04 outubro, 2010

ZELIG À BRASILEIRA - Cristóvão Tezza

Lula me lembra Zelig, o hilariante personagem do filme homônimo de Woody Allen, que vai se transformando fisicamente diante dos outros, para ficar parecido com eles. Como no “documentário” sobre Zelig, o tempo todo vemos nosso herói sorrindo com Obama na Casa Branca, falando sério em Copenhague, altissonante no Mercosul, companheiro na Bolívia, nobre em Buckingham, comunista em Cuba, católico no Vaticano e por aí vai. Segundo a tradição miscigenante da cultura brasileira, Lula, como Zelig, transforma-se camaleônico no que for preciso de modo a ficar sempre no mesmo lugar – é uma “metamorfose ambulante”, como ele mesmo se definiu. Na lógica astuta do país, tudo se rege por um senso perpétuo de amortecimento de conflitos e adequação biológica ao meio ambiente.
Seu governo é a expressão de nada; o herói carismático vê-se carregado nos ombros da mais azeitada e obediente máquina partidária do Brasil moderno, que funde um projeto messiânico-revolucionário com a burocracia democrática colocada a seu serviço, a cada dia mais esvaziada politicamente. A única ideologia que resta é uma política externa esfarrapada que dá tapinhas nas costas de Ahmadinejad e ruge furioso contra a eleição de Honduras, que poderia, pela simples força do bom-senso, recolocá-la nos trilhos; que devolve em poucas horas à ditadura cubana dois atletas fugitivos e resiste tenazmente a extraditar para a Itália alguém condenado por crimes comuns num Estado de Direito.
Fala em “pragmatismo” e perde todas as eleições em que se mete nos fóruns internacionais, enquanto ri na fotografia.
O imenso Brasil popular que veio à tona por força do Plano Real e do otimismo econômico dos anos 90 parece ter encontrado em Zelig o seu mantra político-religioso.
O que fazer com o povo brasileiro que, súbito, está nas ruas, de celular na mão direita e tacape na esquerda? Nada a estranhar nos maços de dinheiro enfiados em cuecas e bolsos do DEM e do PT, abençoados por rezas compungidas de ladrões sinceros – como Lula se apressou a dizer, são cenas “que não falam por si”. Afinal, o país de maior mobilidade social do mundo é também o único em que um deputado fraudando um painel de um Congresso Nacional vai se tornar em pouco tempo, inocente, governador do Distrito Federal.
Nada melhorou em nenhuma área. A educação básica patina nos seus piores índices de sempre – enquanto abrem-se dezenas de universidades federais prontas a ocupar o rabagésimo lugar de relevância sob qualquer critério. A lógica que nos arrasta é a da mendicância e a do pátio dos milagres – empresários mendigos, políticos mendigos e povo mendigo, esperando de boca aberta e mão espalmada o sorriso de Silvio Santos a jogar dinheiro na plateia. Faltava um bom ator para o papel – o próprio Silvio Santos até que tentou, mas levou uma rasteira jurídica mais esperta ainda na alvorada de Collor.
Agora, Lula é o cara.

.(Gazeta do Povo, 15/12/09, p. 3)

4 comentários:

Tania disse...

Prof. Jayme,

a necessidade urgente de se [re]pensar sobre tudo o que ocorreu e ocorre na política brasileira - desde o descobrimento - levou as eleições para o 2º turno.

Parabéns a Marina Silva e que ela tenha sabedoria e coerência para explorar este momento, pois sua passagem pela política nunca foi tão decisiva para os rumos do País.

Um abraço, Prof.

KA disse...

Professor Jayme,

Lula é o cara, disse o Obama (aquele...); espero que a Dilma venha a ser "a cara", e que o Brasil continue se desenvolvendo e crescendo e sendo respeitado como uma das maiores economias mundias. E, o mais importante, haja educação de qualidade e melhoria de vida para todos.
Caso contrário tudo terá sido em vão.
Abraços

Jayme Ferreira Bueno disse...

Prezado Ka, prezados amigos todos,
Diferença de preferências à parte, eu espero e desejo firmemente que quem vier a ser o próximo presidente trate o Brasil como ele merece. Não governe só pensando no prestígio pessoal, combatente a corrupção, principalmente nas proximidades do próprio núcleo central do governo e não achando que o Brasil foi descoberto em 2003. O Brasil foi descoberto,segundo rzam as cartilhas de história, em 1500.
Vamos aguardar e torcer pelo Brasil, um Brasil, verdadeiramente grande, grande em economia, em ética e que procure tornar todos os brasileiros felizes, independente de classe social.
Um grande abraço a Ka e a todos que se anifestam neste Blog.
Obrigado a todos!
Jayme

KA disse...

Professor, Taninha,

sinto que as pessoas de bem sempre querem e fazem o melhor para o Brasil. O que estraga são os políticos (de todos partidos) corruptos, canalhas que só se preocupam com projeção pessoal e enriquecimento ilícito. Tenho a forte convicção de que um dia estaremos livres desses males, (utopia...?). Tomara que não!

Abraços a todos