemática mais atraente, devido à seriedade que permeia a disciplina. “Ao mesmo tempo em que há situações que se aproximam das vividas pelos jovens e crianças, a matemática é uma coisa muito séria. E por isso, a maior parte das crianças se enche. O uso de atividades lúdicas com a seriedade da matemática é um equilíbrio difícil de achar”, diz.
Atratividade
Trabalhar com o lúdico e a contextualização da matemática foi a solução encontrada pela professora do Colégio Novo Ateneu Juliana de Moraes Campos, que leciona a disciplina para crianças e adolescentes há 12 anos. A professora envolveu seus alunos da 5.ª série do ensino fundamental com a história da matemática. Depois de ter pesquisado sobre o assunto, cada estudante criou seu próprio sistema de numeração. “Temos de mostrar para a criança que a matemática não surge do nada na vida dela. Dá para vincular os conteúdos com o dia a dia usando novas metodologias”, diz.
Há 12 anos, os alunos do pré à 4.ª série do ensino fundamental do Centro Municipal de Educação Infantil David Carneiro, no Xaxim, usam mesas com blocos desenvolvidas exclusivamente para o ensino da matemática. As aulas com as mesas ocorrem uma vez por semana. Antes e depois os conteúdos são abordados em sala de aula. De acordo com a professora Cristiane Inês Bassa, a tecnologia permite uma melhor visualização de situações matemáticas. “Serve como um complemento da aprendizagem”, diz.
A mesa tem blocos coloridos e é integrada a um computador que permite o uso por até seis crianças simultaneamente. Contém jogos e exercícios que dão noções de lateralidade, direção, medidas e lógica. Para a estudante do 3.ª ano Bianca Ferreira Fidelis, 8 anos, dispensar a escrita dos números é um dos pontos positivos do uso da tecnologia. “Sem contar que aqui é muito mais divertido”, diz.
Para uma das desenvolvedoras da tecnologia, a matemática Vanessa Moraes, as novidades tecnológicas servem para facilitar, mas sozinhas não garantem o sucesso do aprendizado. No caso das mesas, a matemática acredita que um dos principais ganhos é que o software não obriga os alunos a acertar os exercícios. “A criança se sente mais à vontade para treinar no computador. Sabe que pode retornar e tentar de novo. A observação ocorre de maneira mais lúdica. Já com a presença do professor o sentimento é de que está sendo repreendida”, diz.
A tecnologia aliada à criatividade dos professores tem ajudado a tornar a matemática mais atraente para os estudantes. Avaliações de desempenho mostram que dominar a disciplina não é o forte dos brasileiros. O Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2007, último resultado disponível, mostra que estudantes brasileiros da 8.ª série do ensino fundamental, que deveriam ser capazes, por exemplo, de calcular o valor de uma expressão algébrica, incluindo potenciação, conseguem realizar apenas operações como multiplicação e divisão com dois algarismos, conteúdo que deveriam ter dominado na 4.ª série do ensino fundamental.
E a dificuldade com a disciplina se arrasta desde as séries iniciais. Na 4.ª série, de acordo com dados do Saeb, os alunos dominam habilidades que deveriam ter vencido na 2.ª série (veja tabela). O Saeb é um dos exames que integra a avaliação da educação básica no Brasil. É feito a cada dois anos e avalia uma amostra dos alunos matriculados nas 4.ª e 8.ª séries do ensino fundamental e 3.º ano do ensino médio, de escolas públicas e privadas, localizadas em área urbana ou rural.

(DUARTE, Tatiana. Curitiba: Gazeta do Povo, 13.04.2010 - educacao@gazetadopovo.com.br )

11 abril, 2010

Abril...

... E, uma semana depois, o RJ amanhece com uma greve de ônibus!! Ninguém merece... É o cúmulo da falta de senso... Sem falar em multas por se tentar sobreviver ao "dilúvio"...
Inacreditável. [12/04]


     Tenho escrito pouco. Em meu blog de poesias, muitas repostagens... A sensação é de um turbilhão de bolhas de sabão nas idéias: aparecem e papocam - somem.
     Aqui, por exemplo, tenho o desejo de escrever sobre assuntos vários. Mas não consigo concluir. Enfim, um misto de excitação e desânimo... 
     Dia oito do corrente mês, fiz aniversário . E, o mês de abril, comporta muitas [outras] datas importantes ou absolutamentes desimportantes - dependendendo do ponto de vista:




01 – Dia da Mentira [Vá lá, uma homenagem aos pinóquios da vida pública e privada...]

02 – Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil [Bacana!]

07 – Dia Mundial da Saúde [ À saúde!]

08 – Dia Mundial da Luta Contra o Câncer [ Dia do meu aniversário!]

13 – Dia do Beijo [hehehe, legal... Vale lembrar que Judas beijou Jesus...]

14 – Dia Pan-Americano [como assim?]

16 – Dia Nacional do Lions Clube [Hm... ]

18 – Dia do Amigo [Ué, será que está certo? Não é 20 de julho?]

19 – Dia do Índio [ Ah, os índios. Só lembrados assim...]

21 – Dia de Tiradentes [ Puxa... É até feriado!]

22 – Dia da Força Aérea Brasileira [ Legal... ]

22 – Dia do Descobrimento do Brasil [ Sério?]

22 – Dia do Planeta Terra [Uau... Bacana!]

23 – Dia do Escoteiro [ Puxa, sei que é importante, mas só me remete aos filmes americanos...]

23 – Dia Mundial do Livro [UAU!]

26 – Dia do Goleiro [ Os frangueiros também podem se sentir homenageados]

27 – Dia da Empregada Doméstica [ Bem lembrado!]

27 – Dia Mundial do Teatro [Bacana!]

28 – Dia da Sogra [hehehe...]

30 – Dia Nacional da Mulher [ Ah... Dia 8 de março é o dia internacional....]
 
                                                                                       
                                                                                     

      Então... Continuando a falar do mês de abril, que começou de maneira trágica: consequencias das fortes chuvas, fico sem palavras - pra variar. Mas, o que dizer diante de um cenário como este? Eu sei que não foi uma chuvinha. Foi algo que à NASA causou espanto pelas imagens das nuvens sobre o Rio de Janeiro. Melhor não entrar no mérito da questão por esse viés da previsão, mas permissão para se construir lares em cima de lixões - como ocorreu no Morro do Bumba - e ainda fazer benfeitorias no local é de matar. Pelo amor de Deus! A coisa é de um absurdo tão grande que comentar é quase que aplaudir. Acho que, por isso, "alguns muitos" silêncios... 

Foto extraída do jornal A Tarde On Line 

[Morro do Bumba com  - ao fundo - a emblemática foto do que restou do quarto de uma casa que foi abandonada pelos moradores momentos antes do desabamento.]


     Não estamos preparados para pequenas nem grandes tragédias. Nem para as nossas, pessoais. Isto é fato. Então o que fazer quando estas se abatem sobre nós? Não sei. Eu só sei que até Deus manda que façamos a nossa parte e dá exemplos de se "construir sobre a rocha". Não sobre areia, barrancos ou tampouco sobre lixões. [Rio tem 18 favelas que cresceram sobre lixões]
     Enfim, a conta é alta. Preço de vidas. Quem vai pagar? [O prefeito Eduardo Paes anunciou a remoção imediata de famílias]. Não me causaria espanto ver o dia da forte chuva nos próximos calendários de abril - dia 6 - como homenagem aos sobreviventes - ou mortos - da enchente no RJ... Me [nos] poupe...




Ah, sim. Ja ía esquecendo... Um poema que toca em alguns


Até que ponto...
... o ponto de partida
tem um ponto de
chegada

Um toque...
... na flor com espinhos
não representa
uma furada

O limão ...
... azedo
dá pra fazer
a "tal limonada"
A chuva...
... cai trazendo
esperança e
não desgraça?

Até que ponto...
... se dá
sem esperar
nada?
Até que ponto?
Não sei....

... Mas,
se descobrir,te conto...

... O conto...
... Que ...

... quando se conta,
aumenta
um ponto
...

[Por Taninha Nascimento]



Assista ainda:



[O pior é que o risco não acabou... A cada chuvisco o medo nas áreas de risco, continua...]




Por Taninha Nascimento


Leia a reportagem mais recente sobre as chuvas no estado do Rio de Janeiro [12/04]


Imagens copiadas do FESTER BLOGER 
Visite o blog e veja mais fotos.
   

01 abril, 2010

UM ROMÂNTICO CONSPIRADOR DA EDUCAÇÃO


Entrevista - Um romântico conspirador da educação
José Pacheco, mestre em Ciências da Educação e criador da Escola da Ponte.


“Aquilo que hoje funciona no Brasil, em termos de sistema educativo, é a lógica administrativa e burocrática. Todas as medidas que se tomam são inúteis e as leis que existem estão erradas. O Ministério da Educação só serve para consumir dinheiro”.

De jeito simples e fala mansa, o mestre em Ciências da Educação José Pacheco rompeu o modelo tradicional de educação na Escola da Ponte, há mais de 30 anos, em seu país natal, Portugal. A escola não tem salas de aulas, turmas, nem séries e o aluno decide o quê, como e com quem aprender. Zé da Ponte, como é mais conhecido, mora há dois anos no Brasil, na cidade de Nova Lima, região me¬¬tropolitana de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais.
Costuma dizer que vive mesmo é nas nuvens. No último ano, acumulou mais de 340 voos para visitar escolas, dar palestras e conhecer a educação brasileira. “Vim muito mais para aprender do que para ajudar”, diz. No pouco tempo que está em terras brasileiras, Zé da Ponte ajudou a criar um grupo de educadores brasileiros que se intitulam “Românticos Cons¬piradores da Educação”. Além das milhagens acumuladas, aproveitou as viagens para es¬¬crever dois livros de crônicas, o Pequeno Dicionário de Absurdos em Educação, da Artmed, e o Pequeno Dicionário das Uto¬pias da Educação, da Wak.

Liberdade responsável

Autonomia e liberdade podem definir como funciona a Escola da Ponte, localizada na Vila das Aves, a 37 quilômetros da cidade de Porto, em Portugal. Há 34 a escola está instalada numa área aberta, sem salas de aulas ou turmas. Os alunos são organizados em pequenos grupos com interesse comum, escolhem seus tutores e reúnem-se com seus professores em torno de um galpão. São eles que desenvolvem seus trabalhos.
De acordo com Zé da Ponte, a liberdade responsável move a Escola da Ponte. Os pais quando decidem matricular seus filhos, assinam um contrato de responsabilidades. Podem, inclusive, participar da direção da escola. A instituição também tem autonomia financeira perante o estado, podendo contratar e demitir professores e funcionários.

Transformação na rede

Uma rede de cerca de 600 educadores brasileiros realizou seu segundo encontro nacional em Curitiba, durante a Conferência Internacional de Cidades Inova¬doras. O grupo “Românticos Cons¬¬piradores pela Educação” existe há dois anos e surgiu da iniciativa do professor Zé da Ponte. Os “Românticos Conspi¬radores” dialogam sobre as possibilidades transformadoras de educar, na linha da autonomia de aprendizagem, educação integral e democrática.
Para Zé Pacheco, estão integradas ao grupo pessoas que transformaram suas escolas mas que seus trabalhos ainda não são visíveis. “Eles trocam figurinhas pela internet e se encontram uma vez por ano. Não ficam só na teoria, estão fazendo na prática muitas coisas boas. São pessoas que enxergam e fazem a educação de um outro modo”, diz.

Serviço:

Os debates dos “Românticos Conspiradores” podem ser acompanhados pela internet no endereço: http://romanticos-conspiradores.ning.com/
Pelo título das obras dá para perceber o que Zé da Ponte é na sua essência: um ferrenho questionador da estrutura de ensino tradicional. O mentor da Escola de Ponte acredita que o modelo atual das escolas precisa ser revisto e defende a extinção do Ministério da Educação. Zé da Ponte não concorda com as principais leis educacionais brasileiras e diz que é na própria escola que devem começar as transformações.
“Somos todos socialmente responsáveis. Deixei de estar sozinho numa sala de aula, dependendo de coordenador, diretor e ministro. Passei individualmente a ser responsável pelos atos do meu coletivo. A Escola da Ponte mostra que é possível realizar a utopia de acolher a todos e dar resposta a cada um”, diz.
Zé da Ponte esteve em Curitiba para participar da Conferência Internacional de Cidades Inovadoras 2010, quando concedeu entrevista à Gazeta do Povo. Abaixo trechos da entrevista.

A Escola da Ponte quebrou com o modelo de escola que conhecemos. A ideia é acabar com as salas de aula e escolas da maneira que existem?

Este é o lado exótico, o mais visível. A Escola de Ponte não tem sala de aula, turma, ciclo, diretor, nada. Tem outras coisas que a torna uma das escolas mais estruturadas e organizadas que eu conheço. O essencial foi uma profunda renovação da cultura pessoal e profissional. Como consequência acabou com essa estrutura de turmas e salas de aulas que não servem para nada. Digo isso com todo respeito que tenho com as pessoas que trabalham desta maneira.

Isso quer dizer que o modelo de escola precisa ser repensado?

A Escola com “E” maiúsculo está condenada a desaparecer como modelo existente. Há mais de cem anos que está numa crise profunda e ninguém encontra uma solução. Essa “Escola” foi criada para suprir as necessidades sociais do século XIX. O modo como está organizada demonstra que está organizada para o insucesso, para o analfabetismo e o sofrimento. A Ponte, uma escola da rede pública estadual, mostrou que é possível ter responsabilidade perante o Estado, mas ser autônoma. Pode contratar e demitir, tem autonomia pedagógica e financeira. E esta escola que eu chamo de autônoma é assim porque não existe relação de poder hierárquico.

Essa transformação da Escola tem de partir de onde?

De cada escola. Não acredito em transformação a partir de medidas que venham de cima para baixo. Acredito no poder agregado ao local. As escolas não são iguais e por isso não há medidas políticas que possam contemplar a todas as escolas. Há muita diversidade. Sobretudo é uma mudança de cultura. Toda obra sobre a mudança da “Escola” está escrita. Falta mudar.

Você diz que encontrou muita coisa boa no Brasil relacionada à educação. O que foi?

O Brasil tem muitos bons educadores que a maioria dos brasileiros não o conhece. Cito Eurípedes Barsanulfo. Ninguém fala de Anísio Teixeira nesta terra. Inclusive pouco ou nada se faz sobre o legado de Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Lourenço Filho, Manoel Peixoto. A maioria conhece um Jean Piaget ou Lev Vygotski, dois fósseis europeus, mas não conhece o que tem aqui dentro do Brasil.

Numa entrevista a um jornal português você defendia a extinção do Ministério da Educação em Portugal. No Brasil você acha que deve ocorrer o mesmo?

Se queremos melhorar a educação brasileira, uma das primeiras coisas a ser feita é extinguir o Ministério da Educação. Com todo respeito que merecem aqueles que estão no Ministério da Educação, que são muito válidos, inteligentes, cultos e competentes. Não se trata disso, mas de acabar de uma vez por todas com uma máquina burocrática que não serve para nada. Só serve para manter as escolas sem desenvolvimento pedagógico. Aquilo que hoje funciona no Brasil, em termos de sistema educativo, é a lógica administrativa e burocrática. Todas as medidas que se to¬¬mam são inúteis e as leis que existem estão erradas. O Ministério da Educação só serve para consumir dinheiro.

Faltam recursos para a educação no Brasil?

O sistema educativo brasileiro não tem falta de recursos. O Brasil desperdiça. Isso também ocorre em Portugal. Fiz parte do Con¬selho Nacional de Educação de meu país. Discuti políticas educacionais com os ministros e quando me perguntavam qual a principal medida a ser adotada eu dizia: extinguir o Ministério da Educa¬ção. Pode-se criar um organismo ligeiro e simples, que acompanhe as políticas locais e que fiscalize o cumprimento da Constituição, no que diz respeito às escolas. Uma instituição tão burocratizada, tão pesada, não serve para nada a não ser para desperdiçar dinheiro público.

(Tatiana Duarte - educacao@gazetadopovo.com.br - 23/03/2010).

26 março, 2010

UM ROTEIRO PARA MORAR NO FUTURO - Entrevista com Marc Giget, cientista social e economista


“O fato de praticamente todos os conhecimentos do mundo estarem disponíveis na internet libera os professores de uma parte de seu trabalho e lhes permite dedicar mais tempo à pedagogia, a projetos, a experiências”.

“A educação e o acompanhamento sanitário, interligados
pela formação e dinamismo econômico, são o único meio de resolver a pobreza e a exclusão”.


UM ROTEIRO PARA MORAR NO FUTURO - Entrevista com Marc Giget, cientista social e economista.



Cidades verticalizadas, casas com mais cômodos destinados a encontros e ao mesmo tempo com mais espaço de uso pessoal, um transporte mais limpo e ágil, uma alimentação mais verde e saudável. Nenhuma grande revolução à vista, mas mudanças significativas, já em curso. Esse é o prognóstico do que esperar das cidades em um futuro não muito distante, de acordo com o francês Marc Giget. Formado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e doutor em Economia Internacional pela Universidade de Paris, Giget é criador do Instituto Europeu de Estratégias Criativas e de Inovação, órgão dedicado a estudar o futuro das cidades. Hoje, Giget desembarca em Curitiba para fazer, na Federação das Indústrias, a palestra “Vida nas Cidades a partir de 2030”. Em entrevista à Gazeta do Povo, Giget antecipa temas de pesquisas urbanas desenvolvidas em seu instituto.

O que podemos esperar das cidades em 2030? Serão muito diferentes daquelas que conhecemos hoje?

As mudanças se concentrarão principalmente na melhora do consumo de energia, com ganhos globais de performance estimados em 40% da consumação atual. Os novos edifícios serão energeticamente autônomos e neutros em emissões de gás carbônico.

Estamos considerando também a chegada de cidades radicalmente novas, caracterizadas por serem menos horizontais e mais verticalizadas, ao contrário de cidades como São Paulo e Belo Horizonte, onde o perímetro urbano é muito vasto. Esse é o projeto das “Cidades Colina”, que apresentamos recentemente na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, realizada em Curitiba.

Ao contrário de outras instituições, a escola formal mudou pouco ou quase nada nos últimos séculos. Devemos esperar alguma grande mudança para a educação nos próximos anos?

A educação, sem dúvida, sofrerá mais transformações neste horizonte em razão, principalmente, da chegada de um grande número de novas tecnologias de informação extremamente eficazes e com custos que diminuem a cada dia. Muitas experiências estão em curso no mundo inteiro e apontam para uma melhora considerável em relação a esse tema, dando margens à formação de qualidade de um maior número de pessoas, onde quer que elas estejam e a todo momento. O fato de praticamente todos os conhecimentos do mundo estarem disponíveis na internet libera os professores de uma parte de seu trabalho e lhes permite dedicar mais tempo à pedagogia, a projetos, a experiências.

Devemos esperar uma grande mudança nas relações de trabalho?

As tecnologias de informação já começaram a mudar as relações de trabalho e isso se potencializará. Mas, em sua essência, quaisquer que sejam as novas tecnologias, as relações humanas continuarão sendo feitas de contatos físicos e trocas. A natureza do trabalho deverá evoluir com uma organização baseada em projetos, na cooperação entre pessoas e no uso de diferentes formas de parceria.

O que deverá mudar em nossas casas?

Em geral, as pessoas são muito apegadas aos domicílios tradicionais e não sonham com casas de alta tecnologia. Já existe uma evolução em curso – a do desenvolvimento sustentável das moradias. Em paralelo, as habitações devem se desenvolver trazendo mais conforto, permitindo, ao mesmo tempo, mais convivência nos cômodos destinados aos encontros e novos espaços de uso pessoal.

E em relação ao que comemos? Pode haver falta de comida? Teremos de adaptar a nossa alimentação?

Em nível global, há um risco muito pequeno de falta de alimento – salvo nas zonas de conflito. Mais que novos tipos de alimentos, teremos uma evolução verde, com uma alimentação mais saudável, com menos açúcar. Isso quer dizer, sobretudo, que teremos mais vegetais e mais variedade, com novos formatos e alimentos com um aspecto mais atrativo. A alimentação evolui, de fato, muito lentamente, em função das tradições. A tendência atual da obesidade, por exemplo, está ligada ao fato que de que os modos de vida evoluíram mais rápido que os hábitos alimentares.

Hoje, o trânsito é um dos mais importante temas de debate. O número de carros não para de crescer. Ninguém quer usar ônibus ou outro meio de transporte coletivo. Pedestres não têm espaço em nossa cidades. O que esperar do futuro? O caos ou uma grande mudança?

Um dos principais problemas é o extremo crescimento das cidades. As regiões metropolitanas estão se expandindo para muito longe do centro das cidades, exigindo a utilização de meios de transportes individuais, fazendo com que os transportes públicos sejam pouco eficazes e pouco atrativos nas zonas de habitação de baixa densidade. Mas estão chegando os meios de transportes – públicos e individuais – “suaves”, leves, ágeis, que gastam bem menos energia, permitindo assim um menor gasto e menos poluição.

A violência é uma das maiores preocupações da sociedade. Podemos esperar dias melhores?

Algumas tecnologias revolucionárias podem ajudar na luta contra a criminalidade, o que é um desafio para as democracias. É preciso meios e ações muito fortes, além de valores que abranjam toda a sociedade.

Que tipo de ação pode ajudar no desenvolvimento social das cidades?

Os principais vetores são a educação e o acompanhamento sanitário, interligados pela formação e dinamismo econômico, único meio de resolver a pobreza e a exclusão. É da emergência de novas atividades econômicas e industriais que vai nascer o crescimento tecnológico, permitindo um progresso considerável neste sentido.

Qual a sua impressão da cidade de Curitiba no presente e no futuro?

Na ocasião da conferência “Cidades Inovadoras”, que aconteceu há uma semana, pude ver e entender o quanto os gestores urbanos de outros continentes estão seduzidos por Curitiba. Eu estou muito confiante quanto ao futuro desta cidade, que já tem no seu ativo várias e belas realizações.

Para o futuro, seus grandes atributos são a extrema riqueza humana ligada a uma característica cultural única – fator determinante de inovação –, o diálogo e a troca entre as comunidades e as diferentes forças vivas da cidade para a construção do futuro.

Foi nesse sentido que o trabalho de reflexão “Cidades Inovadores Curitiba 2030” foi bastante apreciado. Há uma dinâmica empreendedora e uma renovação. Por fim, a abertura internacional crescente deverá consolidar a cidade como lugar de encontros internacionais para discutir a concepção do futuro, notadamente nas suas dimensões de desenvolvimento sustentável.



(CABRAL, Themys. Gazeta do Povo. Curitiba: 22/03/2010. Tradução: Antoine Moreau, Rafael Asinelli e Marilia de Souza)



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Colaboração para o blog do Prof. Jayme Bueno