26 setembro, 2010

100 anos de Lula Cardoso Ayres





Urariano Mota

Hoje faz 100 anos do nascimento de Lula Cardoso Ayres, artista múltiplo, recifense. Pintor grande em uma terra de grandes pintores como Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro, para somente falar de clássicos da moderna pintura brasileira, Lula achou pouco ser desenhista e pintor, e entrou pela fotografia, design, ilustração, pesquisador das gentes.


Em sua fase madura, aprendeu o povo sem apreendê-lo ou prendê-lo. Marcou para sempre as coisas da gente de Pernambuco, como se fosse um filtro humano, colorindo a a geometria. Ver, por exemplo, o que chamo "Cortadores de cana", http://www.bolsadearte.com/maio2000/maio2000lote39%20.jpg

Designer pioneiro no Brasil, desenhou marcas-símbolos-síntese para produtos que dão água na boca só em lembrá-los: lata da biscoitos Pilar, lata do azeite (que era óleo) Bem-te-vi.

Lula Cardoso Ayres se beneficiou do movimento dos comunistas, das esquerdas em geral, que puseram o povo como fonte e realização. (Ele pensava que havia captado isso com Gilberto Freyre, mas Freyre, na época, era reflexo desse movimento grande da esquerda no Brasil.)

Daí que há registros, registros, não, eternizações da cor e da cara da gente de Pernambuco. Tanto em pintura quanto em fotografia. Ver http://www.olhave.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/06/Lula-Cardoso-Ayres-1.jpg Ele era um quase tarado pelas coisa de Pernambuco. Às vezes lírico, de um lirismo de arrepiar, como nessa aparição de mulher em um sobrado antigo, da série Assombrações do Recife, aqui http://www.bolsadearte.com/maio2001/imagem/086.jpg e aqui http://www.caiaffa.com/IMG/creditos/Opera/lulacardosoayres%28www.caiaffa.com%29.jpg

No parágrafo anterior, escrevi que Lula Cardoso Ayres era tarado pelas coisas de Pernambuco. Melhor dizendo, corrijo: pela amor e paixão pela terra, ele era antes um terrado. Universal por tara de sua terra.

25 setembro, 2010

O Fim: Venda o Seu Voto!

O Fim: Venda o Seu Voto!: "Sabem, estive pensando... Os eleitores deveriam vender seu voto. Sim, é uma forma de valorizá-lo. A melhor forma. Afinal, por que não vender..."

22 setembro, 2010

21 setembro, 2010

A Imprensa Golpista





Ola pessoal!

A grande impresa brasileira tem o péssimo costume de defender candidaturas sem assumir o que esta fazendo. Isso fica bem claro quando analisamos a conduta de jornais tradicionais como "O Estado de São Paulo" e "Folha de São Paulo", "revista Veja, e pela poderosa formadora de opinião, a "Rede Globo". Esses veículos não utilizam os editoriais para dizerem que são a favor de determinados candidatos. Fazem campanha descarada, disfarçada de noticiário. Isso é lamentável. Na grande imprensa, apenas a revista "Carta Capital", do jornalista Mino Carta, teve a coragem e a ousadia de declarar em editorial que: era a favor de tal candidatura, pois a considerava a melhor. Os outros veículos de comunicação, não. Hoje, "Carta Capital" é obrigatória para quem quer se informar bem.

O jornalista Paulo Henrique Amorim, a criou o termo "PIG" (Partido da Imprensa Golpista), para designar a ala dos veículos de comunicação que age como um verdadeiro partido político de direita. Em seu site "Conversa Afiada", (http://www.conversaafiada.com.br), Amorim nos dá ampla visão do que acontece na imprensa no dia a dia.

Nessa mesma linha de raciocínio, segue o jornalista Ricardo Kostcho, matéria publicada em seu blog "O Balaio do Kotscho" (http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho), na qual ele analisa a cobertura da grande imprensa.

Portanto, tenho grande respeito e admiração a esses três nomes: Mino Carta, Paulo Henrique Amorim e Ricardo Kotscho, que engrandecem o jornalismo. Vejam o artigo.



17/09/2010 - 11:55

Manchetes que viram propaganda eleitoral

Pelos comentários que leio diariamente aqui, os leitores estão cada vez mais indignados com o comportamento da grande imprensa brasileira na cobertura da campanha eleitoral de 2010. Um exemplo que resume a bronca da maioria é a mensagem enviada às 14h06 desta quinta-feira pelo leitor Eduardo Bonfim, pedindo que eu me manifeste sobre o assunto:

“Prezado Ricardo Kotscho

Sou fã do seu blog. Gostaria que você escrevesse um artigo sobre a propaganda que a Rede Globo vem fazendo no Jornal Nacional (JN no Ar) todos os dias, onde claramente só mostra a parte ruim do Brasil para que o povo vote no 45. Realmente, o casal do JN é 45. Isso é liberdade de imprensa?”

Sim, meu caro Eduardo, esta é a liberdade de imprensa que os oligopólios de mídia defendem. Ninguém pode contestá-los. Trata-se de um direito absoluto, sem limites. O citado JN no Ar, por exemplo, levanta todo dia a bola dos problemas das cidades brasileiras, onde falta de tudo e nada funciona. No mínimo, tem lugar onde falta homem e tem lugar onde falta mulher… Logo em seguida, entra o programa do candidato José Serra para apresentar as soluções.

Na outra metade do programa tucano, em tabelinha com os principais veículos de comunicação do país, são apresentadas as manchetes dos jornais e revistas com denúncias contra a candidata Dilma Rousseff, o governo Lula e o PT, numa sucessão de escândalos sem fim até o dia de disparar a tal “bala de prata”.

Já não dá mais para saber onde acaba o telejornal e onde começa o horário político eleitoral, o que é fato e o que é ilação, o que é notícia e o que é propaganda. A estratégia não chega a ser original. Mas, desde o segundo turno entre Collor e Lula, em 1989, eu não via uma cobertura tão descarada, um engajamento tão ostensivo da imprensa a favor de um candidato e contra o outro.

O esquema é sempre o mesmo: no sábado, a revista Veja lança uma nova denúncia, que repercute no JN de sábado e nos jornalões de domingo, avançando pelos dias seguintes. A partir daí, começa uma gincana para ver quem acrescenta novos ingredientes ao escândalo, não importa que os denunciantes tenham acabado de sair da cadeia ou fujam do país em seguida. Vale tudo.

Como apenas 1,5 milhão de brasileiros lê jornal diariamente, num universo de 135 milhões de eleitores, ou seja, o que é quase nada, e a maioria destes leitores já tem posição política firmada e candidato escolhido, reproduzir as manchetes e o noticiário dos impressos na televisão, seja no telejornal de maior audiência ou no horário de propaganda eleitoral, é fundamental para atingir o objetivo comum: levar o candidato da oposição ao segundo turno, como aconteceu em 2006.

À medida em que o tempo passa e nada se altera nas pesquisas, que indicam a vitória de Dilma no primeiro turno, o desespero e a radicalização aumentam. Engana-se, porém, quem pensar que o eleitorado não está sacando tudo. Basta ler os comentários publicados nos diferentes espaços da internet _ este novo meio que a população vem utilizando mais a cada dia, para deixar de ser um agente passivo no mundo da informação e poder formar a sua própria opinião.

Em tempo: não tem jeito. Quanto mais denunciam, atacam, escandalizam, mais aumenta a diferença de Dilma para Serra. No novo Ibope divulgado esta noite pelo Jornal Nacional, o abismo entre os dois candidatos abriu de 24 para 26 pontos (51 a 25). O casal JN estava todo vestido de preto. A estratégia kamikase só está fazendo o candidato da oposição cair mais ainda nas pesquisas. Como vai ficar a credibilidade da imprensa depois das eleições?

Autor: Ricardo Kotscho - Categoria(s): Blog

CRISTOVÃO TEZZA - LULA E AS ABSTRAÇÕES

Lula e as abstrações
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Como todo brasileiro mais ou menos letrado, venho acompanhando a sucessão de escândalos da Casa Civil – ou da Casa da Dilma, porque afinal foi lá que se fez o ninho de sua candidatura pela mão do presidente Lula. O aspecto que mais vem chamando a atenção dos analistas é o fato de que nada disso parece até o momento afetar os índices das pesquisas da eleição, ainda que haja um ou outro estremecimento aqui e ali, quase imperceptíveis.
As explicações para essa ausência de ressonância são muitas – a principal delas, a satisfação de uma larga parcela do povo beneficiada pelo crescimento econômico brasileiro, para a qual o noticiário, em qualquer caso, é irrelevante. Para outra faixa, a “roubalheira” seria “a de sempre”, “política é assim mesmo”, esse pessoal “rouba mas faz”, e se repetem as clássicas afirmações populares que atestam a simples e centenária despolitização brasileira. E para muitos tudo não passaria de uma conspiração da “imprensa vendida”, a velha válvula de escape. Amparados na popularidade messiânica de Lula, os candidatos do governo recebem afagos do chefe e seguem em frente, sorridentes na fotografia. Nada parece fazer diferença.
Quando Lula perguntou, há algumas semanas, “onde está esse tal de sigilo”, produziu uma piada cretina, é verdade – mas deu mais um exemplo da natureza de seu sucesso, que é o horror a abstrações. Ao transformar o “sigilo” – um complexo conceito criado pela civilização para proteger os direitos do indivíduo – num malfeitor que precisa ser “preso”, ao mesmo tempo não disse nada, encerrou o assunto e deixou uma imagem concreta na cabeça do eleitor desavisado. Uma imagem inútil, mas tranquilizadora.
Outra abstração de difícil percepção popular, pelo menos no Brasil de hoje, é a separação fundamental entre Estado, governo e partido político. Lula se comporta como alguém que, em oito anos de mandato, ainda não conseguiu se transformar em presidente. A sem-cerimônia com que o aparelho inteiro do Estado, sob a aguerrida onipresença do próprio Lula, se lança na campanha presidencial, filmada em autoespetáculo pela própria tevê estatal, sem sequer o pudor de uma licença do cargo, dá a impressão assustadora de uma arrogância triunfante e corrupta, vivendo a pura lógica de terra arrasada, como se o sucesso de seu governo não melhorasse o país, mas paradoxalmente o tornasse pior, vivendo o ressentimento e a volúpia de uma vingança contra um “inimigo” que, de fato, jamais teve. Pelo contrário, durante oito anos Lula contou com o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar, repetindo a velha piada.
Por um Fiat Elba, Collor virou farelo. Diante dos renitentes escândalos da Casa Civil, parece que o que está fazendo falta mesmo é um PT, que, como nos velhos tempos, não deixasse passar um fio de cabelo sem ligar o megafone. Mas acho que isso já é pedir abstração demais.
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(TEZZA, Cristovão - escritor e colunista da Gazeta do Povo. Crônica publicada em 21/09/2010)

31 julho, 2010

Como "se saíram" os alunos brasileiros em 2009





No dia 5 de Julho de 2010, o Jornal ESTADÃO publicou uma matéria sobre o desempenho dos alunos brasileiros em 2009 com os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que mostra o desempenho dos alunos do ensino básico. Segundo a matéria sobre os resultados do Ideb 2009, todos os Estados alcançaram a meta dos anos iniciais do ensino fundamental, levando-se em conta as taxas de aprovação, abandono escolar e desempenho no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e na Prova Brasil. A nota variou de 0 a 10.

Na região norte, três Estados obtiveram resultados aquém do projetado pelo MEC nos anos finais do ensino fundamental. Já o melhor resultado relativo foi do Mato Grosso. E, no ensino médio, Roraima, Piauí, Sergipe, Espírito Santo e Rio de Janeiro não alcançaram suas metas de 2009.


No dia 01 de julho de 2010, o mesmo jornal já havia publicado a matéria dizendo que o "País avança no ensino fundamental e estaciona no médio." Conforme o índice da educação básica que foi divulgado pelo MEC em Brasília.

Leia a notícia na íntregra aqui.

O que eu posso dizer enquanto Educadora é tudo muito pouco e que há muito que se fazer; sobretudo no que diz respeito a valorização do professor e condições de trabalho. Digo e repito sempre: há que se gastar dinheiro com a Educação - sem economia, sem desvios de verbas. Enquanto isto não for prioridade, estaremos num patamar muito baixo e as conquistas serão gotas num oceano de dificuldades. Gotas preciosas, claro! Há muita coisa boa acontecendo nas salas de aula por "obra e graça" do professor dedicado e que leva sua profissão a sério, se envolvendo em todo um processo pedagógico trabalhoso que começa com o planejamento de suas ações, traçando objetivos. Professor sério não "improvisa" uma aula. Ele se prepara para possíveis situações que possam surgir. E, são estes, os verdadeiros "heróis e heroínas" anônimos de nossa sociedade, que lidam com todo o reflexo desta em sua sala de aula e dão conta do recado.


13 julho, 2010

CECÍLIA MEIRELES – EDUCADORA

Este Blog geralmente apresenta-se com a imagem de um autor da nossa literatura. Tenho observado a presença frequente da poeta Cecília Meireles. Ela é digna merecedora dessa homenagem, por sua vida, sua poesia e também pela sua ação como educadora.
Por tudo isso, enfocaremos nesta postagem a Cecília Meireles Educadora, embora para tanto não possamos esquecer a grande poetisa que foi. Em suas obras há sempre uma preocupação de ensinar, de educar. É importante referir a obras como O Romanceiro da Inconfidência, escrito na década de 1940 e publicado em 1953; e aquela coletânea de poemas voltada mais diretamente para as crianças, Ou Isto ou Aquilo, de 1964.

1. Traços biográficos
Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964) nasceu no Rio de Janeiro. Órfã da mãe aos três anos. Seu pai havia falecido antes mesmo do nascimento de Cecília. Criou-se com sua avó. Sobre essas mortes, escreveria: “acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno”. Aos 20 anos, Cecília publicou a sua primeira obra em poesia, Espectro. Aos 22, Casa-se com o pintor português Fernando Correia Dias, que se suicida em 1935. Casa-se então com o professor Heitor Vinícius da Silveira Grilo.
Eterna viajante, percorreu diversos destinos na América, Europa, Àsia e África. Em alguns desses locais, lecionou, ou fez conferências sobre literatura e teoria literária. Sobre suas viagens ficaram famosas as suas crônicas, publicadas em três volumes.
Cecília Meireles deixou também cinco volumes de crônicas sobre a Educação. A sua obra em prosa encontra-se publicada em seis volumes.
O seu livro de poemas Viagem, de 1939, recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Olavo Bilac.

2. Cecília Meireles e a Escola Nova
Na ação educativa de Cecília está presente sem dúvida a influência da chamada Escola Nova, movimento pedagógico dos anos 30 e 60 no Brasil. Ela é uma das signatárias do Manifesto dos Pioneiros, de 1932. Juntamente com os líderes Fernando Azevedo, Lourenço Filho e Anísio Teixeira, Cecília empenhou-se na militância pela educação no Brasil.
A Escola Nova, um movimento de renovação do ensino que foi especialmente forte na Europa, na América e no Brasil, na primeira metade do século XX . Foi chamada também de Escola Ativa e Escola Progressiva. Os seus principais influenciadores foram: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), os pedagogos Heinrich Pestalozzi (1746-1827) e Freidrich Fröebel (1782-1852). Na Europa, foram importantes, o psicólogo Edouard Claparède (1873-1940) e o educador Adolphe Ferrière (1879-1960). Porém, é reconhecido como o principal filósofo, pedagogo e educador do movimento, sem dúvida, o norte-americano John Dewey (1859-1952).
No Brasil, talvez o primeiro a lutar pelas ideias da nova escola tenha sido Rui Barbosa (1849-1923). Na década de 1930, surge o grupo que assinou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, dos quais, como já ressaltamos, foram Lourenço Filho (1897-1970) e Anísio Teixeira (1900-1971), grandes humanistas, filósofos da educação e pedagogos entusiasmados. O pensamento de Dewey unia a todos, a escola deveria ser uma nova comunidade e a educação deveria voltar-se para as atividades próprias da vida. Vida e Educação é uma das principais obras desse autor norte-americano. Consta da coletânea Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 106-179.

3. Um depoimento:
No final dos anos 50 e início de 1960, a influência da Escola Nova ainda era grande nas Universidades brasileiras. Como aluno do curso de Didática, assim chamado na época, e que complementava o Bacharelado e atribuía ao formado o título de Licenciado, eu mesmo cheguei a redigir um trabalho baseado nessa obra, quando o saudoso professor Albano Wolski solicitou uma monografia sobre Educação e Trabalho. O livro de capa verde mantém-se até hoje em minha biblioteca.
4. A cronista Educadora
Como cronista da Educação,assinou colunas nos principais períódicos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nessa função de jornalista teve de enfrentar as forças ideológica do então governo Getúlio Vargas, a quem ela chamou de Senhor Ditador. Publicou a Página de Educação de 1930 a 1933. Foram mais de mil artigos em que defendia mais liberdade na educação. Queria que as escolas fossem mistas com a presença de ambos os sexos e não aquela separação que existia. Lutava também pela escola pública e não aceitava que as escolas tivessem de ser todas religiosas, como era naquela época.
Cecília voltou mais tarde a atuar em outros órgãos, como A Nação, A Manhã. Em assuntos literários ainda atuou ainda no Diário de Notícias e na Folha de S. Paulo. Portanto, colaborou nos principais jornais da época e alguns deles ainda importantes em nossos dias.

5. Um segundo depoimento:
Sobre a frequencia de meninos e meninas em ambientes separados, aqui em Curitiba, permanece um retrato vivo da situação. É o prédio da Escola Xavier da Silva, na Av. Silva Jardim, no centro, que ainda funciona em um bonito edifício daqueles tempos de 1920 e 1930. Lá está gravado na própria construção em relevo um dos blocos: ALA MASCULINA; em outro, ALA FEMININA. Para os mais jovens, hoje isso soa totalmente inusitado e inverossímil.
Em textos sobre essa Escola, consta, por exemplo:
“Em 1903, o Grupo Escolar Dr. Xavier da Silva foi inaugurado. Com seis salas de aula, tinha por objetivo atender as quatro séries primárias, com seções separadas para meninos e meninas e, para isso, seriam três salas para cada sexo.”
(http://www.oei.es/pdf2/rbep_224_arquitetura_grupos_escolares.pdf. Acesso em 13.jul..2010)
e
"Estado do Paraná – 1914 - Grupos escolares: Função - Série
Grupo Escolar Xavier da Silva
Seção feminina
Maria Rosa G. do Nascimento - Diretora
Leonor Machado Busse - Professora da 1.ª série
Carolina Pinto Moreira - Professora da 2.ª série
Anna Pereira Marques - Professora da 2.ª série
Seção masculina
Verissimo Antonio de Sousa - Diretor
Lindolpho Pires da R. Pombo - Professor da 3.ª série
Brasilio Ovidio da Costa - Professor da 2.ª série
Aristeu Corrêa de Bittencourt - Professor da 1.ª série"
A educação naquele tempo era assim: perfeita separação dos alunos por sexo.

TEXTOS:
I – Fragmento de uma crônica
Mas, enquanto uma reforma do Ensino Primário, como a que nos deixou o governo findo, nos promete - embora da sombra e da frialdade a que a condenaram - uma era nova, e de real importância, para a nossa nacionalidade, o regime atual, que tanto tem invocado a Liberdade como sua padroeira, nos coloca nas velhas situações de rotina, de cativeiro e de atraso que aos olhos atônitos do mundo proclamarão, só por si, o formidável fracasso da nossa revolução... Veio o sr. Francisco Campos com o seu feixe de reformas na mão. E, em cada feixe, pontudos espinhos de taxas... E esperávamos uma reforma de finalidades, de ideologia, de democratização máxima do ensino, da escola única - todas essas coisas que a gente precisa conhecer antes de ser ministro da educação...Depois veio o decretozinho do ensino religioso. Um decretozinho provinciano, para agradar alguns curas, e atrair algumas ovelhas...decreto em que fermentam os mais nocivos efeitos para a nossa pátria e para a humanidade. Chama-se a isto ser liberal. Fala-se da religião como de um movimento de liberdade. Liberdade! Oh! mas, afinal, sejamos coerentes. Façamos o déspota. Façamos o vizir. Façamos, de certo modo, o César do século 20. Mas conservemos a significação dos nomes!

(MEIRELES,Cecília. Página de Educação, Diário de Notícias, 6. maio.1931 – Fragmento. http://www.casadobruxo.com.br/poesia/c/cec_esp2.htm - Acesso em 13 jul..2010)

II - Edmundo, o Céptico
Naquele tempo, nós não sabiamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.
Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes. Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O cepticismo também tem o seu valor!)
Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d'água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a idéia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.
Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: "E o rei Salomão?" Foi preciso a professora fazer uma conferência sobre o assunto; e ele não saiu convencido. Dizia: “Só vendo.” E em certas ocasiões, depois de lhe mostrarem tudo o que queria ver, ainda duvidava. “Talvez eu não tenha visto direito. Eles sempre atrapalham.” (Eles eram os adultos.)
Edmundo foi aluno muito difícil. Até os colegas perdiam a paciência com as suas dúvidas. Alguém devia ter tentado enganá-lo, um dia, para que ele assim desconfiasse de tudo e de todos. Mas de si, não; pois foi a primeira pessoa que me disse estar a ponto de inventar o moto contínuo, invenção que naquele tempo andava muito em moda, mais ou menos como, hoje, as aventuras espaciais.
Edmundo estava sempre em guarda contra os adultos: eram os nossos permanentes adversários. Só diziam mentiras. Tinham a força ao seu dispor (representada por várias formas de agressão, da palmada ao quarto escuro, passando por várias etapas muito variadas). Edmundo reconhecia a sua inutilidade de lutar; mas tinha o brio de não se deixar vencer facilmente.
Numa festa de aniversário, apareceu, entre números de piano e canto (ah! delícias dos saraus de outrora!), apareceu um mágico com a sua cartola, o seu lenço, bigodes retorcidos e flor na lapela. Nenhum de nós se importaria muito com a verdade: era tão engraçado ver saírem cinquenta fitas de dentro de uma só... e o copo d’água ficar cheio de vinho...
Edmundo resistiu um pouco. Depois, achou que todos estávamos ficando bobos demais. Disse: “Eu não acredito!”. Foi mexer no arsenal do mágico e não pudemos ver mais as moedas entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, nem da cartola vazia debandar um pombo voando... (Edmundo estragava tudo. Edmundo não admitia a mentira. Edmundo morreu cedo. E quem sabe, meu Deus, com que verdades?).

(Publicado em Quadrante 2. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962, p. 122).

III – Ou Isto ou Aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa estar
ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinque, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.


Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

CONCLUSÃO
Aí estão textos que falam por si e demonstram a atividade de Cecília Meireles como educadora. Educadora, sim, porém sem nunca ter abandonado o estilo e o espírito da grande poeta que sempre foi, lírica, sensível, atuante.

23 junho, 2010

A morte de Saramago - por Jayme Bueno

José Saramago


O Prof. Jayme faz parte de nossa equipe aqui no blog.  O mestre, além de dominar os conhecimentos da Literatura Brasileira, é profundo conhecedor da Literatura Portuguesa. Em seu blog, fez uma postagem imperdível!

Vale a pena conferir e aprender mais sobre José Saramago lendo o post: A morte de Saramago no blog do Prof. Jayme Bueno.


Uma degustação do post:


Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,

manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, /

e dizem-se as palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.

Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece /

e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste.



21 junho, 2010

A Morte de Saramago - por Daniel Osiecki

Na foto: José Saramago



Daniel Osiecki é um jovem professor de Literatura Brasileira, revisor de texto e escritor. Graduado em Letras e Especialista em Literatura Brasileira (mais precisamente em Moacyr Scliar).

Em seu blog, Távola Redonda, Daniel faz excelentes postagens e o qualifica como um "espaço para discussões sobre literatura, muito em especial a Literatura Portuguesa.Viagens poéticas e narrativas".

Por ocasião da morte de José Saramago, Daniel escreveu um belo e breve texto sobre o autor que merece ser lido por conter informações preciosas  - com a credibilidade de um leitor voraz; excelente professor e escritor que é Daniel Osiecki.

Segue o texto:



Nota-se a passagem do tempo quando os mais velhos morrem, e desta forma sabemos que caminhamos para o mesmo fim. É mais desalentador quando um grande mestre, próximo ou não, nos deixa.Caso de José Saramago, morto na última sexta-feira em sua casa em Lanzarote.



Saramago era um sujeito controverso, polêmico, muitas vezes incoerente, mas é inegável o fato dele ser um grande escritor. leia na íntegra aqui

15 junho, 2010

Futebol, teoria e prática

Maicon celebra primeiro gol do Brasil na Copa do Mundo 2010 - foto: Reuters



Sempre que eu escrevo aqui sobre futebol, tem umas senhoras que reclamam.

Acontece que, em primeiro lugar, eu adoro futebol. Em segundo, minha cara, se o Roberto DaMatta escreveu, se o Verissimo escreveu, se o Ubaldo escreveu e o pau não comeu, por que não eu? Viram?, estou até rimando.

É que eu tenho uma teoria sobre o nosso futebol paraguaio. Não sou homem de muitas teorias, sempre fui um prático. Mas há 30 anos, exatamente desde a Copa de 70, venho acompanhando a queda do nosso futebol. De lá para cá - exceção da seleção de 82 -, é sempre um sufoco assistir aos jogos da nossa seleção. Até contra o Panamá, país onde passa um canal no meio do campo, a gente ficou na agonia durante exatamente 61 minutos.

A minha teoria é a seguinte. Até 70, não havia substituições no jogo.

Machucou, saía e continuava com dez. Ali começou o imbróglio. Com as três substiuições, veio o banco de reservas. E com o banco, ele, o técnico. Deus.

Era aqui que eu queria chegar. Depois deixaram o Deus ficar de pé. E gritar.

Gritar palavrão, dar ordens, xingar, ameaçar, mandar fazer isso ou aquilo.

Sendo dono da coisa, da cabeça e do talento dos nossos meninos.

Ou seja, o técnico quer que o jogador faça o que ele quer e não o que o jogador sabe. Fico a imaginar um técnico gritando com o Garrincha, que dribrava para trás. A pedir para o Pelé não entrar pela direita. Teve um até que chegou a dizer que o Pelé estava ficando cego. Céus.

O jogador brasileiro tem aquele nível cultural que você conhece. É tímido, envergonhado, semi-analfabeto. Hoje, erram uma jogada e olham para o banco.

Já reparou? E, quando acertam, vão lá beijar o dono deles, o pai deles, o homem que pensa por eles.

A minha idéia é acabar com esse negócio de substituição e deixar os onze craques lá dentro. E eles se virarem entre eles. Eles perceberem com o talento que o verdadeiro Deus lhes deu e se ajeitarem. Vai voltar a criatividade e a ginga dos moleques canarinhos.

Eu não sei qual é a sua profissão. Mas imagine você trabalhando e um sujeito (que se julga superior a você, mas nunca fez aquilo) martelando no seu ouvido.

Fico imaginando eu aqui, escrevendo e um sujeito gritando ao meu lado:

- Olha a vírgula, porra! Olha a vírgula!!!

Sem saber onde é que eu ia terminar a frase.

- O parágrafo tá ficando grande! Corta! Corta!

- Tá usando muita reticência... Assim o leitor não agüenta. Olha o trema do agüenta!!!

- Crase, não! Você não sabe colocar crase. Não inventa!!! Escreva o feijão-com-arroz.

E quando eu dou uma paradinha para pensar, lá vem ele de novo:

- Pára de valorizar a palavra. Vai logo para a linha final e cruza uma exclamação.

Eu olho para ele e já não sei o que era mesmo que eu pretendia com a linha de cima.

Mas ele, ali na beira da mesa, gritando comigo. Dizendo palavrões que eu não posso colocar aqui. Eu começo a pensar numa frase bonita para correr até ele e dar um beijo. Ajeito o título.

- Isso é título que se apresente, rapaz!!! Muda o título. Mude o tipo. Use corrier, arial não está com nada. Olha o espaço! Olha o espaço, porra! Assim não vai dar. Olha o tempo. O pessoal da redação está ligando. Pensa na ilustração.

Já estou pensando em ser substituído. Estou cansado.

- Vamos cara, falta só um parágrafo. Vai mais para a esquerda, o texto tá meio reacionário. Olha a revisão. Jeito não é com g!!! Cobre o espaço!

Já pensou? Os jogadores devem ficar lá dentro com a mesma aflição. Não existe mais jogador. Existe aquele homem ali, que entende de tudo, que se veste bonito, fala bonito e - geralmente - é um tremendo de um mau-caráter e seu vocabulário se resume a palavrões e chavões.

Tirem aquele homem de dentro do campo, pelo amor de Deus, pelo amor e talento aos nossos craques. Ninguém trabalha sob pressão, com palpites.

Bem fazia o Feola, campeão de 58, que dormia nos treinos e deixava a garotada trabalhar com prazer.


o estado de s. paulo

15/08/2001

Mário Prata

04 junho, 2010

SOCIEDADE É INFORMAL. POR QUE USAR MESÓCLISES?

Sírio Possenti, professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp é colunista do “TERRA MAGAZINE” (http://terramagazine.terra.com.br/), do Bob Fernandes. Dia 27 de maio pp., escreveu interessante texto, que achei mais interessante ainda postar neste blog, pois parece-me bem pertinente. E sem mais detalhes, segue o texto na íntegra:

SOCIEDADE É INFORMAL.

POR QUE USAR MESÓCLISES?

Sírio Possenti
Este texto não tem nada, mas também tem tudo a ver com sugestão de traduzir "Call me" por "Me chame". Nada, porque não trata de tradução; tudo, porque comenta a incorporação de construções menos formais à linguagem literária. No caso do romance, lugar da encenação do plurilinguismo (coisa que todos poderiam ter visto, e que Bakhtin tematizou explicitamente), a coisa é mais tranquila. Mas há casos também na poesia.
Drummond de Andrade desafiou o cânone gramatical com seu "Tinha uma pedra no meio do caminho" e João Cabral fez o mesmo com "Joga-se os grãos na água do alguidar". Cabral aceitou "corrigir" a construção, que substituiu por "jogam-se" na edição da Aguilar (deve ter achado que "joga-se" era uma pedra no feijão...). No Google, as duas construções convivem. É impossível saber se são cópias ou "edições".
Esta nota tem a ver com uma notícia de jornal (espero que esta esteja correta!): lendo reportagem sobre o lançamento de edição especial de Alguma poesia, descobre-se (repito, se a informação for verdadeira) que Mário de Andrade, em carta, comentou elogiosamente a transgressão gramatical (sic!) no verso "O poeta chega na estação". Drummond respondeu que foi um cochilo, que ia corrigir. "Ainda não posso compreender os seus curiosos excessos. Aceitar tudo que vem do povo é uma tolice que nos leva ao regionalismo", escreveu a Mário não sei se Mário o aconselharia aceitar "tudo" o que vem do povo. Mário o convence a manter a regência como seguinte argumento: "Quem como você mostrou a coragem de reconhecer a evolução das artes até a atualização delas põe-se com isso em manifesta contradição consigo mesmo" (Folha de S. Paulo, 22/05/2010). Drummond, como se sabe, manteve a forma "popular". Que, aliás, não é regionalismo.
A única questão relevante, tanto no caso de Drummond quanto no de Cabral, é por que empregaram a forma "popular" e só se deram conta de que há um "erro" quando alguém fez a observação? Há uma só resposta, em termos de história da língua: é porque essas construções não são mais erros, já eram formas cultas naquele tempo, à luz da melhor e da mais rigorosa noção de padrão linguístico. Tanto não são erros - já não eram há quase cem anos - que dois escritores que não eram populares as empregaram. Achando que estavam escrevendo "certo".
Há um dado sociológico visível que poderia ser considerado para defender que nossa escrita seja menos arcaizante: a sociedade se tornou francamente informal. Quem espiar algum documentário que mostre o "maracanazo" verá a quantidade de homens de terno vendo um jogo de futebol. E não verá nenhuma mulher de calça comprida. Muito menos de bermuda. Hoje, elas vestem homens e mulheres. Ou todos usam jeans e camisetas.
Ninguém mais chama os pais de senhor e senhora. Por que temos que insistir em ênclises e em mesóclises?

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.

FONTE:- http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4451566-EI8425,00.html
Autor da postagem:
Luiz de Almeida - Blog RETALHOS DO MODERNISMO

31 maio, 2010

Violência sem limites!

Violência sem limites!

Israel continua demonstrando que a força e a irracionalidade é sua marca principal.

O mundo civilizado tem que condenar o ataque ao comboio de embarcações que levava suprimentos à faixa de Gaza, e responsabilizar dirigentes israelenses pelas mortes ocorridas em águas internacionais. Isso é inaceitável.

Com o cinismo dos hipócritas, embaixadores e porta-vozes de Israel tem a petulância de dizer que seus soldados foram atacados...sabe com o que? Estilingues, bolinhas de gude e barras de ferro, isso tudo, depois de invadir por ar e mar, as embarcações que levavam suprimentos para a faixa de Gaza. Os soldados responderam à altura: dispararam mataram quase duas dezenas e feriram outro tanto.

Em uma das embarcações estava a cineasta brasileira, que mora nos Estados Unidos, Iara Lee, que foi presa e está sendo deportada de Israel.

Até o momento a totalidade das manifestações das nações civilizadas, condenaram esse ataque grotesco. Esperamos que sejam punidos os responsáveis...!!!
Esperamos....

26 maio, 2010

O ENSINO DA LITERATURA NO ENSINO MÉDIO

I - Justificativa pedagógica
Todo processo científico deve começar com uma indagação. Do mesmo modo, todo processo pedagógico deve começar com uma pergunta: por que ensinar determinada coisa? Assim, quando se vai ensinar literatura, deve-se perguntar: porque ensinar literatura no ensino médio? São os objetivos.
O ensino da literatura deve ser defendido por vários motivos pedagógicos: 1. Pelo lado informativo – deve-se ensinar literatura para que nosso aluno saiba e consiga transmitir conhecimento. Além do conteúdo que o texto literário contém, o estudante recebe outras informações, ou seja, o texto literário é forma de conhecimento; 2. Pelo lado formativo, Nelly Novaes Coelho, afirma: “literatura é reflexo da vida, é a exteriorização verbal artística de uma experiência humana, é evidente que usaremos dela para orientar a educação integral de nossos alunos” (COELHO, Nelly Novaes. O ensino da literatura, 1966, p. 8.). É comumente aceito que a literatura pode levar o aluno à sua formação humanística e assim à educação integral; 3. Com aprimoramento da leitura pelo contínuo contato com a literatura. Em conseqüência, melhorará também a sua escrita. Com isso, adquire o seu próprio estilo, modo peculiar de escrever e de comunicar-se pela linguagem.
Finalmente, como a literatura é cultura, o texto literário irá despertar esse gosto pelo conhecimento, pelo senso crítico. O aluno, assim, poderá saber distinguir um bom texto de um texto de menor valor, é a formação do leitor.
II - Justificativa do ensino por meio de textos
O ensino da literatura deve iniciar-se por textos mais leves, como as crônicas de Fernando Luiz Veríssimo, bastante adequados. Mais tarde, pode-se introduzir o estudo de autores tradicionais da literatura brasileira, como aqueles do Romantismo, que são relativamente fáceis, embora de uma outra época, o que às vezes não agrada muito ao aluno. Ao final do estudo da literatura, é que se pode começar com textos, mais complexos, como os de Guimarães Rosa e os de Clarice Lispector.
Simultaneamente aos textos em prosa, devem-se inserir os textos poéticos acessíveis, como os de Mário Quintana e os Manuel Bandeira. Cecília Meireles, Adélia Prado e outros autores mais complexos, como Carlos Drummond de Andrade, ficariam para mais tarde, ao final do ensino médio.
Pedagogicamente, seria bom que a escolha do texto a ser estudado fosse de escolha do professor em conjunto com o aluno, ou, então, do próprio aluno. Assim, ele se sentiria motivado para a leitura, compreensão e análise do texto.
III - Justificativa histórico-literária
Em sala de aula, o texto literário deve ser colocado em seu contexto: época de sua produção, autor que o produziu, a forma literária em que está escrito e outros relacionamentos que o próprio texto sugerir. Assim, um conto de Mário de Andrade deve vir acompanhado da explicação do professor sobre o contexto histórico: séc. XX, período após a Primeira Grande Guerra; o contexto literário: a Semana de Arte Moderna, de 1922; o papel de Mário de Andrade na organização e realização da Semana, ao lado de outros como Oswald de Andrade.
Do ponto de vista da Teoria da Literatura, o conto, como forma literária, deve ser visto como pertencente à ficção. Uma espécie de texto que é inventada, criada, e que, por isso, não deve corresponder exatamente à realidade.
O texto ficcional, como a própria palavra assinala, é ficção, é invenção, é fingimento. Assim, não tem compromisso com o real, com a verdade. Terry Eagleton ao definir literatura, afirma: “É possível, por exemplo, defini-la como a escrita ‘imaginativa’, no sentido de ficção – escrita esta que não é literalmente verídica” (EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução, s. d., p. 1).
Do mesmo modo, em textos dos anos 40, como os de Jorge Amado, há que se considerar o período do pós-guerra, quando o mundo todo entrou em colapso e surgiram ou se intensificaram vários movimentos filosóficos, como o Socialismo. Tudo isso serviu de base para uma literatura política e de alcance sociológico. Assim foram também os textos dos autores do Romance do Nordeste, como os de Graciliano Ramos e os de Rachel de Queiroz.
Do mesmo modo, devem-se enfocar textos da atualidade literária. Um texto de Clarice Lispector só pode ser compreendido após o Existencialismo de Jean-Paul Sartre, por exemplo. Um texto de Guimarães Rosa, com sua linguagem criativa e renovadora, só pode ser entendido após as várias formas de Experimentalismo na literatura.
Antonio Candido, sobre a relação entre história e literatura, declara que os textos históricos: “se não ajudam a penetrar no miúdo da análise, talvez ajudem a entender alguns traços gerais do poema, como o gosto pelos contrastes e a energia da descrição...” (CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária, 1986, p. 9). O mesmo acontece diante de outras relações, como aquela entre filosofia e literatura, por exemplo.
Quanto ao texto poético, há também que se explicar ao estudante como esse tipo de texto funciona: em versos ou não; com rima ou não; com ritmo próprio; e com as palavras que se transfiguram. Massaud Moisés ensina: “A poesia é a linguagem no seu ser genuíno” (MOISÉS, Massaud. A criação poética, 1977, p. 27). O poema, deve ainda merecer explicação da sua forma: forma fixa; soneto; construção mais livre, como é mais comum no Modernismo.
IV - Justificativa metodológica: o ensino com pesquisa
Uma última finalidade para o ensino da literatura no ensino médio é introduzir o aluno à iniciação da pesquisa. O aluno deve aprender a pesquisar textos literários, observar aqueles que mais chamam a sua atenção, fazer análises de alguns textos e também desenvolver-se em apresentações.
Esta metodologia pedagógica vem sendo amplamente defendida e difundida no ensino brasileiro por Pedro Demo. Com ela, o aluno passaria de mero espectador no processo de ensino e de aprendizagem e assumiria papel de agente no seu próprio aprender. (DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento, 2002, p. 10).
O professor, por seu lado, deve dar a oportunidade ao aluno de mostrar o resultado de suas pesquisas, proporcionando-lhe tempo em sala de aula ou em evento paralelo, como Seminários e outros. Assim, facilita-se ao aluno e abrem-se para ele novas oportunidades.
V - Palavras finais
O magistério é a profissão daqueles que realmente querem ver o aluno desenvolvendo-se com base sólida para futuros estudos, vestibulares, concursos. O verdadeiro professor é aquele que procura fazer que o seu aluno progrida cultural e profissionalmente. Assim, a escola e os professores estarão cumprindo o dever de formar cidadãos conscientes, para a realização pessoal.
REFERÊNCIAS
CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 1986.
COELHO, Nelly Novaes. O ensino da literatura. São Paulo: FTD, 1966.
DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. 5. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2002.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Trad. Brasileira Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
MOISÉS, Massaud. A criação poética. 16 ed. São Paulo: Melhoramentos; Universidade de São Paulo, 1977.

18 maio, 2010

OLAVO BILAC E A POESIA INFANTIL E DIDÁTICA

OLAVO BILAC
Olavo Bilac (Rio de janeiro, 1865-1918) foi um eterno inconstante. Começou Medicina, no Rio, e depois Direito, em São Paulo, sem ter concluído nenhum desses cursos. Literariamente. em 1884, teve seu primeiro soneto, denominado Nero publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Em 1887, iniciou a carreira de jornalista literário. Em 1888, publicou seu primeiro livro, Poesias. Depois publicaria crônicas, conferências literárias, discursos, livros infantis e didáticos.
Esteve sempre engajado em movimentos políticos do país. Foi republicano e nacionalista, tanto que escreveu a letra do Hino à Bandeira. Mais tarde, ao fazer oposição ao governo de Floriano Peixoto, foi perseguido e teve de se afastar do Rio de Janeiro. Ficou por algum tempo como num exílio político no estado de Minas Gerais. Voltando ao Rio, foi membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, em 1896. Já no século XX, em 1907, foi eleito o primeiro “príncipe dos poetas brasileiros”, em concurso patrocinado pela revista Fon-Fon. De 1915 a 1917, como o nacionalista que sempre foi, participou de várias campanhas cívicas, principalmente aquelas pelo serviço militar obrigatório e pela instrução primária.
Como grande poeta parnasiano, a sua obra póstuma Tarde (1919) é uma das mais representativas da poesia brasileira e marcante de uma época e de um estilo literário. A sua poesia infantil e didática mantém, embora sem grande fornalismo, a mesma qualidade de seus outros poemas.
O poeta faleceu em 1918 e nos deixou grande e importante legado de poemas e de exemplos de civismo e de participação social, como cidadão e como intelectual. Dentre esses, destacam-se os poemas infantis com lições sobre vários assuntos, desde os relacionados ao amor ao país, à natureza, à religião e à confraternização entre as crianças.
Nesta página, como ilustração da sua poesia infantil e didática, apresentam-se cinco poemas:
1. A Pátria
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente
em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...

Quem com seu suor a fecunda e umedece,
vê pago o sue esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
2.

O Universo
A Lua:
Sou um pequeno mundo;
Movo-me, rolo e danço
Por este céu profundo;
Por sorte Deus me deu
Mover-me sem descanso,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

A Terra:
Eu sou esse outro mundo;
A lua me acompanha,
Por este céu profundo...
mas é destino meu Rolar,
assim tamanha,
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Sol:
Eu sou esse outro mundo,
Eu sou o sol ardente!
Dou luz ao céu profundo...
Porém sou um pigmeu,
Que rolo eternamente
Em torno de outro mundo,
Que inda é maior do que eu.

O Homem:
Porque, no céu profundo,
Não há-de parar mais
O vosso movimento?
Astros! qual é o mundo,
Em torno ao qual rodais
Por esse firmamento?

Todos os Astros:
Não chega o teu estudo
Ao centro d’isso tudo,
Que escapa aos olhos teus!
O centro d’isso tudo,
Homem vaidoso, é Deus!


3. O Pássaro Cativo
Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar ?

É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender ;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste !
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti !
Não quero a tua esplêndida gaiola !
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol !
Com que direito à escravidão me obrigas ?
Quero saudar as pompas do arrebol !
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas !
Por que me prendes ? Solta-me covarde !
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar ! voar ! ... “

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão ...


4. A Boneca
Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira : “É minha!”
— “É minha!” a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxavam por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando a bola e a peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca ...
5.

Justiça
Chega à casa, chorando, o Oscar. Abraça
Em prantos a Mamãe.
“Que foi, meu filho?”
—“Sucedeu-me, Mamãe, uma desgraça!
Outros, no meu colégio, com mais brilho,
Tiveram prêmios, livros e medalhas...
Só eu não tive nada!”
—“Mas porque não trabalhas?
porque é que, a uma existência dedicada
Ao trabalho e ao estudo,
Preferes os passeios ociosos?
Os outros, filho, mais estudiosos,
Pelas suas lições desprezam tudo...
Pois querias então que, vadiando,
Os outros humilhasses,
E que, os melhores prêmios conquistando,
Mais que os outros brilhasses?
Para outra vez, ao teu prazer prefere
O estudo! e o prêmio alcançarás sem custo:
E aprende: mesmo quando isso te fere,
É preciso ser justo!”.


Nos cinco poemas apresentados, que fazem parte do livro intitulado Literatura Infantil–1880-1991, Olavo Bilac nos dá algumas lições:
1.no poema A Pátria, lição de civismo, embora num tom de ufanismo, como é uma bastante comum na literatura brasileira. Essa lição deveria ser ensinada às crianças, para que pudessem, mais tarde, quando adultos, praticarem-na em suas atividades como cidadãos;
2.no conjunto de poemas que constituem a série O Universo, a lição é de cosmologia e de sentimento de respeito à grandeza de Deus, o Onipotente, perante o Homem, mísero mortal, o que se apresenta sob a forma de alegoria no diálogo entre o homem e os astros;
3.no poema O Pássaro Cativo, aparece a lição de amor à natureza, uma espécie de Ecologia avant la lettre, com conceitos também como o de prisão versus liberdade;
4.em A Boneca, a lição se refere à procura da socialização das crianças, o aprender a dividir, primeiramente, os brinquedos, para, mais tarde, adultos, saberem exercer a solidariedade;
5.finalmente, no último poema, Justiça, a lição é sobre o senso de justiça, mas também o ensinamento de qualidades, como a dedicação aos estudos, o não cultivo da inveja e da soberba.


13 maio, 2010

O Navio Negreiro

Porão de Navio Negreiro. Gravura de Rugendas, 1835.


I



'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço

Brinca o luar — dourada borboleta;

E as vagas após ele correm... cansam

Como turba de infantes inquieta.



'Stamos em pleno mar... Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro...

O mar em troca acende as ardentias,

— Constelações do líquido tesouro...



'Stamos em pleno mar... Dois infinitos

Ali se estreitam num abraço insano,

Azuis, dourados, plácidos, sublimes...

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...



'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas

Ao quente arfar das virações marinhas,

Veleiro brigue corre à flor dos mares,

Como roçam na vaga as andorinhas...



Donde vem? onde vai? Das naus errantes

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Neste saara os corcéis o pó levantam,

Galopam, voam, mas não deixam traço.



Bem feliz quem ali pode nest'hora

Sentir deste painel a majestade!

Embaixo — o mar em cima — o firmamento...

E no mar e no céu — a imensidade!



Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!

Que música suave ao longe soa!

Meu Deus! como é sublime um canto ardente

Pelas vagas sem fim boiando à toa!



Homens do mar! ó rudes marinheiros,

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

Crianças que a procela acalentara

No berço destes pélagos profundos!



Esperai! esperai! deixai que eu beba

Esta selvagem, livre poesia

Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,

E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................



Por que foges assim, barco ligeiro?

Por que foges do pávido poeta?

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

Que semelha no mar — doudo cometa!



Albatroz! Albatroz! águia do oceano,

Tu que dormes das nuvens entre as gazas,

Sacode as penas, Leviathan do espaço,

Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.





II





Que importa do nauta o berço,

Donde é filho, qual seu lar?

Ama a cadência do verso

Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!

Resvala o brigue à bolina

Como golfinho veloz.

Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena

As vagas que deixa após.



Do Espanhol as cantilenas

Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,

As andaluzas em flor!

Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,

— Terra de amor e traição,

Ou do golfo no regaço

Relembra os versos de Tasso,

Junto às lavas do vulcão!



O Inglês — marinheiro frio,

Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,

Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,

Lembrando, orgulhoso, histórias

De Nelson e de Aboukir.. .

O Francês — predestinado —

Canta os louros do passado

E os loureiros do porvir!



Os marinheiros Helenos,

Que a vaga jônia criou,

Belos piratas morenos

Do mar que Ulisses cortou,

Homens que Fídias talhara,

Vão cantando em noite clara

Versos que Homero gemeu ...

Nautas de todas as plagas,

Vós sabeis achar nas vagas

As melodias do céu! ...





III





Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!

É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...

Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!





IV





Era um sonho dantesco... o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar...



Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!



E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais ...

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos... o chicote estala.

E voam mais e mais...



Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!



No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!..."



E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Qual um sonho dantesco as sombras voam!...

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...





V





Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!



Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa...

Dize-o tu, severa Musa,

Musa libérrima, audaz!...



São os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,

Sem luz, sem ar, sem razão. . .



São mulheres desgraçadas,

Como Agar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,

De longe... bem longe vêm...

Trazendo com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N'alma — lágrimas e fel...

Como Agar sofrendo tanto,

Que nem o leite de pranto

Têm que dar para Ismael.



Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram crianças lindas,

Viveram moças gentis...

Passa um dia a caravana,

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,

... Adeus, palmeiras da fonte!...

... Adeus, amores... adeus!...



Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.

Depois no horizonte imenso

Desertos... desertos só...

E a fome, o cansaço, a sede...

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai p'ra não mais s'erguer!...

Vaga um lugar na cadeia,

Mas o chacal sobre a areia

Acha um corpo que roer.



Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d'amplidão!

Hoje... o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar...

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar...



Ontem plena liberdade,

A vontade por poder...

Hoje... cúm'lo de maldade,

Nem são livres p'ra morrer. .

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente —

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoute... Irrisão!...



Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus,

Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!...

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

Do teu manto este borrão?

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão! ...





VI





Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...



Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...



Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!


Castro Alves

12 maio, 2010

Fundeb

Estados deixaram de repassar R$ 1,2 bilhão para ensino básico em 2009

Matéria publicada em 10/05/2010 às 11h28m

Demétrio Weber - Jornal O Globo - Educação


BRASÍLIA - O Ministério da Educação (MEC) constatou que 21 estados deixaram de aplicar R$ 1,2 bilhão em ensino básico no ano passado. O dinheiro deveria ter sido repassado ao Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica), principal mecanismo de financiamento da rede pública. Mas, numa espécie de sonegação contábil, acabou livre para custear outras atividades.



O MEC já alertou os tribunais de contas dos estados e municípios, os ministérios públicos federal e estadual, os conselhos de acompanhamento e controle social do Fundeb e os respectivos governos estaduais. Convencido de que é preciso aumentar os investimentos em educação, o ministério quer evitar desvios nas verbas legalmente reservadas para o ensino.



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03 maio, 2010

OS SEGREDOS DOS BONS PROFESSORES

Com o título Os Segredos dos Bons Professores, a revista Época recentemente publicou uma ampla matéria, em que apresenta alguns pontos básicos sobre o modo de ensinar, qualidade de professores e outros temas correlatos.
Dando-se o devido desconto da forma bastante prescritiva, ainda naquele esquema skinneriano como são os estudos norte-americanos, pode-se tirar proveito da matéria.
Aqui se reproduz parte dessa matéria:

OS SEGREDOS DOS BONS PROFESSORES

O que todos nós temos a aprender com os mestres dedicados, capazes de transformar nossas crianças em alunos de sucesso

De uma carteira na penúltima fileira da sala de aula, relembro alguns conceitos de matemática que tanto me assustavam anos atrás. A minha volta estão cerca de 30 alunos do ensino médio de uma escola de primeira linha de São Paulo. O professor João (o nome é fictício, e você já vai entender por quê) dá uma boa aula. As fórmulas, as equações, os problemas se sucedem. Minha intenção não é reaprender matemática, e sim entender como atua um bom professor. João foi indicado pela direção da escola como um dos melhores.
Prender a atenção de um bando de adolescentes às 8 horas da manhã, com esse tema, já pode ser considerado um feito. E João conquista a quase unanimidade dos olhos grudados no quadro verde, onde resolve um exercício. Só dois grupos pequenos travam conversas paralelas (sobre a própria matéria) – e uma menina dá uma cochilada, a três carteiras de mim. Estou ali, tentando perceber os segredos de uma boa aula, quando escuto um diálogo cochichado:
– Não consegui fazer a maioria dos exercícios, acho que vou passar o resto da semana no plantão de dúvidas.
– Você já teve aula com o professor Fernando?
– Ainda não.
– Ele é demais, o melhor professor que eu já tive.
– Ele é legal?
– Não é isso. É que ele explica tudo de um jeito que a gente consegue entender.
A diferença entre esses dois professores – um bom, o outro ótimo – é o fator de maior impacto na educação. Não é que não seja importante ter computadores, visitar pontos históricos ou culturais, adotar bons livros e apostilas ou manter poucos alunos nas salas de aula. É. Mas, como revela um conjunto de estudos recentes, nada tem tanto efeito sobre o aprendizado quanto a qualidade do professor.
Fatores genéticos podem ser responsáveis por diferenças notáveis no desempenho de uma criança na escola. Mas eles só se manifestam se o professor for bom, diz um estudo da Universidade da Flórida, publicado na edição deste mês da revista Science. (O estudo analisou os níveis de leitura de gêmeos que estudavam em classes diferentes. Os que tinham professores piores – medidos de acordo com o resultado geral da sala – não atingiam o nível dos irmãos, com carga genética idêntica.) Esse resultado põe em xeque o mito de que bons alunos se fazem sozinhos.
Outro mito – a existência de alunos para quem o conteúdo é impenetrável – cai por terra diante das experiências de instituições de ensino nos Estados Unidos expostas em dois livros recém-lançados: (ETeaching as leadership: the highly effective teacher’s guide to closing the achievement gap nsinar como um líder: o guia do professor supereficiente para diminuir o déficit de aprendizado), de Steven Farr, e Teach like a champion: 49 techniques that put students on the path to college (Ensine como um campeão: 49 técnicas que colocam os estudantes no rumo da universidade), de Doug Lemov.
(...)
A discussão sobre a qualidade dos professores já está instalada no Brasil. É o cerne de uma batalha entre os sindicatos de professores, que exigem melhores salários e condições de trabalho, e algumas secretarias estaduais, que tentam implementar um sistema de meritocracia, similar ao vigente naqueles países que mais se destacam nas avaliações internacionais de ensino, como Finlândia e Coreia do Sul. Tal sistema já apresenta bons resultados. São Paulo adotou, em 2008, um programa de bonificação para escolas, diretores e professores cujos alunos melhoram o desempenho em provas. Em apenas um ano, o número de alunos da 4ª série que não conseguiam fazer contas básicas de soma e subtração caiu de 38% para 31%.
“Medir o resultado e premiar os melhores é o caminho certo para tornar a carreira de professor mais atraente”, diz Fernando Veloso, economista e especialista em educação. Mas o sistema é ainda incompleto. “Nenhuma das avaliações considera a ação do professor em sala de aula”, diz Paula Louzano, especialista em educação e consultora da Fundação Lemann, organização dedicada à melhora do nível do ensino.
Avaliar o desempenho individual dos professores permitiria não apenas premiá-los de forma mais justa e eficiente, mas também fazer algo ainda mais importante: entender como eles trabalham – e estender sua experiência aos demais. Porque, se é verdade que todo aluno pode aprender, é lógico acreditar que todo professor tem condições de tornar-se ótimo.
Premiar os bons professores e punir os ruins é essencial. Mas fazer apenas isso não basta para chegar a um ensino de qualidade. É aí que entram em cena os dois livros recém-lançados nos Estados Unidos. O primeiro, Teaching as leadership, foi escrito por Steven Farr, o responsável pela difusão de conhecimento da organização Teach for America, que dá aulas em escolas públicas para crianças de comunidades carentes. Em duas décadas de atuação, a Teach for America formou 25 mil professores, que deram aulas a 3 milhões de alunos. Mais do que apenas ensinar, a Teach for America vem colecionando dados sobre os professores mais eficientes. Suas técnicas, seus métodos, sua formação, como se preparam para o trabalho. Dessa análise surgiram o que Farr chama de seis pilares do ensino:
1) traçar metas ambiciosas com a turma, como “este ano vamos avançar dois níveis em um” ou “todos os alunos desta sala vão tirar mais que 9 no exame nacional” (não metas vagas, como “vamos aprender o máximo”);
2) envolver alunos e famílias, a ponto de traçar com os pais planos de incentivo individualizados para as crianças;
3) planejar com cuidado as aulas;
4) dar aulas com eficiência, aproveitando cada minuto e cada oportunidade;
5) aumentar a eficiência sempre;
6) trabalhar incansavelmente, porque cada um dos itens anteriores dá muito, muito trabalho.
Na mesma linha, o educador Doug Lemov lançou no início deste mês o livro Teach like a champion. Lemov dirige a Uncommon Schools (Escolas Incomuns), uma associação de 16 escolas que ensinam crianças principalmente de famílias carentes. “Uma de nossas missões é diminuir a distância na taxa de aprendizado entre ricos e pobres”, diz Lemov. Eles têm conseguido. Em 2009, 98% dos alunos da Uncommon tiraram notas acima da média estadual de Nova York em matemática. Na avaliação de inglês, foram 80%.

(GUIMARÃES, Camila. Revista Época, ed. 623. 26.abril.2010, 110-118)