26 setembro, 2009

Falando em poesia...

A poesia como ponto de partida.


Por Lau Siqueira


Nos últimos anos tenho acompanhado razoavelmente o debate acerca da importância da poesia, enquanto gênero literário. Em 2005, recebi uma provocação do Festival Recifense de Literatura. Fui “intimado” pelo poeta Pedro Américo, para falar sobre poesia e mercado. Na época, um período bastante atribulado da minha vida profissional, somente pude dar atenção ao assunto uns cinco dias antes da palestra. Fiquei um tanto atônito porque não existiam referências, praticamente. Encontrei apenas um texto de Geir Campos, de décadas e décadas passadas. Pois não é que em “Carta aos Livreiros”, o poeta relatava exatamente o mesmo drama vivido pelos poetas do século XXI, em relação mercado editorial? Acabei escrevendo um texto para orientar a minha palestra, que acabei publicando na revista Discutindo Literatura e em alguns sites.



Existe aí uma questão que tem me instigado bastante. Apesar de ser um gênero considerado não comercial, os fatos nos mostram que a poesia é um dos gêneros mais lidos. Do ponto de vista do mercado editorial, os poetas desafiam os best Sellers através do tempo. Por exemplo, ninguém lembra quem eram os Best Sellers da época em que Baudelaire circulava pelas ruas de Paris. No entanto, o poeta francês continua vendendo nas livrarias do mundo inteiro. A coleção “Melhores Poemas”, da Global Editora, apresenta índices invejáveis de vendas. Somente o poeta Mário Quintana vendeu bem mais de 100 mil exemplares. Na margem do mercado, os cordelistas da Paraíba, num dos últimos festejos juninos da capital, chegaram a vender 800 exemplares em único final de semana.



A recente pesquisa, já citada por mim no blog Pele Sem Pele algumas vezes, “Retratos da leitura no Brasil”, editada pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, traz dados atualíssimos (de 2007) e impressionantes. A pesquisa foi coordenada por Galeno Amorim, ex-secretário de cultura de Ribeirão Preto-SP e editada também sob sua orientação, com textos de dez especialistas. Entre eles, nomes de conhecidos como Moacir Sclyar. Esta pesquisa aponta a poesia entre os cinco gêneros preferidos dos leitores. Considerando-se entre esses gêneros o romance, os livros didáticos, os livros religiosos e a literatura infantil. Também segundo a pesquisa, seis poetas aparecem entre os 25 autores brasileiros mais lidos no país. Vinícius de Morais é o quinto autor na preferência dos brasileiros, somente para se ter uma idéia de uma lista que traz nomes como Monteiro Lobato (o primeiro de todos), Machado de Assis, Ariano Suassuna, Paulo Coelho, Bispo Edir Macedo, Clarice Lispector, etc. Não contabilizo aí o paraibano Ariano Suassuna como poeta, apesar de escrever poemas e ter na sua obra, segundo ele próprio, uma forte vertente poética.



Em recente entrevista ao programa Letra Lúdica, da TV UFPB, falei sobre o livro Retratos da Pesquisa. No entanto, notei que o editor do programa o poeta paraibano José Antônio Assunção, forçava a barra para que eu falasse mais e mais dos números impactantes da poesia na pesquisa. Então, desenvolvemos muito mais uma boa prosa sobre o tema que sobre os desvendamentos da pesquisa enquanto diagnóstico da leitura no país. Observamos, por exemplo, que o jovem é o grande leitor brasileiro. De um modo geral, observa-se também que há uma empatia da juventude para com a poesia. Basta ver o imenso sucesso editorial do Livro da Tribo entre os jovens brasileiros, publicado anualmente pela Editora da Tribo(SP). Poetas como Paulo Leminski, Alice Ruiz e até mesmo Augusto dos Anjos, aparecem nitidamente na preferência da juventude.



Onde quero chegar?
Se algo podemos comemorar nos últimos anos é exatamente a multiplicação de certa “militância” favorável às políticas de leitura. Militância esta que tem sido encontrada tanto no setor público, quanto em iniciativas particulares. Podemos citar entre estas, a de um catador de papel em São Paulo que montou uma biblioteca com mais de 16 mil títulos, num prédio abandonado. Detalhe: os livros foram todos apanhados em lixos residenciais. O projeto Dulcinéia Catadora, também em São Paulo, trabalha oficinas de artes plásticas, leitura e edição, a partir da poesia, principalmente. São inúmeros os exemplos brasileiros que nos levam a acreditar que a poesia é um dos principais vetores para uma política nacional de incentivo à leitura. Uma ação transformadora que não deveria se limitar ao repasse de verbas, mas fundamentalmente, às possibilidades de articulação intersetorial e transversal, principalmente das áreas de educação e cultura.



Isso significa, logicamente, uma ousada transgressão ao que existe hoje em termos de política educacional. Roland Barthes já dizia que a Literatura contém muitos saberes. No entanto, segundo Afrânio Coutinho no Livro Notas de Teoria Literária, “o ensino da Literatura deve emancipar-se da história e da filologia, campos verdadeiramente distintos (...)”. Ele diz também que, “a Literatura vem sendo ensinada por professores, na maioria de português, de mentalidade predominantemente filológica, a Literatura é tornada um subsídio da língua, confundindo-se análise gramatical com análise literária, análise sintática com análise estilística.” O que estamos propondo é uma inversão nessa lógica para que a Literatura desfrute de um espaço próprio, trabalhando muito mais intensamente o que realmente nos interessa: o prazer da leitura. O caráter estruturante das políticas de leitura, seguramente, elevará os níveis de ensino. Afinal, um bom leitor dificilmente será um mau aluno.



Logicamente que temos aqui uma série de vontades íntimas. A maior delas é nos transformarmos em um continente de leitores. Não tenho a menor dúvida que a poesia cumpre, nesse aspecto, um papel introdutório de toda uma política pública para o Livro e a leitura. A boa poesia seduz o leitor para qualquer gênero literário. É muito mais fácil, por exemplo, um leitor de poesia entender obras como Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, ou mesmo Ponto de Mutação, do Fritjot Capra. Pelo imenso grau de popularização da poesia, não estaríamos inventando a roda, mas fazendo-a andar mais rápido, como se diz por aí. Aliás, não podemos esquecer que a roda já está andando. Por exemplo, devemos reconhecer que há uma geração de professores nos cursos de Letras do país inteiro, trabalhando a literatura contemporânea em sala de aula (não apenas poesia). Ainda que predomine o conservadorismo acadêmico. Recentemente ouvi de um amigo que um professor iria fazer sua tese de doutorado sobre a sua poesia e foi desaconselhado por ser o meu amigo, um poeta desconhecido. Portanto, há muito que se avançar ainda em termos de “mudança de hábito”. Mas, as cartas estão na mesa e, não se enganem os incautos, o jogo já começou.



Visite os blogs do autor!




POESIA SIM - http://www.poesia-sim-poesia.blogspot.com/



PELE SEM PELE - http://www.lau-siqueira.blogspot.com/

5 comentários:

lau siqueira disse...

Obrigado, querida! Bom poder manter esse diálogo também com vc e com os frequentadores do teu blog. Um beijo. Lau

Taninha disse...

Lau,

nós - leitores e amantes da poesia - que agradecemos.

Todos sabem que sou professora da rede municipal do RJ, onde acumulo duas matrículas. E, minha alegria entusiasmo e expectativa no que diz respeito a prática educativa em sala de aula, só tem crescido.


Temos na rede vários projetos; um deles voltado só para poesias com a finalidade de melhorar o rendimento do aluno como um todo.

Pode haver passo maior e melhor?
É, além de fazer a roda girar, colocar tração! [rsss...]

Seu texto leva à reflexão e esclarece a importância da poesia para as sociedades do mundo inteiro. Um livro, pode até ser esquecido. Um poema - quando toca fundo - jamais. Ele passa a fazer parte da história daquele indivíduo.

A linguagem literária, mais especificamente a poética, desencadeia uma série de sentimentos e sensações que, processadas - misturadas a nossa bagagem - faz a mente buscar conexões remetendo ao presente, passado e futuro.

Aquela visão do poeta viver no "mundo da lua", pode estabelecer a falsa realidade da questão: alienação. Pois é exatamente o contrário! E, é a fruição, excelente combustível à inteligência!

Que as “militâncias” favoráveis às políticas de leitura prossigam.

Que a guerra contra a falta de sensibilidade [falta esta que gera todo tipo de violência] seja vencida.

Que a poesia, que muito remete ao "EU", não perca a visão do "OUTRO", sob a pena de gerar poetas tiranos, ditadores manipuladores e cruéis.

[já ouvi falar de alguns...]


Beijo.
Parabéns pelo texto.

Taninha

KA (ODEIO RODEIO) disse...

Lau Siqueira,

Muito importante essa abordagem a respeito da poesia. Ela esclarece e ajuda a entender uma série de questões e dúvidas acerca do assunto.
A poesia, normalmente não é apresentada nas salas de aula. Hoje, existem aulas de leitura (aqui no Estado de São Paulo), onde o aluno tem um tempo destinado a escolher obras e ler. Mas a poesia, de uma forma geral, não está no programa de forma distinta, é apenas abordada no meio de outros assuntos, sendo raros os casos em que é levada a sério.

A citação, no seu artigo, de Afrânio Coutinho, no Livro Notas de Teoria Literária, “o ensino da Literatura deve emancipar-se da história e da filologia, campos verdadeiramente distintos (...)”; é a pura verdade, pois assim sendo, milhares de estudantes terão novas oportunidade de conhecer mais sobre literatura e poesia.

Recentemente assisti um video de Fabricio Carpinejar, falando sobre poesia. Achei muito interessante, por isso deixo aqui o link:

http://tv.estadao.com.br/videos,A-POESIA-E-IDEAL-PARA-A-TURBULENCIA-DIGITAL-DIZ-CARPINEJAR,70637,253,0.htm

Lau, parabéns pelo artigo.
Taninha, parabéns por postar esse artigo importante.

Abraços

Marcelo Novaes disse...

Lau,



A boa poesia, sem dúvida, enfeixa saberes. E propicia muito mais uma análise semântico-polissêmica do que, meramente, um estudo sintático-gramatical (ao que também se presta, frise-se; e bem). Assim sendo, leitores de poesia têm a ganhar na compreensão do que veem e leem. Leriam, certamente, tanto melhor o Raduan Nassar quanto o Capra, (que mostra as interfaces da física contemporânea com antiquíssimas Tradições do Oriente). Leriam melhor Guimarães Rosa também, que é todo ele poesia-em-prosa.




Manoel de Barros é o poeta que hoje em dia mais vende no Brasil.E é grande poeta. Vinícius, por você citado, só é "poetinha" porque chamava todo mundo no diminutivo ("Elisinha", quando falava de Elis Regina, e por aí vai). É grande poeta lírico (com bons laivos de leitura crítico-social, nos moldes de Cecília Meireles). No sul do Brasil, Érico Veríssimo soube aglutinar na "Toca da Liberdade" (o porão de sua casa...), saraus e encontros informais (assim como "tertúlias literárias") entre autores de todos os gêneros. Por isso, Lya Luft, Mário Quintana, Moacyr Scliar e todos os que puderam desfrutar desse "élan cultural" tiveram a chance de se conhecer. Até hoje, há menos ostracismo entre autores locais no Rio Grande do Sul & "adjacências" (Grandes cidades de Santa Catarina e Paraná) do que em outros Estados da Federação, por gestos e hábitos assim. No Rio Grande do Sul já se sabia de Cristovam Tezza, muito antes do prêmio Jabuti. Assim como sempre se soube de Letícia Wierzchowski, muito antes da adaptação televisiva "A Casa das Sete Mulheres". Citei, propositadamente autores poetas e não-poetas, mas todos sabem ler poesia. E Érico Veríssimo tem o mérito, inclusive, de aglutinar e "visibilizar" ("tornar visíveis") além de viabilizar ("tornar viáveis") poetas de seu tempo. Mário Quintana é o nome mais conhecido deles. Mesmo os que não se bicam muito, sabem da existência um do outro. Cristovam Tezza sabe da existência de Ronald Augusto, que sabe muito bem quem é Fabrício Carpinejar e seu pai, Carlos Nejar, e todos conhecem o catarinense Fernando José Karl. E por aí vai. Devemos, ao menos parte disso, a uma cultura acostumada aos saraus e às "tertúlias literárias" do Sul. Isso muito antes da existência da Net. Fabrício Carpinejar hoje tem seu blog extremamente conhecido e visitado, e Fernando José Karl tem o seu esmerado (e "cult") Nautikkon, que desenvolve toda uma "mitologia pessoal literária", além do fruto de um trabalho de vinte anos de oficinas literárias em Joinville ("Oficina da Palavra"). Durante anos foi redator e editor-assistente do excelente jornal literário "Nicolau", do Paraná (eis aí a tão decantada, por mim, "interação dos autores do sul", em sua própria região).


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Marcelo Novaes disse...

Aqui, em São Paulo, temos os lançamentos e saraus literários às quintas-feiras, na Casa das Rosas (herança deixada por Haroldo de Campos, que cedeu sua biblioteca pessoa como "gérmen" de um projeto cultural dessa envergadura). Através disso, autores contemporâneos como Mariana Ianelli, Valéria Tarelho, Marcelo Ariel (esse auto-didata que foi pedreiro e faxineiro antes de ser editor-escritor-dramaturgo, e hoje dá palestras na USP, além de ser apresentado em programas como o Entre-Linhas da TV Cultura), Márcio-André (prof. de pós-graduação em literatura, da UFRJ, e editor da Revista Eletrônica e Editora Confraria dos Ventos), Beatriz Bajo (prof de Literatura de Londrina) e vários outros puderam se conhecer (Flávio Viegas Amoreira, escritor e semiólogo de Santos, e vários autores da Baixada Santista; o próprio Ariel é de Cubatão). Lançamentos da Editora Dulcinéia Catadora também são feitos nesse espaço (eu estive presente em alguns, como o do Marcelo Ariel, e o do Felipe Steffani, além de conhecer bons poetas-tradutores na ocasião, como André Setti,para ficar num só exemplo). Então, algo está sendo feito, também por aqui, no sentido de um "primeiro contato inter-poetas".



Mas isso demora a chegar à Academia, apesar de uma ou outra palestra pontual de Marcelo Ariel (e de sua recentíssima Editora, Letra Selvagem, ter ganho o prêmio da APCA de melhor edição de poesia, com um trabalho conjunto da consagrada Olga Savary com Marcelo Frazão, "Anima Animalis").




Essa recusa de aceitação do trabalho acadêmico por desconhecimento do autor-poeta-objeto-de-pesquisa (por parte do circuito acadêmico) ainda perdurará um tanto... Toda Instituição é protocolar por definição e suposta-necessidade e, portanto, lenta na assimilação dos saberes ainda-não-canônicos (ou dos que nunca pretenderam ou pretenderão sê-lo). Porém, bem antes se dar esse quase-milagre, pode-se, sim, considerar a poesia como matéria-prima privilegiada do estudo da língua e da expressão escrita. Desde o ensino de primeiro grau e médio. Não mais a poesia como a "cereja do bolo" (como "requinte perfeitamente dispensável"), mas "a massa mesma com a qual se faz bolos saborosos". Como saboroso pode ser o Saber, para os que gostam de etimologias.





No mais, fico muito feliz quando me deparo com alguma "leitora teen" em meus blogs (Bezerra Guimarães é a mais recente delas, com quinze anos) fazendo comentários pertinentes, tanto em poesia quanto em prosa poética, sem medo de se aventurar na exploração interpretativa de minha linguagem, que não é "propriamente fácil" (tem marmanjos e marmanjas de quarenta anos que não ousam...). Há outras figuras nessa faixa, dos quinze aos dezenove, e elas gostam de Fernando Pessoa, Clarice Lispector, e entendem Hilda Hilst quando são apresentadas a ela. Ou mesmo o "difícil" Marcus Accioly. Enfim, digerem (e apreciam) autores de inequívoca qualidade.


Então, há um horizonte amplo a ser explorado, Lau. E sua postagem é um estímulo reflexivo nesse sentido. Quem sabe cheguemos (logo) a um tempo onde se leia "Grande Sertão Veredas", ou "Vidas Secas", quando se lia, compulsoriamete (e sem grande proveito, assim me parece...) "Iracema" e "A Moreninha". Ou se possa ler o "Cancioneiro da Inconfidência", fazendo uma interface entre História e Literatura pelo olhar crítico-afetivo de Cecília. Sim, uma vez que não se poderá alegar serem Guimarães, Graciliano e Cecília "ilustres desconhecidos". Que não esteja muito longe de nós o que me parece um passo bastante razoável e factível.






Abraços,








Marcelo.