01 abril, 2010

UM ROMÂNTICO CONSPIRADOR DA EDUCAÇÃO


Entrevista - Um romântico conspirador da educação
José Pacheco, mestre em Ciências da Educação e criador da Escola da Ponte.


“Aquilo que hoje funciona no Brasil, em termos de sistema educativo, é a lógica administrativa e burocrática. Todas as medidas que se tomam são inúteis e as leis que existem estão erradas. O Ministério da Educação só serve para consumir dinheiro”.

De jeito simples e fala mansa, o mestre em Ciências da Educação José Pacheco rompeu o modelo tradicional de educação na Escola da Ponte, há mais de 30 anos, em seu país natal, Portugal. A escola não tem salas de aulas, turmas, nem séries e o aluno decide o quê, como e com quem aprender. Zé da Ponte, como é mais conhecido, mora há dois anos no Brasil, na cidade de Nova Lima, região me¬¬tropolitana de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais.
Costuma dizer que vive mesmo é nas nuvens. No último ano, acumulou mais de 340 voos para visitar escolas, dar palestras e conhecer a educação brasileira. “Vim muito mais para aprender do que para ajudar”, diz. No pouco tempo que está em terras brasileiras, Zé da Ponte ajudou a criar um grupo de educadores brasileiros que se intitulam “Românticos Cons¬piradores da Educação”. Além das milhagens acumuladas, aproveitou as viagens para es¬¬crever dois livros de crônicas, o Pequeno Dicionário de Absurdos em Educação, da Artmed, e o Pequeno Dicionário das Uto¬pias da Educação, da Wak.

Liberdade responsável

Autonomia e liberdade podem definir como funciona a Escola da Ponte, localizada na Vila das Aves, a 37 quilômetros da cidade de Porto, em Portugal. Há 34 a escola está instalada numa área aberta, sem salas de aulas ou turmas. Os alunos são organizados em pequenos grupos com interesse comum, escolhem seus tutores e reúnem-se com seus professores em torno de um galpão. São eles que desenvolvem seus trabalhos.
De acordo com Zé da Ponte, a liberdade responsável move a Escola da Ponte. Os pais quando decidem matricular seus filhos, assinam um contrato de responsabilidades. Podem, inclusive, participar da direção da escola. A instituição também tem autonomia financeira perante o estado, podendo contratar e demitir professores e funcionários.

Transformação na rede

Uma rede de cerca de 600 educadores brasileiros realizou seu segundo encontro nacional em Curitiba, durante a Conferência Internacional de Cidades Inova¬doras. O grupo “Românticos Cons¬¬piradores pela Educação” existe há dois anos e surgiu da iniciativa do professor Zé da Ponte. Os “Românticos Conspi¬radores” dialogam sobre as possibilidades transformadoras de educar, na linha da autonomia de aprendizagem, educação integral e democrática.
Para Zé Pacheco, estão integradas ao grupo pessoas que transformaram suas escolas mas que seus trabalhos ainda não são visíveis. “Eles trocam figurinhas pela internet e se encontram uma vez por ano. Não ficam só na teoria, estão fazendo na prática muitas coisas boas. São pessoas que enxergam e fazem a educação de um outro modo”, diz.

Serviço:

Os debates dos “Românticos Conspiradores” podem ser acompanhados pela internet no endereço: http://romanticos-conspiradores.ning.com/
Pelo título das obras dá para perceber o que Zé da Ponte é na sua essência: um ferrenho questionador da estrutura de ensino tradicional. O mentor da Escola de Ponte acredita que o modelo atual das escolas precisa ser revisto e defende a extinção do Ministério da Educação. Zé da Ponte não concorda com as principais leis educacionais brasileiras e diz que é na própria escola que devem começar as transformações.
“Somos todos socialmente responsáveis. Deixei de estar sozinho numa sala de aula, dependendo de coordenador, diretor e ministro. Passei individualmente a ser responsável pelos atos do meu coletivo. A Escola da Ponte mostra que é possível realizar a utopia de acolher a todos e dar resposta a cada um”, diz.
Zé da Ponte esteve em Curitiba para participar da Conferência Internacional de Cidades Inovadoras 2010, quando concedeu entrevista à Gazeta do Povo. Abaixo trechos da entrevista.

A Escola da Ponte quebrou com o modelo de escola que conhecemos. A ideia é acabar com as salas de aula e escolas da maneira que existem?

Este é o lado exótico, o mais visível. A Escola de Ponte não tem sala de aula, turma, ciclo, diretor, nada. Tem outras coisas que a torna uma das escolas mais estruturadas e organizadas que eu conheço. O essencial foi uma profunda renovação da cultura pessoal e profissional. Como consequência acabou com essa estrutura de turmas e salas de aulas que não servem para nada. Digo isso com todo respeito que tenho com as pessoas que trabalham desta maneira.

Isso quer dizer que o modelo de escola precisa ser repensado?

A Escola com “E” maiúsculo está condenada a desaparecer como modelo existente. Há mais de cem anos que está numa crise profunda e ninguém encontra uma solução. Essa “Escola” foi criada para suprir as necessidades sociais do século XIX. O modo como está organizada demonstra que está organizada para o insucesso, para o analfabetismo e o sofrimento. A Ponte, uma escola da rede pública estadual, mostrou que é possível ter responsabilidade perante o Estado, mas ser autônoma. Pode contratar e demitir, tem autonomia pedagógica e financeira. E esta escola que eu chamo de autônoma é assim porque não existe relação de poder hierárquico.

Essa transformação da Escola tem de partir de onde?

De cada escola. Não acredito em transformação a partir de medidas que venham de cima para baixo. Acredito no poder agregado ao local. As escolas não são iguais e por isso não há medidas políticas que possam contemplar a todas as escolas. Há muita diversidade. Sobretudo é uma mudança de cultura. Toda obra sobre a mudança da “Escola” está escrita. Falta mudar.

Você diz que encontrou muita coisa boa no Brasil relacionada à educação. O que foi?

O Brasil tem muitos bons educadores que a maioria dos brasileiros não o conhece. Cito Eurípedes Barsanulfo. Ninguém fala de Anísio Teixeira nesta terra. Inclusive pouco ou nada se faz sobre o legado de Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Lourenço Filho, Manoel Peixoto. A maioria conhece um Jean Piaget ou Lev Vygotski, dois fósseis europeus, mas não conhece o que tem aqui dentro do Brasil.

Numa entrevista a um jornal português você defendia a extinção do Ministério da Educação em Portugal. No Brasil você acha que deve ocorrer o mesmo?

Se queremos melhorar a educação brasileira, uma das primeiras coisas a ser feita é extinguir o Ministério da Educação. Com todo respeito que merecem aqueles que estão no Ministério da Educação, que são muito válidos, inteligentes, cultos e competentes. Não se trata disso, mas de acabar de uma vez por todas com uma máquina burocrática que não serve para nada. Só serve para manter as escolas sem desenvolvimento pedagógico. Aquilo que hoje funciona no Brasil, em termos de sistema educativo, é a lógica administrativa e burocrática. Todas as medidas que se to¬¬mam são inúteis e as leis que existem estão erradas. O Ministério da Educação só serve para consumir dinheiro.

Faltam recursos para a educação no Brasil?

O sistema educativo brasileiro não tem falta de recursos. O Brasil desperdiça. Isso também ocorre em Portugal. Fiz parte do Con¬selho Nacional de Educação de meu país. Discuti políticas educacionais com os ministros e quando me perguntavam qual a principal medida a ser adotada eu dizia: extinguir o Ministério da Educa¬ção. Pode-se criar um organismo ligeiro e simples, que acompanhe as políticas locais e que fiscalize o cumprimento da Constituição, no que diz respeito às escolas. Uma instituição tão burocratizada, tão pesada, não serve para nada a não ser para desperdiçar dinheiro público.

(Tatiana Duarte - educacao@gazetadopovo.com.br - 23/03/2010).

13 comentários:

Taninha Nascimento disse...

Olá, prof. Jayme!



Eu já conhecia o trabalho da Escola da Ponte. Sem dúvida alguma é uma proposta muito inteligente de gestão.

Bem, lendo as colocações de José Pacheco na reportagem eu chego a seguinte conclusão: não são paredes ou portas que vão qualificar ou desqualificar o nível de um trabalho pedagógico. Este, de fato, se qualifica ou se desqualifica pelo envolvimento de toda uma equipe - docente e discente - e, principalmente, pelo envolvimento dos responsáveis.

A mídia vem trabalhando esta questão. Acho ótimo, claro! "Santo de casa não faz mesmo milagres", pois o que tenho visto e vivido em minha vida de professora - estando em sala de aula ou não -, é o apelo quase dramático de direção, coodenação pedagógica e professores para que os responsáveis apoiem e participem da vida escolar de seus filhos.

Evidentemente que para uma escola trabalhar neste exemplo de rotina, além de autonomia e liberdade, se faz necessário muito estudo e muita vontade da comunidade escolar como um todo. Aí, dá certo...

Faço uma pequena ressalva sobre "não conhecermos" Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, por exemplo. É um olhar equivocado, pois - ao menos aqui no município do RJ, Paulo Freire e Darcy Ribeiro são ícones que trouxeram grandes avanços a nossa educação pública. Os valorizamos muito! Vygotsky e Piaget, também têm o nosso reconhecimento a nível de contribuições importantíssimas para o avanço de nossas teorias e práticas educativas.

E educação no município do RJ, vem caminhando a passos largos para instrumentalizar o educador dando-lhe visão abrangente e ampliando os horizontes de sua prática educativa. Claro que não chegamos ao ideal. A alfabetização de qualidade para garantir o avanço do processo educativo ainda é desafio.

Quanto ao Ministério da Educação, eu interpreto que , hoje, há muita abertura. As escolas podem ter o seu Projeto Político Pedagógico que lhe dá autonomia e liberdade e ainda o CEC [Conselho Escola Comunidade], que lhe permite gerir a escola com o envolvimento de todos - professores, alunos, pais... Sem falar no Grêmio Escolar e nas Eleições diretas para o Diretor de escola. O que falta é o envolvimento REAL desses atores na busca da melhoria e qualidade. Aponta-se erros. Reclama-se muito. Busca-se culpados. Mas o caminho é outro. É traçar e perseguir um objetivo. Dando a mão "ao que cai".

Todos precisam de incentivo, de reconhecimento, de ajuda, de acolhimento... Enfim, TODOS na escola são gente! Seres complexos e imperfeitos.

Quem nunca leu "A Escola" - de Paulo Freire? pois é...

Enfim, o que falta e falta muito é mais dinheiro para gastar na Educação [sem roubo, é claro!]

Quanto custa [anualmente] um aluno da escola pública?


Educação Básica (total) - R$ 2.632

Educação Infantil - R$ 2.206

Ensino Fundamental (anos iniciais) - R$ 2.761

Ensino Fundamental (anos finais) - R$ 2.946

Ensino Médio - R$ 2.122

Ensino Superior - R$ 14.763


valores anuais referentes a 2008. Fonte: Inep/MEC.

[E um preso? Pois é...]

Sobre desperdícios, eu acho que é preciso encontrar - a nível nacional - um caminho novo para o livro didático ou sua total exclusão.

Aqui, já temos cadernos de exercícios e cadernos de apoio pedagógicos que são elaborados por grupos de professores de nossa Rede. Eu "tiro o chapéu".





Prof. Jayme, a Entrevista com José Pacheco, mestre em Ciências da Educação e criador da Escola da Ponte, pode ser um excelente texto para análise e debate nas reuniões pedagógicas. Dá "um caldo..."

Parabéns pelo post!

Taninha

Taninha Nascimento disse...

Prof. Jayme,

aproveito para dizer da minha alegria por tê-lo em nossa equipe!!

Grande abraço.

Jayme Ferreira Bueno disse...

Taninha,
Obrigado pelo convite. Procurarei honrá-lo com postagens que suscitem debate na Educação.
Penso que quando o Zé da Ponte se refere ao fato de pedagogos brasileiros não serem tão conhecidos, ele fala genericamente dos professores das outras áreas. Nós da Educação, que fizemos cursos voltados ao magistério os conhecemos, sim. Principalmente professores e alunos da Pedagogia.
Por outro lado, atualmente há uma certa fixação em Paulo Freire. Anísio Teixeira e o próprio Darcy Ribeiro estão ficando um pouco de lado. Lá pelo final dos anos 50 e início dos 60, quando fiz a parte pedagógica para completar o Bacharelado de Letras e tornar-me um Licenciado, o nome da vez era Anísio Teixeira. A Escola Nova se encontrava em voga. Mas os tempos mudam.
Quando se fala em Vigotski e Piaget, às vezes, é certo modismo, por que muitos só os conhecem de nome. Aí se pode incluir também Baktin.
Penso que seja mais ou menos isso. Mas valeu o debate.
Um grande abraço, Jayme

Taninha Nascimento disse...

Oi, Prof.!

Sim, é isto mesmo.

Acerca de Vygostky e Piaget, entre outros, sob a ótica do modismo foi uma desgraça para a educação. A falta de entendimento dos teóricos gerou uma série de graves erros. E, vivemos as consequencias...

Não se pode mais trabalhar em sala de aula sem entendimento do que se faz e, para que se faz.

O professor não pode deixar de estudar! Sei que é complicado, mas é o único caminho.

Mirse Maria disse...

Muito boa e educativa postagem!

Tomara que muitos a leiam!

Parabéns, Taninha e Prof. Jayme!

Abraços

Mirse

Taninha Nascimento disse...

Oi, Mirse!

Obrigada por passar por aqui, ler e comentar.

Bjs!

Jayme Ferreira Bueno disse...

Mirse,
que bom voltar a nos encontrar por intermédio do Blog da Taninha. Ela e o seu Blog são muito especiais.
Obrigado pelo comentário.
Jayme

Anônimo disse...

Professor Jayme,
Taninha

Eu não conhecia essa Escola da Ponte. A matéria foi muito útil para meu conhecimento, e para meu questionamento pessoal. O mestre José Pacheco inova no seu método. Como leito, gostei. Mas quem deve ter a palavra são o senhor e a senhora.

Abraços

Taninha Nascimento disse...

Caro[a] anônimo[a],

a palavra a toda sua!

O blog é nosso, ok!

O objetivo é este mesmo: fornecer material confiável a um bom debate.

Beijos!

Jayme Ferreira Bueno disse...

Prezado Anônimo,
Eu sempre fui professor, agora aposentado, passei a escrever ou postar em blogs alguns temas da Educação e da Literatura, minhas áreas preferidas.
É objetivo do Blog da amiga Taninha, e eu embarquei nessa, publicar temas que levem ao debate.
A Educação deve ser sempre debatida, e principalmente vivida.
Paulo Freire divulgou a expressão "saber de experiência feito", o que, aliás, já se encontrava em Camões, quando descreve o Velho do Restelo (Canto IV, Estrofe 95):

Mas um velho, de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

Por tudo isso é que estamos aqui tratando de Educação.
Um grande abraço e obrigado pelo comentário.
Jayme

KA disse...

Taninha,

Meu comentário acima saiu como "anônimo", marquei errado ao enviar. Mas quero apenas deixar aqui meu registro e simpatia pelos temas abordados, bem como meu reconhecimento da importância que isso representa.

Abraços

Taninha Nascimento disse...

HA HAAA!

Sr. anônimo... rsss

Ok, amigo. Compreendemos.

Obrigada! Bjs!

Jayme Ferreira Bueno disse...

KA
Isso acontece.
Agradeço a identificação.
Abraço,
Jayme