15 julho, 2009

Um caso de corrupção na universidade - Urariano Mota




O professor, de quem copio as palavras a seguir, não quer nem pode ser identificado. Adianto apenas que ele é Doutor em importante universidade brasileira.





"Eu fui nomeado para ser relator de uma dissertação de mestrado. Nada de mais, isso faz parte do meu trabalho. Por experiência eu sei que não devo esperar teses que revolucionem o mundo da ciência. Para dizer a verdade, eu não devo esperar a mínima contribuição para qualquer coisa, a mínima que seja. Com franqueza, eu lhe digo que se este fosse o critério, eu próprio não estaria no lugar onde estou. Pois bem.



Quando eu havia corrigido cerca de 2/3 da tese, umas 60 páginas, eu tinha computado cerca de 150 erros de português. Eu não sou exatamente um cultor do português, a minha especialidade é outra. Mas havia erros crassos, clamorosos, gritantes até para um indivíduo como eu. O que o trabalho não sabia de português, melhor ainda não sabia da ciência biológica. Que maravilhosa coerência, não é? Havia antagonismos, buracos, hiatos, saltos... O que faço então? Chamei o aluno à minha presença, contei-lhe o estado deplorável da sua tese.



O aluno, um jovem astuto, muito vivo, me respondeu então, na minha cara, pois a que cara ele haveria de falar, não é?... na minha cara ele me disse que não teria tempo de fazer as correções antes da defesa, e que viria um outro doutor de Brasília para a banca examinadora, etc, etc. Então eu disse a ele: 'Escute, você me fez perder um tempo grande nesta correção. Mas, se a data da defesa já está marcada e seu orientador acha que o seu trabalho está apresentável, eu não vou criar problemas. Agora, tem uma coisa: Retire o meu nome na qualidade de relator, está certo assim?'




Não sei por que cargas d'água o novo cientista achou que a comissão examinadora
poderia criar problemas se ele não recebesse 'o apto a ser julgado' do relator, no caso, eu. Por conta dessa dúvida, ele apareceu lá em minha casa, acompanhado dos seguintes fundamentos teóricos e experiências de laboratório: o seu poderoso e importante pai, com mostras de riqueza nas roupas, nos sapatos, a mencionar de passagem o carro importado, e mais importantes citações científicas, todas de nomes de políticos e de pessoas influentes da sociedade. Claro, como a visita era de amizade, como era uma política de boa vizinhança, eles vieram, a título de apresentação, com um lítro de uísque antigo, cujo preço é o meu salário.... É claro, eu não só dispensei o 'presente' como voltei a explicar tudo de novo: 'O problema é seu e de seu orientador. O que vocês acordarem, para mim estará ótimo. Agora, não coloque o meu nome nessa história. Só isso.'




Bem, o jovem cientista defendeu o indefensável, não fez as modificações sugeridas nem
por mim nem pela banca examinadora, e quando imprimiu os seis exemplares da dissertação colocou o meu nome como relator. Eu fiquei furioso, e só não chamei o cara de santo. Então, fiz uma reclamação por escrito ao coordenador da Pós-graduação e lhe disse que já era a segunda vez que me faziam de palhaço. Por fim, e numa atitude radical, consegui apagar com corretivo o meu nome em quatro dos seis exemplares impressos. O pai do aluno, quando soube dessa minha atitude, que fez? Imagine, o pai do farsante me ameaçou com um processo. Eu era o delinquente! Ainda bem que para a minha felicidade, para que o pai indignado não levasse adiante o processo, não havia prova de que eu fosse o executor de haver borrado o meu próprio nome. E para maior prova de minha boa vontade, ainda havia dois exemplares com o nome legível do relator: o meu.




Agora, vem a melhor parte: contando isso aos colegas professores em uma reunião do Departamento de Biologia, em vez de receber apoio integral pela minha atitude, eu
fui acusado de estar com excesso de 'preciosismo' nas minhas correções. Os professores mais corruptos disseram que eu havia sido imbecil, idiota, metido a Robespierre em não ter aceitado o litro de uísque do cara. Em nome até da presente marcha de valores, eu nada respondi a quem me chamou de Robespierre barato. Minha cabeça poderia ir para a guilhotina.




Para encerrar, eu lhe peço que não mencione o meu nome, pelo amor de Deus. Pelo amor da ciência, eu preciso deste meu emprego para viver".

5 comentários:

Taninha Nascimento disse...

Quando li este texto, achei que - como não são citados nomes - tratava-se de uma historinha.

Entretanto, diante de tudo que nos rodeia a nível de corrupção, não há porque duvidar...


É "um tanto quanto desanimador", mas é este o país em que vivemos. Onde, por um lado, dá um orgulho danado e, por outro, uma vergonha danada...

Nosso Brasil precisa amadurecer!!
Na minha opinião somos - ainda - uma promessa de potência. Para que haja concretização dessa promessa a corrupção - que é a grande chaga aberta - precisa acabar. É necessário a cura!!

Sei que tem remédio!! Não posso pensar diferente, senão tudo perde o sentido...

Qual será o preço a pagar?

Taninha Nascimento disse...

PARA NOSSA TRISTEZA, FOI TUDO VERDADE...

Taninha Nascimento disse...

Aluninho e pai do aluninho, ambos dotados da Inteligência tipo F!!

KA disse...

Taninha,

Esse relato é o exemplo prático do "você sabe com quem ta falando?". Isso é cultural. A elite econômica é incompetente; tenta comprar com o dinheiro aquilo que jamais será ou terá, a dignidade. Através desses expedientes essa minoria procura manter a maioria sob seus pés, liberando migalhas quando a situação aperta.
Precisamos de mais verdadeiros mestres, pois acredito, que somente através da educação formaremos pessoas dignas. Por isso parabéns professores conscientes, mestres, doutores ou alfabetizadores. Enquanto tivermos dignidade e nos indignar com atitudes como a relatada, teremos esperança de um pais melhor.
Afinal, é isso que queremos, não é Taninha?

Abração

Taninha Nascimento disse...

Sem dúvida alguma, KA!

Obrigada pelo comment!

Abraço!

Taninha