17 abril, 2010

MATEMÁTICA MAIS ATRAENTE


Alunos da 4.ª série do CEI David Carneiro usam mesa com blocos e computador com jogos e exercícios: diversão que ajuda no aprendizado.

Aprendizagem na disciplina ocorre a longo prazo. Levar o aluno a entender o contexto, usar jogos e tecnologia podem tornar processo mais agradável
A tecnologia aliada à criatividade dos professores tem ajudado a tornar a matemática mais atraente para os estudantes. Avaliações de desempenho mostram que dominar a disciplina não é o forte dos brasileiros. O Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2007, último resultado disponível, mostra que estudantes brasileiros da 8.ª série do ensino fundamental, que deveriam ser capazes, por exemplo, de calcular o valor de uma expressão algébrica, incluindo potenciação, conseguem realizar apenas operações como multiplicação e divisão com dois algarismos, conteúdo que deveriam ter dominado na 4.ª série do ensino fundamental.
E a dificuldade com a disciplina se arrasta desde as séries iniciais. Na 4.ª série, de acordo com dados do Saeb, os alunos dominam habilidades que deveriam ter vencido na 2.ª série (veja tabela). O Saeb é um dos exames que integra a avaliação da educação básica no Brasil. É feito a cada dois anos e avalia uma amostra dos alunos matriculados nas 4.ª e 8.ª séries do ensino fundamental e 3.º ano do ensino médio, de escolas públicas e privadas, localizadas em área urbana ou rural.
Olimpíada estimula estudo
O governo federal continua apostando na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) para, entre outras coisas, melhorar o desempenho de professores na educação da disciplina e estimular o estudo da matemática. Uma avaliação econômica solicitada pelo Ministério da Educação (MEC) à Fundação Itaú Social mostra que a iniciativa tem tido bons resultados.
Entrevista: As crianças sabem, mas não conseguem se expressar
Aos 76 anos, o professor da Universidade Paris Gerard Vergnaud já orientou mais de 80 teses de mestrado e doutorado. Formado em Psicologia, é diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS, na sigla em francês), em Paris. Fez a própria tese de doutorado com ninguém menos que Jean Piaget, um dos teóricos mais estudados no campo da Pedagogia. O professor francês esteve em Curitiba no mês passado, quando concedeu a seguinte entrevista à Gazeta do Povo.
O que a avaliação mostra, na opinião de especialistas, é que boa parte da relação de ódio com números e operações, muito comum em crianças e adolescentes em idade escolar, tem origem no ensino fundamental. Para o professor da Universidade Paris Gerard Vergnaud referência mundial em educação matemática, autor do livro A criança, a matemática e a realidade, que acaba de ganhar versão em português, uma das razões que explicam esse conflito é que o aprendizado em matemática ocorre ao longo dos anos. Vergnaud é criador da Teoria dos Campos Concei¬tuais, que ajuda a entender como as crianças constroem os conhecimentos matemáticos. Para ele, os professores precisam usar mais desta teoria. “Os professores têm que se aliar aos pesquisadores e realizar um estudo empírico para acompanhar e dizer o que cada criança é capaz de aprender em cada idade. Os professores não têm conhecimento desta diversidade. E menos ainda os pais”, diz. O professor francês esteve em Curitiba no mês passado para ministrar palestra aos docentes do Grupo Positivo.
Para Vergnaud é possível, mas difícil, tornar o ensino da matemática mais atraente, devido à seriedade que permeia a disciplina. “Ao mesmo tempo em que há situações que se aproximam das vividas pelos jovens e crianças, a matemática é uma coisa muito séria. E por isso, a maior parte das crianças se enche. O uso de atividades lúdicas com a seriedade da matemática é um equilíbrio difícil de achar”, diz.
Atratividade
Trabalhar com o lúdico e a contextualização da matemática foi a solução encontrada pela professora do Colégio Novo Ateneu Juliana de Moraes Campos, que leciona a disciplina para crianças e adolescentes há 12 anos. A professora envolveu seus alunos da 5.ª série do ensino fundamental com a história da matemática. Depois de ter pesquisado sobre o assunto, cada estudante criou seu próprio sistema de numeração. “Temos de mostrar para a criança que a matemática não surge do nada na vida dela. Dá para vincular os conteúdos com o dia a dia usando novas metodologias”, diz.
Há 12 anos, os alunos do pré à 4.ª série do ensino fundamental do Centro Municipal de Educação Infantil David Carneiro, no Xaxim, usam mesas com blocos desenvolvidas exclusivamente para o ensino da matemática. As aulas com as mesas ocorrem uma vez por semana. Antes e depois os conteúdos são abordados em sala de aula. De acordo com a professora Cristiane Inês Bassa, a tecnologia permite uma melhor visualização de situações matemáticas. “Serve como um complemento da aprendizagem”, diz.
A mesa tem blocos coloridos e é integrada a um computador que permite o uso por até seis crianças simultaneamente. Contém jogos e exercícios que dão noções de lateralidade, direção, medidas e lógica. Para a estudante do 3.ª ano Bianca Ferreira Fidelis, 8 anos, dispensar a escrita dos números é um dos pontos positivos do uso da tecnologia. “Sem contar que aqui é muito mais divertido”, diz.
Para uma das desenvolvedoras da tecnologia, a matemática Vanessa Moraes, as novidades tecnológicas servem para facilitar, mas sozinhas não garantem o sucesso do aprendizado. No caso das mesas, a matemática acredita que um dos principais ganhos é que o software não obriga os alunos a acertar os exercícios. “A criança se sente mais à vontade para treinar no computador. Sabe que pode retornar e tentar de novo. A observação ocorre de maneira mais lúdica. Já com a presença do professor o sentimento é de que está sendo repreendida”, diz.
A tecnologia aliada à criatividade dos professores tem ajudado a tornar a matemática mais atraente para os estudantes. Avaliações de desempenho mostram que dominar a disciplina não é o forte dos brasileiros. O Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2007, último resultado disponível, mostra que estudantes brasileiros da 8.ª série do ensino fundamental, que deveriam ser capazes, por exemplo, de calcular o valor de uma expressão algébrica, incluindo potenciação, conseguem realizar apenas operações como multiplicação e divisão com dois algarismos, conteúdo que deveriam ter dominado na 4.ª série do ensino fundamental.
E a dificuldade com a disciplina se arrasta desde as séries iniciais. Na 4.ª série, de acordo com dados do Saeb, os alunos dominam habilidades que deveriam ter vencido na 2.ª série (veja tabela). O Saeb é um dos exames que integra a avaliação da educação básica no Brasil. É feito a cada dois anos e avalia uma amostra dos alunos matriculados nas 4.ª e 8.ª séries do ensino fundamental e 3.º ano do ensino médio, de escolas públicas e privadas, localizadas em área urbana ou rural.

(DUARTE, Tatiana. Curitiba: Gazeta do Povo, 13.04.2010 - educacao@gazetadopovo.com.br )

5 comentários:

Taninha Nascimento disse...

Olá, prof. Jayme!

Muito boa a matéria.

De fato, a matemática é também um "nó" que fica mais apertado a cada ano - a partir do momento em que criança entra, aos seis anos, no Ensino Fundamental.

Eu acredito que com os investimentos na pré-escola, a questão melhore.

Tudo vai depender, também, da capacidade do professor em envolver a criança na matemática que está em sua vida o tempo todo.

Falo da pré-escola, porque os conceitos mais simples e básicos podem e devem ser desenvolvidos lá:

.ao perceberem quantos meninos e meninas tem na sala;
.na chamadinha - percebendo quantos acompareceram e quantos faltaram;
. ao fazerem os grupinhos para brincareiras ou atividades outras;
.ao se colocarem em forma - do menor para o maior;
.ao dividirem um pedaço de massinha de modelar, por exemplo e, por aí vai.

São inúmeras as noções que podemos trabalhar na pré-escola e até na creche.

A tecnologia, é claro, é um atrativo excepcional. Que criança não gosta de computador? Entretato, ficará muito menos custoso - sob o ponto de vista do trabalho mesmo - desenvolver noções importantes que serão base para "clarear" raciocínios futuros.

Eu, particularmente, acho que a preocupação e o desgaste que o professor tem para vencer a etapa da alfabetização, o faz "deixar de lado", não só a matemática, mas outras disciplinas muito importantes que são alicerces para o desenvolvimento das crinças, como ciências - disciplina importantíssima no desenvolvimentos do raciocínio lógico.

Vale lembrar que a minha experiência é de escola pública.

Enfim, muito bom - através de seu post - entrar nessa questão!

Um abraço,
Taninha

Léo Metallica disse...

Eu acho que o ensino deveria ser rígido, mais não com grosseria. Rígido no sentido de que um conteúdo mais teórico deva ser ensinado, ao passo que o professor tenha de ter total atenção nas crianças, ou seja... teve dificuldade? ao invés de um insulto de burro, ele trabalhasse o psicológico da criança a fim de fazê-la se interessar pela resolução do problema.

Acho que as olimpiádas de matemática é um bom caminho, mais isso deveria ser seguido também nas escolas como é feito na feira de ciências, um evento anual de matemática só no colégio, e os vencedores disputariam as olímpiadas intercolegiais.

Direto do Rio.
Beijos.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Taninha,
como a amiga sabe, sempre fui professor de Língua Portuguesa e ultimamente apenas no ensino superior. No início fui professor do que hoje corresponde ao ensino médio. Portanto, como professor, não tenho prática da educação de pré-escola e nem do ensino fundamental. Tenho, porém, um netinho com quatro anos, que desde o ano passado frequenta a pré-escola.
Como a minha filha, mãe do Fabrício, formou-se também em Pedagogia, mas exerça a outra carreira, ela, em conjunto com a escola em que ele estuda, estão fazendo um belo trabalho de desenvolvimento do carinhosamente "japinha", o pai dele é de origem japonesa.
Essa tem sido a minha pouca, mas intensa, vivência com o ensino para crianças.
Um grande abraço,
Jayme

Jayme Ferreira Bueno disse...

Prezado Léo,
como afirmei no comentário sobre o texto da Taninha, a minha experiência com o ensino para crianças é apenas por intermédio do que observo com o meu netinho.
Quanto a ensinar um conteúdo mais teórico para crianças muito pequenas, pelo que dizem os educadores, e eu penso assim também, a criança com pouca idade só consegue aprender e prender-se com coisas muito concretas. Ainda não são capazes de abstraírem para coisas teóricas. Com o passar do tempo, sim.
Por isso, considero que a escola terá de saber dosar muito bem o que irá ensinar em cada faixa etária das crianças.

Indo para o campo da Literatura,como sabemos até os poetas gostam muito das coisas concretas. Um exemplo claro é a poesia do pernambucano João Cabral de Melo Neto:
Um exemplo está no poema Catar Feijão, quando ele escreve:
"a pedra dá à frase seu grão mais vivo".

Obrigado pelo comentário à matéria que postei.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Taninha,
como a amiga sabe, sempre fui professor de Língua Portuguesa e ultimamente apenas no ensino superior. No início fui professor do que hoje corresponde ao ensino médio. Portanto, como professor, não tenho prática da educação de pré-escola e nem do ensino fundamental. Tenho, porém, um netinho com quatro anos, que desde o ano passado frequenta a pré-escola.
Como a minha filha, mãe do Fabrício, formou-se também em Pedagogia, mas exerça a outra carreira, ela, em conjunto com a escola em que ele estuda, estão fazendo um belo trabalho de desenvolvimento do carinhosamente "japinha", o pai dele é de origem japonesa.
Essa tem sido a minha pouca, mas intensa, vivência com o ensino para crianças.
Um grande abraço,
Jayme