04 junho, 2010

SOCIEDADE É INFORMAL. POR QUE USAR MESÓCLISES?

Sírio Possenti, professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp é colunista do “TERRA MAGAZINE” (http://terramagazine.terra.com.br/), do Bob Fernandes. Dia 27 de maio pp., escreveu interessante texto, que achei mais interessante ainda postar neste blog, pois parece-me bem pertinente. E sem mais detalhes, segue o texto na íntegra:

SOCIEDADE É INFORMAL.

POR QUE USAR MESÓCLISES?

Sírio Possenti
Este texto não tem nada, mas também tem tudo a ver com sugestão de traduzir "Call me" por "Me chame". Nada, porque não trata de tradução; tudo, porque comenta a incorporação de construções menos formais à linguagem literária. No caso do romance, lugar da encenação do plurilinguismo (coisa que todos poderiam ter visto, e que Bakhtin tematizou explicitamente), a coisa é mais tranquila. Mas há casos também na poesia.
Drummond de Andrade desafiou o cânone gramatical com seu "Tinha uma pedra no meio do caminho" e João Cabral fez o mesmo com "Joga-se os grãos na água do alguidar". Cabral aceitou "corrigir" a construção, que substituiu por "jogam-se" na edição da Aguilar (deve ter achado que "joga-se" era uma pedra no feijão...). No Google, as duas construções convivem. É impossível saber se são cópias ou "edições".
Esta nota tem a ver com uma notícia de jornal (espero que esta esteja correta!): lendo reportagem sobre o lançamento de edição especial de Alguma poesia, descobre-se (repito, se a informação for verdadeira) que Mário de Andrade, em carta, comentou elogiosamente a transgressão gramatical (sic!) no verso "O poeta chega na estação". Drummond respondeu que foi um cochilo, que ia corrigir. "Ainda não posso compreender os seus curiosos excessos. Aceitar tudo que vem do povo é uma tolice que nos leva ao regionalismo", escreveu a Mário não sei se Mário o aconselharia aceitar "tudo" o que vem do povo. Mário o convence a manter a regência como seguinte argumento: "Quem como você mostrou a coragem de reconhecer a evolução das artes até a atualização delas põe-se com isso em manifesta contradição consigo mesmo" (Folha de S. Paulo, 22/05/2010). Drummond, como se sabe, manteve a forma "popular". Que, aliás, não é regionalismo.
A única questão relevante, tanto no caso de Drummond quanto no de Cabral, é por que empregaram a forma "popular" e só se deram conta de que há um "erro" quando alguém fez a observação? Há uma só resposta, em termos de história da língua: é porque essas construções não são mais erros, já eram formas cultas naquele tempo, à luz da melhor e da mais rigorosa noção de padrão linguístico. Tanto não são erros - já não eram há quase cem anos - que dois escritores que não eram populares as empregaram. Achando que estavam escrevendo "certo".
Há um dado sociológico visível que poderia ser considerado para defender que nossa escrita seja menos arcaizante: a sociedade se tornou francamente informal. Quem espiar algum documentário que mostre o "maracanazo" verá a quantidade de homens de terno vendo um jogo de futebol. E não verá nenhuma mulher de calça comprida. Muito menos de bermuda. Hoje, elas vestem homens e mulheres. Ou todos usam jeans e camisetas.
Ninguém mais chama os pais de senhor e senhora. Por que temos que insistir em ênclises e em mesóclises?

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.

FONTE:- http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4451566-EI8425,00.html
Autor da postagem:
Luiz de Almeida - Blog RETALHOS DO MODERNISMO

4 comentários:

Taninha Nascimento disse...

Oi, meu querido amigo!

Gostei muito do post que acabou por me fazer lembrar "pronominais" de Oswald de Andrade [que trata da ênclise - com o verbo no início da frase]:


Pronominais


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro



A nossa língua é bem cheia de detalhes complicados mesmo... Quando falamos é quase impossível usarmos mesóclises. Só aparecem nos textos formais - bem formais.

Então, para ajudar o leitor a lembrar sem ter trabalho de pesquisar:



MESÓCLISE

Usada quando o verbo estiver no futuro do presente (vai acontecer – amarei, amarás, …) ou no futuro do pretérito (ia acontecer mas não aconteceu – amaria, amarias, …)

- Convidar-me-ão para a festa.
- Convidar-me-iam para a festa.


Se houver uma palavra atrativa, a próclise será obrigatória.

- Não (palavra atrativa) me convidarão para a festa.


Fonte: InfoEscola


Obrigada, Luiz! Post bastante pertinente , sim.

Um abraço.

JPM disse...

Olá,
Tive contato com o teu blog no Batom e Poesias.
Agora vim conhecê-lo e seguí-lo.
Desde já és convidada a visitar o meu.
Saúde e felicidade.
João Pedro Metz

Mirze Souza disse...

Muito boa a postagem!

Acredito que o ato de escrever, implica em primeiro dominar o idioma.

As consequências, quer sejam regionalismo ou não, acontece no momento da criação, como no caso de Drummond.

Toda a matéria é valiosa, tanto para leitores, como para escritores.


Parabéns, Luis Almeida e Tania Anjos!

Beijos


Mirze

Taninha Nascimento disse...

Oi, Mirse.

Você sempre nos dando uma forcinha... Obrigada pelo apoio. Beijos!