03 maio, 2010

OS SEGREDOS DOS BONS PROFESSORES

Com o título Os Segredos dos Bons Professores, a revista Época recentemente publicou uma ampla matéria, em que apresenta alguns pontos básicos sobre o modo de ensinar, qualidade de professores e outros temas correlatos.
Dando-se o devido desconto da forma bastante prescritiva, ainda naquele esquema skinneriano como são os estudos norte-americanos, pode-se tirar proveito da matéria.
Aqui se reproduz parte dessa matéria:

OS SEGREDOS DOS BONS PROFESSORES

O que todos nós temos a aprender com os mestres dedicados, capazes de transformar nossas crianças em alunos de sucesso

De uma carteira na penúltima fileira da sala de aula, relembro alguns conceitos de matemática que tanto me assustavam anos atrás. A minha volta estão cerca de 30 alunos do ensino médio de uma escola de primeira linha de São Paulo. O professor João (o nome é fictício, e você já vai entender por quê) dá uma boa aula. As fórmulas, as equações, os problemas se sucedem. Minha intenção não é reaprender matemática, e sim entender como atua um bom professor. João foi indicado pela direção da escola como um dos melhores.
Prender a atenção de um bando de adolescentes às 8 horas da manhã, com esse tema, já pode ser considerado um feito. E João conquista a quase unanimidade dos olhos grudados no quadro verde, onde resolve um exercício. Só dois grupos pequenos travam conversas paralelas (sobre a própria matéria) – e uma menina dá uma cochilada, a três carteiras de mim. Estou ali, tentando perceber os segredos de uma boa aula, quando escuto um diálogo cochichado:
– Não consegui fazer a maioria dos exercícios, acho que vou passar o resto da semana no plantão de dúvidas.
– Você já teve aula com o professor Fernando?
– Ainda não.
– Ele é demais, o melhor professor que eu já tive.
– Ele é legal?
– Não é isso. É que ele explica tudo de um jeito que a gente consegue entender.
A diferença entre esses dois professores – um bom, o outro ótimo – é o fator de maior impacto na educação. Não é que não seja importante ter computadores, visitar pontos históricos ou culturais, adotar bons livros e apostilas ou manter poucos alunos nas salas de aula. É. Mas, como revela um conjunto de estudos recentes, nada tem tanto efeito sobre o aprendizado quanto a qualidade do professor.
Fatores genéticos podem ser responsáveis por diferenças notáveis no desempenho de uma criança na escola. Mas eles só se manifestam se o professor for bom, diz um estudo da Universidade da Flórida, publicado na edição deste mês da revista Science. (O estudo analisou os níveis de leitura de gêmeos que estudavam em classes diferentes. Os que tinham professores piores – medidos de acordo com o resultado geral da sala – não atingiam o nível dos irmãos, com carga genética idêntica.) Esse resultado põe em xeque o mito de que bons alunos se fazem sozinhos.
Outro mito – a existência de alunos para quem o conteúdo é impenetrável – cai por terra diante das experiências de instituições de ensino nos Estados Unidos expostas em dois livros recém-lançados: (ETeaching as leadership: the highly effective teacher’s guide to closing the achievement gap nsinar como um líder: o guia do professor supereficiente para diminuir o déficit de aprendizado), de Steven Farr, e Teach like a champion: 49 techniques that put students on the path to college (Ensine como um campeão: 49 técnicas que colocam os estudantes no rumo da universidade), de Doug Lemov.
(...)
A discussão sobre a qualidade dos professores já está instalada no Brasil. É o cerne de uma batalha entre os sindicatos de professores, que exigem melhores salários e condições de trabalho, e algumas secretarias estaduais, que tentam implementar um sistema de meritocracia, similar ao vigente naqueles países que mais se destacam nas avaliações internacionais de ensino, como Finlândia e Coreia do Sul. Tal sistema já apresenta bons resultados. São Paulo adotou, em 2008, um programa de bonificação para escolas, diretores e professores cujos alunos melhoram o desempenho em provas. Em apenas um ano, o número de alunos da 4ª série que não conseguiam fazer contas básicas de soma e subtração caiu de 38% para 31%.
“Medir o resultado e premiar os melhores é o caminho certo para tornar a carreira de professor mais atraente”, diz Fernando Veloso, economista e especialista em educação. Mas o sistema é ainda incompleto. “Nenhuma das avaliações considera a ação do professor em sala de aula”, diz Paula Louzano, especialista em educação e consultora da Fundação Lemann, organização dedicada à melhora do nível do ensino.
Avaliar o desempenho individual dos professores permitiria não apenas premiá-los de forma mais justa e eficiente, mas também fazer algo ainda mais importante: entender como eles trabalham – e estender sua experiência aos demais. Porque, se é verdade que todo aluno pode aprender, é lógico acreditar que todo professor tem condições de tornar-se ótimo.
Premiar os bons professores e punir os ruins é essencial. Mas fazer apenas isso não basta para chegar a um ensino de qualidade. É aí que entram em cena os dois livros recém-lançados nos Estados Unidos. O primeiro, Teaching as leadership, foi escrito por Steven Farr, o responsável pela difusão de conhecimento da organização Teach for America, que dá aulas em escolas públicas para crianças de comunidades carentes. Em duas décadas de atuação, a Teach for America formou 25 mil professores, que deram aulas a 3 milhões de alunos. Mais do que apenas ensinar, a Teach for America vem colecionando dados sobre os professores mais eficientes. Suas técnicas, seus métodos, sua formação, como se preparam para o trabalho. Dessa análise surgiram o que Farr chama de seis pilares do ensino:
1) traçar metas ambiciosas com a turma, como “este ano vamos avançar dois níveis em um” ou “todos os alunos desta sala vão tirar mais que 9 no exame nacional” (não metas vagas, como “vamos aprender o máximo”);
2) envolver alunos e famílias, a ponto de traçar com os pais planos de incentivo individualizados para as crianças;
3) planejar com cuidado as aulas;
4) dar aulas com eficiência, aproveitando cada minuto e cada oportunidade;
5) aumentar a eficiência sempre;
6) trabalhar incansavelmente, porque cada um dos itens anteriores dá muito, muito trabalho.
Na mesma linha, o educador Doug Lemov lançou no início deste mês o livro Teach like a champion. Lemov dirige a Uncommon Schools (Escolas Incomuns), uma associação de 16 escolas que ensinam crianças principalmente de famílias carentes. “Uma de nossas missões é diminuir a distância na taxa de aprendizado entre ricos e pobres”, diz Lemov. Eles têm conseguido. Em 2009, 98% dos alunos da Uncommon tiraram notas acima da média estadual de Nova York em matemática. Na avaliação de inglês, foram 80%.

(GUIMARÃES, Camila. Revista Época, ed. 623. 26.abril.2010, 110-118)

7 comentários:

KA disse...

Bem, fico pensando: porque a educação não tem prioridade? Quando vemos paises que adotam o período integral de ensino, treinam professores, dão condições de trabalho, os resultados aparecem. Mas aqui não acontece isso. A proposta do senador e ex-ministro da Educação, Cristovan Buarque, de que a educação deveria ser prioridade, sendo adotada uma linha única no pais (assim como são as agências do Banco do Brasil), respeitando-se as particularidades de cada região, não seria válida?

Na matéria, é citada a experiência feita no Estado de São Paulo. Válida? Não sei. O que ouvimos de professores estaduais é o pior possível, inclusive, pelo fato deles terem minguados reajustes salariais. Os professores aqui não estão nada satisfeitos, não. E isso reflete -lógico- no ensino. O que vemos? São alunos terminando o nível básico (8ª série) sem saber escrever direito. As escolas estaduais estando cada vez mais dominadas pelos maus alunos, ou pelos desinteressados; sendo que aqueles que tem uma condição um pouco melhor, procuram uma escola particular.
É comum ouvirmos que se o aluno pretende passar no vestibular de uma universidade respeitável ele deve estudar numa escola particular.
Portanto, o fato citado na matéria de se resolver operações básicas, como indicativo da melhora da educação, na minha opnião, não reflete muito, pois professores estaduais classificam como péssimo o ensino público, aqui no Estado de São Paulo, economicamente, o mais forte do pais. Imaginem nos outros.

Taninha Nascimento disse...

Prof. Jayme,

parabéns pela escolha do tema.

KA, parabéns pelo comentário.

Grande abraço.

Mirse Maria disse...

Taninha!

Li a revista época e também me interessei pelo tema.

É uma pena que em todos os países a meta principal não seja a educação.

É através de bons mestres, como eu tive o prazer de ter, que nos tornamos cidadãos e cidadãs capazes de apreender e perceber a vida de um modo geral.

Bela postagem!

Beijos

Mirze

Jayme Ferreira Bueno disse...

Obrigado, Taninha.
Ainda bem que a matéria foi bem aceita pelo seguidores fiéis do Blog.
Vamos continuar sempre à procura de temas que sejam de interesse da Educação.
Parece que tudo melhora, até a economia, por que não deveria melhorar também a educação. Nas campanhas eleitoreiras, que nem é tempo aonda, mas que já começaram abertamente, nada ouvi ainda sobre a Educação.
Até, um abraço,
Jayme

Jayme Ferreira Bueno disse...

Cara Mirse,
Eu também, embora em tempos bem passados e mesmo no interior do Paraná tive a sorte de ter bons professores. Eles me incentivaram e me ajudaram de todos os meios para que eu pudesse continuar meus estudos. Em nome deles, foi que me dediquei intensamente à educação, Tornei-me professor e inclusive me doutorei em Letras, sempre tendo na memória mestres que me ensinaram e me incentivaram.
Para mim, a educação representa tudo para um país progredir e seu povo não ser tão desinformado, como, infelizmente, é o brasileiro.
Um abraço e obrigado pelo comentário.
Jayme

J. B. Ziegler disse...

Quando se vê os sindicatos do setor fazendo imbecilidades politicas, como ocorre no RS (http://republicadevira-latas.blogspot.com/2010/05/politicagens-sindicatos.html) CPERS X Yeda é desmotivante. Visitando inumeras escolas pelo interior do estado pude observar o descaso público e os professores desanimados. Não há nem condição de criar revolucionários, pois os alunos sequer sabem o que fazem no mundo.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Caro J. B. Ziegler
O que se passa no Rio grande do Sul é o que de modo geral acontece em todo o Brasil. Infelizmente, a politicagem é um dos vícios danosos do brasileiro.
Esse estado sempre foi muito forte em Educação, do nível fundamental ao superior.
Tive a oportunidade de conhecer bem o estado e principalmente as Universidades gaúchas, a serviço do MEC/INEP de 1998 a 2003. Posso dizer que conheço a qualidade do ensino superior gaúcho, das Instituições públicas às particulares, fundações, as regionais, as confessionáveis. Todas elas sempre com algum diferencial.
Obrigado pelo comentário e vamos fazer votos para que a nossa Educação deixe de lado a politicagem e possa crescer independente.
Um abraço,
Jayme