26 abril, 2010

A Ignorância e a Burrice - Por Antonio Caetano

"As constelações servem para esclarecer a noite". Bela frase, não? A mim, soa como Guimarães Rosa, o uso ambíguo do verbo esclarecer sugerindo algo de arcaico e místico. Um astrólogo certamente enxergaria nela vestígios simbólicos, as constelações servindo para aclarar a obscuridade de nossos destinos. Um marinheiro, por outro lado, veria na frase a expressão de uma verdade empírica: à noite, navegamos orientados pelas estrelas — conhecimento indispensável quando nos faltam instrumentos. Eu fico com a ressonância lírica — me basta.

Juro: se pudesse, roubava a frase para dizê-la como um comentário displicente depois de observar longamente o céu salpicado de estrelas numa noite de lua nova, lá no alto da serra. Sim, depois de um longo silêncio eu sussurraria ao teu ouvido num tom grave e sorrateiro: "As constelações servem para esclarecer a noite", e certamente mais duas estrelas se acenderiam no teu rosto, cheias de admiração pela sabedoria que eu teria se a frase fosse minha...

E nem seria difícil me apropriar da frase, visto que ela talvez hoje envergonhe seu autor anônimo, depois de ter sido enjeitada pelos bedéis do senso comum que julgaram as redações da galera que prestou vestibular para UFRJ este ano. Eles não só não gostaram da frase como a incluíram em uma mensagem eletrônica que fizeram circular pela Internet (eu só recebi agora) reunindo o que consideraram ironicamente como "pérolas": frases que continham erros mais ou menos crassos — fosse de informação, sintaxe ou grafia.

[Continue a leitura em Projeto Releituras / textos para relaxar  -
crônica escrita em 5 de fevereiro de 2001]













Taninha Nascimento

5 comentários:

Tania Nascimento disse...

Olá, leitores!

Esta crônica fora escrita em 2001. Entretanto, o enfoque é atualíssimo...

Será que a Educação já sabe motivar a leitura, escrita e - principalmente - a sensibilidade dos jovens?

Evidentemente que não devemos privilegiar equívocos, entretanto precisamos mostrar a estes quão capazes são.

"As pérolas", claro, são muitas vezes engraçadíssimas. Inclusive, coloquei uma gravação do programa do Jô, aqui no blog, na página de humor. Mas, algumas redações precisam apenas de um olhar menos "fulminante" e mais, diria eu, poético mesmo...

É muito comum os alunos odiarem escrever por conta das amargas críticas acerca de seus textos onde as questões gramaticais e ortográficas são mais privilegiadas que a idéia. O que é uma pena...

O cronista nos leva a perceber que, muitas vezes, o educando não se dá conta da magnitude do que escreve. Possivelmente, ele escreve tentando dizer outra coisa, porém compondo verdadeira obra prima. E isto, não é para ser ignorado e, sim explorado, abrangido, fruído. Os professores precisam gastar tempo com questões assim. Àquelas que possam buscar o sentido das questões profundas que estão imersas em nossas vidas o tempo todo e que nem nos damos conta.

Quantos escritores - poetas, cronistas, contistas, romancistas, enfim... - quantos deixaram e deixam de desabrochar por não haverem tido aquele olhar certo e intervenção certa na hora certa? Pois é...

A questão que coloco agora é que tanto a ignorância quanto a burrice e o brilhantismo, permeiam o cotidiano de nossas salas de aula. O professor antenado precisa do olhar atento sobre tal realidade - para intervir, abranger, melhorar, mudar... Pois, observar tudo isso sem dar uma palavra e só usar a caneta é que não lhe cabe mais.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Antonio Caetano e Taninha
Prezados,
Quero dizer que gostei muito do texto do Antonio Caetano e igualmente do comentário da Taninha. Ambos pessoas sensíveis que sabem ver o que está além da mera formalidade das redações escolares, sejam elas de concursos, de vestibulares ou de outros contextos.
Como professor de Língua Portuguesa, sempre corrigi redações dos vestibulares da Universidade em que atuava e de outras, inclusive de federais.
Agora, mesmo aposentado, tenho feito parte de Bancas com essa incumbência e responsabilidade.
A Universidade em que eu era professor, a PUCPR, acertadamente, não permitia que se organizem essas famosas listas com "pérolas", que muitas vezes, como demonstra Antonio Caetano, são verdadeiras pérolas.
Como tenho uma queda pela observação dos pleonasmos, seguem três frases, que constam como sendo de candidatos do ENEM:
1)"Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar o planeta."
2)"O grande excesso de desmatamento exagerado é a causa da devastação."
3)"Os desmatadores cortam árvores naturais da natureza." Essa foi a minha contribuição, porque acredito que os pleonasmos tornaram essas frasesaltamente poéticas pela força que esse tipo de construção confere a uma frase.
Um grande abraço a todos,
Jayme

Tania Nascimento disse...

Prof. Jayme,

também tenho uma queda pelos pleonasmos. Inclusive, já escrevi um poema explorando-os ao máximo: "Redundâncias derradeiras". Está lá "no rastro da poesia..."

As frases que o sr. nos trouxe atualiza a questão enfocada na crônica do autor: "A Ignorância e a Burrice".

Que sorte têm os que "caem em suas mãos". Ou melhor, "em seus atentos e sensíveis olhos".

Seria bacana fazer um apanhado dessas "pérolas" [ no melhor sentido da palavra] e trabalhar em sala de aula. Daria um "caldo gostoso"...

Obrigada por comentar,
um abraço.

Mirse Maria disse...

Taninha!

O máximo, o texto de Antonio Caetano!

Assim como seu comentário e do Professor Jayme, a quem admiro!

Confesso, eu mesma, pequena e invisível estrela dentro da poesia, muitas vezes escrever, largar o papel, voltar e não reconhecer como meu, o escrito.

Parabéns a todos!

Beijos

Mirse

Tania Nascimento disse...

Mirse,

acho que isso acontece com todos nós. Sabemos que criatura humana é capaz de coisas inimagináveis - para o bem e para o mal. No mais, é escolha...

Perceber-se e perceber o outro é é bom demais!

Obrigada por comentar, querida.

Bjs!