11 fevereiro, 2009

Senhor das letras

Dedico este texto aos , também mestres, Hercília Fernandes e Jayme Bueno e ao amigo Sidney por terem me incentivado a continuar com os meus blogs.

É o primeiro texto que posto desde o falecimento de meu pai. Fato que me deixou profundamente abatida e sem ânimo para fazer este trabalho - que apesar de amador - despende tempo e dedicação.
Não me considero nem poetisa nem escritora, mas tudo que escrevi até hoje foi com amor e sinceridade. Meus amigos me mostraram que é isso que importa. Então, estou recomeçando pelo blog No Rastro da Educação que, na verdade, tem mais textos escritos por amigos colaboradores e, textos que leio e acho que serão do interesse dos da área [e simpatizantes, rs].

Não tenho muitos amigos, mas os que tenho me são caros e raros. Obrigada a estes citados e aos demais que , de alguma forma, tentaram me consolar dessa dor terrível que é a da perda de um ente tão amado e querido.

Taninha
Senhor das letras
Evanildo Bechara tinha 11 anos quando cometeu seu primeiro erro de tradução. Viajando de Pernambuco para o Rio de Janeiro, de navio, o garoto que se tornaria um dos gramáticos mais famosos do Brasil fez uma parada em Salvador.
Entrou num restaurante e pediu um vatapá. O garçom perguntou como ele queria o prato. Bechara respondeu: "bem quentinho", como era costume fazer-se em sua terra para determinar a temperatura da comida. Acabou tendo de engolir um bocado com muita pimenta. Foi então que as lágrimas brotaram de seus olhos.
"Aprendi na pele que "bem quentinho", na Bahia, era "bem apimentado". Por conta desse episódio e de outros que vivi quando minha família me mandou para o Rio para estudar, passei a me interessar pelas diferenças que a língua portuguesa tem em diferentes lugares. Aí virei professor, viajei, dei aulas no exterior, lancei meus livros e cheguei aqui", resume.
Bechara, 80, hoje ocupa a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 2000, e tem uma dura tarefa pela frente. A partir de 1º de janeiro, quando as regras do Novo Acordo Ortográfico entrarem em vigor em oito nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, será ele a autoridade máxima no Brasil para decidir as possíveis querelas e pendências com relação ao modo como os brasileiros terão de passar a escrever.
"Não me sinto confortável nessa posição. É muito incômodo. E é claro que a interpretação que fiz está sujeita a erros. Só não erra quem não faz", disse em entrevista à Folha, na sede da instituição, no Rio.As regras têm como objetivo unificar as diferentes grafias que o português tem nos países em que é língua oficial.
Elas começarão a ser aplicadas em janeiro de 2009, mas as atuais continuarão sendo aceitas até dezembro de 2012.
No caso brasileiro, as principais mudanças serão a eliminação de alguns acentos e do trema e a adoção de outras regras para a hifenização (leia ao lado). "Tem gente fazendo tempestade em copo d’água. Já passamos por cinco reformas e nunca houve um grande trauma. E mais, o Brasil sempre foi quem mais cedeu até hoje. Nesta reforma, está acontecendo o contrário, os outros países, Portugal principalmente, é que estão cedendo mais", diz.
De todas as mudanças, as que regulam o uso do hífen têm causado mais polêmica. Bechara explica que a idéia, de um modo geral, foi a de "suavizar" sua utilização. "Como um homem comum, que não é um gramático nem tem formação técnica sobre a língua, pode saber, por exemplo, que uma expressão é um substantivo que em outros casos pode ter outra função? Ao tirarmos os hífens, estamos facilitando a sua vida."
Contexto
O gramático explica que o espírito das novas regras é deixar que o contexto explique aquilo que a ortografia não alcança.
É o caso, por exemplo, da contestada retirada de acento de "pára", do verbo "parar".Como diferenciá-lo da preposição "para"? "Bem, quando se diz "manifestação para avenida", fica bastante claro que se trata do verbo, porque os outros elementos na frase levam a essa dedução", diz.
O caso dos ditongos que perdem o acento, como "idéia", também causaram estranhamento. "Não é possível termos duas grafias diferentes para o mesmo tipo de formação. Por que "aldeia" não tem e "idéia", sim?" Bechara acha que a retirada do acento não vai confundir, por exemplo, crianças em processo de alfabetização. "O primeiro aprendizado de uma pessoa é sempre imitativo. Depois vem a reflexão. Quando ela for aprender a escrever, já saberá a diferença de pronúncia das duas palavras sem que seja necessário usar um sinal gráfico."
Para Bechara, a reforma ortográfica é necessária para defender a língua portuguesa. Trata-se do único idioma falado por um grupo majoritário -mais de 230 milhões de pessoas- no mundo a ter duas grafias diferentes. "É essencial que o português se apresente internacionalmente com uma única vestimenta gráfica. Para manter o prestígio e para que seja melhor ensinado e compreendido por todos", conclui.



Folha de S. Paulo (SP) 29/12/2008

5 comentários:

Taninha Nascimento. disse...

Com orgulho, digo que fui aluna presencial desse mestre.

Lembro-me das aulas de versificação - que a maioria achava chatérrima - e aos meus ouvidos, soavam como música...

Mirse disse...

Muito boa essa postagem. O acadêmico Evanildo Bechara, tem o respeito de todos, e nos dá uma clarividência maior para o que muitos estão se assustando.

Parabéns pela escolha do texto, Taninha!

Abre com chave de ouro uma nova era.

Beijos

Mirze

Taninha Nascimento. disse...

Obrigada, Mirze!

bjs.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Taninha, obrigado por tudo, principalmente por continuar com os dois Blogs. Parabéns!
O Prof. Evanildo foi e é mestre de todos nós com seus livros, desde a década de 60. A Moderna Gramática Portuguesa - Curso Médio- e Lições de Português pela Análise Sintática foram livros de consulta obrigatória, logo no início de minha carreira no magistério.

Taninha Nascimento. disse...

Ah, prof. Jayme...

Grata fico eu pelos seus comentários, apoio e colaborações.

Forte abraço,
Taninha