29 junho, 2009

ESTUDAR PRA BURRO


ESTUDAR... PARA QUÊ?

(Do FHC ao Lula: piora a cada ano)

A expressão: “Estudei pra burro”, normalmente utilizada por alunos que costumam estudar apenas e tão somente para conseguirem qualificação “B” nas avaliações, parece ser inerente ao atual sistema de ensino. Esse fato torna-se mais evidente, principalmente se os alunos que utilizam a referida expressão estiverem cursando o 2.º Grau. Eles não estudam para aprender, mas para serem enquadrados no sentido tácito da expressão “Estudei para (ser) burro”, pois parece ser esta a grande meta da política educacional nacional, que pleiteia resultados estatísticos e não a qualidade educacional e cultural do aprendiz.
No final de todo ano letivo, com certeza o governo apressa as diretorias e conselhos escolares para execução das tabelas e estatísticas que demonstram os altos índices de aprovação, exatamente para ter como justificar os grandes investimentos nas campanhas (propagandas seria o termo correto) efetuadas nos meios de comunicação por esse mesmo governo, mostrando aluninhos muito bem comportados, saboreando suculentas e balanceadas merendas, utilizando-se de uma chusma de livros didáticos “presenteados” pelo governo; os professores: todos dispostos, sorrindo à toa (deve ser pelo “salarião” que recebem).
Quem será que o nosso governo está querendo enganar? Por que os estudantes que não conseguem os índices mínimos de aprovação não podem voltar a cursar a mesma série? Qual a vantagem que desfrutará o pobre do cidadão que é promovido nos primeiros ciclos básicos sem base nenhuma? E o ensino profissionalizante? Qual o motivo de ainda estar tão ruim? Quando o FHC era o Presidente, na própria cartilha “Avança Brasil”, onde estavam expostas as diretrizes do seu governo, na página 133, podia-se ler:
(...). “A educação profissional, por sua vez, não pode ser concebida apenas como uma modalidade de ensino médio. Deve consistir na educação continuada para toda a população economicamente ativa, que precisa manter-se qualificada, readaptada e conservar elevados níveis de escolaridade. (...) A formação para o trabalho exige níveis cada vez mais altos de escolaridade, não mais se restringindo à aprendizagem de algumas habilidades técnicas.” (grifo meu).
Quer dizer que era apenas programa, projeto, ou algo para inglês ver? Mesmo agora com um Presidente petista, será que não entende que a educação profissional inadequada é a principal responsável pela exclusão do cidadão do mercado de trabalho? Qual será a situação futura (digamos: no final desta década) dos analfabetos diplomados no final do corrente ano?
Todos sabem que a educação não se restringe aos anos escolares e ao ambiente da escola formal. Mas o que estão fazendo para a melhoria do ensino formal? O sistema de ciclos e o da escola integrada ao meio são as soluções adequadas? O que estão fazendo para a qualificação dos professores de cada área pertinente ao ensino?
Muito se tem estudado, falado e escrito sobre o sistema de ensino. No país existem vários expertos no assunto. Programas espetaculares já foram divulgados nos meios educacionais. Mas, o que sempre prevalece é a vontade política e as idéias inócuas de secretários de governos quase nunca peritos. Fica sempre patente a vontade política de que o cidadão brasileiro deve contentar-se apenas em ser mais um diplomado, mesmo que analfabeto. A qualidade é a única que repete o ano, fica de “segunda época” (é coisa do passado), dependência ou retida, etc. O mais importante são as estatísticas onde figuram números, nem sempre confiáveis, do baixo nível de analfabetos e retidos. Ainda sem adentrar na problemática da evasão escolar. O INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) mostra que atualmente 1,7 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 17 anos abandonaram as aulas e que aproximadamente 40% (é isso mesmo: “40%”) abandonaram por falta de vontade, puro desinteresse.
Cabem aqui alguns questionamentos:
- O governo está investindo para saber o real motivo desse alto índice da evasão escolar? Qual seria o real motivo da “falta de vontade e desinteresse” dos jovens brasileiros?
- E a evasão escolar que só no estado de São Paulo já chegou a 4,5%, ou seja, quase nove milhões de jovens, três vezes a população do Uruguai?
- Não está na hora de o governo investir na melhoria da gestão do sistema?
- Mas... E as avaliações sobre a qualidade do ensino, da qualidade dos aprendizes e da qualidade do magistério?
- Por que o governo não entra na sala de aula?
- Por que... Chega.
A esses questionamentos, quem poderá responder? – melhor: resolver? – melhor não seria: resolvê-los? Será que o Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB), que é Nacional e, se é que ainda funciona, poderia responder (resolver) as deficiências do sistema de ensino? Bem... Acho que estou sendo injusto, pois os ex-participantes do SAEB deveriam ter recebido o Prêmio Nobel da Inteligência, pois descobriram e orgulhosamente divulgaram nos principais jornais do país que: “Sem professor qualificado, escola vai mal”.
Celso Furtado diria: “O nosso sistema de educação está indomado, espoliado, destruído, enquanto o europeu é planejado, cultivado e domado, vencido pela civilização”. Lá, professores e mestres participam do planejamento do sistema de ensino. Aqui são lançados nas arenas (escolas públicas) para serem devorados pelos leões (aqueles que mandam e desmandam na educação). Qual o motivo de o governo nunca ouvir o magistério durante os estudos para a reforma do ensino? Qual o motivo de o governo não investir na qualificação do magistério?
Lá, naseuropa, os alunos necessitam alcançar qualificação pré-estabelecida por área e por disciplina. Aqui, basta ir até as salas de aula, não esquecer de responder: “Presente, fessôra”, tirar xerocópias de alguns trabalhinhos, recortar algumas figuras de revistas e colar em cartolinas, copiar centenas de matérias do quadro verde para tornar-se: “Os Formandos”. Para onde irão os milhares desses “formandos” sem formação? Até quando continuaremos a ouvir: “O importante é o diploma... depois a gente se vira?”.
Bem, não existe coisa pior do que concluir qualquer artiguete com pergunta, mas é necessário:
- O que será da nossa sociedade de amanhã quando os atuais estudantes, que estudaram pra burro, começarem a operacionalizá-la? Iremos nos alimentar de alfafa? O meio de transporte coletivo mais rápido voltará a ser a carruagem? Os puxadores dessas carruagens serão aqueles que estudaram pra burro? Haverá necessidade de diploma para puxar carruagens? E...
- Como ficará o inocente do burro (estou me referindo ao animal) nessa história?

Luiz de Almeida

(A figura adicionada é montagem de outras encontradas na Internet. Caso seus autores não aceitem a postagem neste artigo, bastam enviar mensagem para que a montagem seja desfeita).

05 junho, 2009

Dia Mundial do Meio Ambiente
















Empresas com boas práticas ambientais poderão ser favorecidas em licitações públicas



As empresas que adotam práticas ambientalmente sustentáveis poderão utilizar a certificação correspondente para se beneficiar em licitações públicas. A Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) reúne-se na próxima terça-feira (9), a partir das 11h30, para deliberar sobre o projeto de lei (PLS 366/08) que inclui essa certificação entre os critérios de desempate em licitações públicas.
A matéria, de autoria do senador Expedito Júnior (PR-RO), recebeu parecer favorável com duas emendas da relatora, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS). O PLS também tramita em caráter terminativo na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).
Em sua justificação, Expedito alega que o objetivo da proposta é prestigiar as empresas que demonstram responsabilidade com a qualidade de vida das pessoas, ao contribuírem com a preservação do meio ambiente. Para isso, a certificação seria feita pelo órgão estatal competente, dando a condição de "empresa que adota práticas ambientalmente sustentáveis".
Marisa Serrano apresentou duas emendas que apenas corrigem incorreções na redação do PLS. A senadora assinalou em seu parecer que diversos países adotam normas que estabelecem critérios para aquisições, pelo poder público, de bens e serviços ambientalmente sustentáveis. Ela observou que, como regra geral, o estado tem a obrigação de zelar pelo bem comum e pelo patrimônio da coletividade, incluído o meio ambiente.
- No Brasil, constitui mandamento constitucional. Com grande demanda por serviços e produtos, o poder público tem um importante papel indutor a desempenhar - frisou.
Além disso, a senadora disse que o alcance de poder de compra do estado é potencialmente responsável pelo estabelecimento de novos padrões de mercado, ao ampliar a demanda de produtos ambientalmente corretos e tornar viável para as empresas a oferta de bens e serviços considerados compatíveis como conceito de desenvolvimento sustentável.
- Deve-se levar em conta também os inúmeros casos em que a busca do menor preço de bens e serviços, especialmente quando realizada sem levar em conta potenciais efeitos ambientais a eles associados, pode revelar-se econômica e financeiramente condenável, se consideradas as externalidades negativas e os custos da reparação de danos ambientais eventualmente provocados.
Ricardo Icassatti / Agência Senado



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Paim defende conservação da Amazônia em Dia Mundial do Meio Ambiente


O Dia Mundial do Meio Ambiente levou o senador Paulo Paim (PT-RS) a lançar, nesta sexta-feira (5), em Plenário, um alerta pela preservação da natureza. O parlamentar fez uma defesa apaixonada da conservação da Amazônia, ressaltando estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de 2003, que analisa índices de derrubada da floresta. Conforme o senador, o estudo conclui que, mantidas as taxas de desmatamento atuais, 31% da mata estará destruída e 24% degradada até 2023, o que transformará a Amazônia em um grande cerrado até o final do século.
- O Inpe anunciou recentemente que o desmatamento na Amazônia no mês de abril foi de 1.123 quilômetros quadrados e entre agosto de 2007 a abril de 2008 foi de 5.850 quilômetros quadrados - assinalou.
A demanda por alimentos no mundo e o comércio ilegal de madeiras nobres foram identificados por Paim como principais impulsos à devastação na região. O fato de a Amazônia concentrar um quinto da água doce do planeta, reunir de 100 a 300 diferentes espécies de árvores por hectare e abrigar cerca de três mil espécies de peixes em seus rios, conforme relatou Paim, seria mais do que suficiente para exigir pressa na contenção desse desmatamento.
Ao mesmo tempo em que clamou pela conservação da biodiversidade amazônica, Paim destacou ações governamentais com esse objetivo. Assim, citou a criação de um grupo de trabalho para formatar o Fundo de Preservação da Amazônia e a realização do zoneamento econômico e ecológico da região em 2009. E na mesma perspectiva de defesa desse patrimônio natural, listou proposições de sua autoria em tramitação no Senado e na Câmara.
Nesse rol está proposta de emenda à Constituição (PEC 23/08) que exige o aval do Senado para as operações de compra e arrendamento de propriedades rurais na Amazônia Legal. Segundo explicou Paim, sua intenção com a matéria é ampliar a fiscalização do Estado sobre a aquisição por estrangeiros de terras na região, além de determinar o confisco de glebas rurais onde se constate desmatamento ilegal.
Em aparte, o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) reivindicou um debate racional sobre a situação da Amazônia, que leve em conta uma posição de equilíbrio entre a conservação do meio ambiente e as necessidades do ser humano. Na sua avaliação, equívocos e exageros cometidos ao se retratar a realidade da região estariam contribuindo para inibir qualquer atividade de exploração na área.
O senador José Nery (PSOL-PA) ponderou que o desenvolvimento econômico não deve perder de vista a sintonia com o meio ambiente. E lamentou: "parece não nos comover as catástrofes ambientais em todas as partes do mundo. A ganância não pode passar por cima do direito à vida".
Da Redação / Agência Senado

Certa Primavera, in-certa Praça ...



Ontem, há exatos vinte anos, em Pequim, um massacre bárbaro - chamado de "insidente político" ocorreu.

Sonhando e lutando corajosamente, a ponto de não temer pesado exército com armas e canhões, cerca de 400 a 2 mil estudantes entre outros manifestantes morreram. Era o fim de sete semanas de protestos - noite de 3 e madrugada de 4 duma primavera de junho.

Interessante também o nome exército: Exército de Libertação Popular. E, a ordem para promover o "insidente, veio do Governo chinês; especificamente das facções mais conservadoras.

Eu acho muito interessante - no pior sentido da palavra - tantos paradoxos em relação às verdades e aos termos empregados a elas, como também o esforço em apagá-las da memória do povo.

Naquela Praça da Paz Celestial o Exército de Libertação Popular em nome do governo da República Popular da China, promoveu um massacre a estudantes, trabalhadores e ainda, intelectuais - desarmados - que manifestavam seu protesto numa caminhada silenciosa e pacífica - num grito mudo de "guerra de bandeiras brancas" mantendo a "calma no desespero" -, dentro de uma sociedade liderada por um Partido Comunista que era perfeitamente entendido pelos manifestantes - mais ou menos cem mil - como repressivo em desasia e corrupto. Os trabalhadores ali, também lutavam contra a inflação e o desemprego, pois em suas lentas reformas econômicas, a China, não mudava em nada o quadro de vida do povo.

A morte de Hu Yaobang, fora o estopim para o início dos protestos.

Naquela Praça uma "estátua da liberdade", de gesso, foi erguida como tentativa de mostrar ao governo o desejo urgente do povo pela justiça social e democracia.
Na Praça da Paz Celestial, há muitos monumentos que contam a história da China através dos séculos, entretanto o sonho da democracia foi - mesmo - engessado ao derrubarem, imediatamente, a estátua erguida pelos manifestantes.

O povo chinês teve e tem ainda pouco conhecimento do que se deu. Tentaram - e ainda tentam - impedir a imprensa de divulgar a verdade dos acontecimentos daquela noite e madrugada. A comunidade internacional condenou a República Popular da China pela repressão do protesto. O que de nada, me parece, adiantou.

Após vinte anos, as coisas não mudaram muito por lá. O bloqueio ao acesso à internet que normalmente acontece foi ainda mais intensificado nesses últimos dias. Só em Hong Kong é permitido mencionar sobre o incidente de 1989, com manisfestações de apoio às vítimas, inclusive greves de fome e a tradicional vigília, pois lá as leis são diferentes do resto da China.

Então, a China, para mim, é absurdamente contraditória em suas falas e valores em prol de sua política interna e externa. Grande Potência que vem se destacando no cenário mundial como quem "ao longo de 30 anos de reforma e abertura, foi testemunha de um progresso econômico e social", segundo o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores chinês, Qin Gang.

Acontece que ainda existem presos detidos por terem participado dos protestos de 1989. Muitos perderam também seus empregos e ficaram para sempre marcados.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, foi duramente criticada como quem lança "acusações sem fundamento" contra a China ao falar sobre esse assunto em comunicado. "Sem fundamento", é ótimo...

Torço para que a China realmente seja , um dia, o que nos pareceu ser na abertura das Olímpíadas de Pequim... Você lembra? Torço, principalmente, pela juventude de lá. Para que possam fazer valer os sonhos daqueles que foram mortos e torturados dentro de uma política que se diz comunista e, acaba por mostrar ao mundo o quanto não prima por seus valores mais genuínos que deveriam alicerçar sua prática e não distorcê-la numa tirania absurda e perigosa que vem sendo exercida no decorrer dos tempos.

Que aquele "rebelde desconhecido" - que muito provavelmente não só foi preso como também assassinado - seja sempre lembrado e que canhões ou armas quaisquer, não passem mais por cima de pessoas completamente desarmadas - que sonham e lutam por justiça social e prática da democracia -; nem na China e nem no resto do mundo. Que essa vergonha não se repita.

Ora, sonhar não é proibido...



Por Tania Nascimento


24 maio, 2009

ABL divulga Prêmios Literários de 2009

No dia 23 de julho, em solenidade no Palácio Petit Trianon, serão entregues os Prêmios de Literatura Infantil, Roteiro de Cinema, Ficção, Tradução, Poesia e o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.

A ABL divulgou os resultados de seus Prêmios Literários para o ano de 2009. O Prêmio Machado de Assis, no valor de R$ 100 mil, foi atribído ao escritor cararinense Salim Miguel, pela comissão presidida por Marcos Vilaça e integrada por Lêdo Ivo, Nélida Piñon, Alberto da Costa e Silva e Moacyr Scliar, na tarde do dia 7 de maio, em reunião plenária na ABL.

O Prêmio Machado de Assis, o que tem mais destaque na Academia, destina-se a consagrar obra de expoentes das letras nacionais. Dentre alguns dos grandes autores que já receberam o Prêmio estão: o romancista Autran Dourado - vencedor do ano passado, o Machado de Assis Ferreira Gullar, Antonio Torres, Wilson Martins, Fernando Sabino, Antonio Candido, Mário Quintana e Lúcio Cardoso.

Os demais prêmios são:

Prêmio ABL de Literatura Infantil: Livro Cordelinho, de Francisco de Salles Araújo, reunindo as histórias: "O Barato da Barata" e "O Tigre que virou doutor";

Prêmio ABL para Roteiro de Cinemas: Rafael Conde, pelo roteiro do filme Fronteira, baseado no romance homônimo de Cornélio Penna;

Prêmio ABL de Ficção: Heranças, romance de Silviano Santiago;

Prêmio ABL de Traduções: Paulo Bezerra, pela publicação de Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoievski, da Editora 34 Letras, e;

Prêmio ABL de Poesia: Livro Lampadário, de Denise Emmer, reunindo poesias concentradas em preocupações com temas universais, como o amor, a morte, o tempo o sonho e a fugacidade da vida.


Fonte: ABL- 11/5/2009

02 maio, 2009

Geir Campos e a geração de 45 [link de atalho]

Amigos,

O Prof. Jayme Bueno postou em seu blog um espetacular texto sobre o poeta Geir Campos.

O texto nos ajuda a contextualizar ainda mais o post que coloquei sobre POETAS DE 45.

Vale a pena conferir!!Link: http://jaymebueno.blogspot.com/2009/04/geir-campos-e-geracao-de-45.html

29 abril, 2009

A RELAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO E LINGUAGEM E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO - Colaboração do Prof. Jayme Bueno



Homem Vitruviano
Leonardo da Vinci, 1490
Lápis e tinta sobre papel
34 × 24 cm
Gallerie dell'Accademia
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

































A RELAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO E LINGUAGEM E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
1 Introdução.
Hoje, quando vivemos novos tempos no modo de ver e de enfocar as diversas áreas do conhecimento, é comum ouvir-se falar de relação entre educação e linguagem, educação e literatura. O que, porém, não nos parece tão fácil é falar desse tema. Como tudo que envolve interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade, conceitos que surgem, transformam-se, ou mesmo desaparecem, e por isso intrincados e complexos, a aproximação entre educação e linguagem e, mais especificamente, entre educação e literatura, também apresenta esse mesmo grau de dificuldade.
Como sabemos pela própria história da educação, não foi sempre assim quanto a se falar do relacionamento entre os diferentes saberes. Cada área, cada disciplina se restringia, para não dizer que cada uma se fechava, em si mesma. O pensamento mudou, mudaram os paradigmas, porque mudou o mundo. As relações das pessoas e das organizações na sociedade agora são outras, diferentes de como eram. Vivemos, segundo dizem, a era da informação.
Esse movimento dialético de mudanças, porém, é de todos os tempos. Na literatura, os autores do Renascimento já poetizavam a mudança do mundo e a não mudança do que eles gostariam que mudasse: o sofrimento, a inconstância do amor, etc.
Vejam-se, como exemplos, estes versos de Camões (1980, v. 2, p. 257):
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades /
Muda-se o ser, muda-se a confiança: /
Todo o mundo é composto de mudança /
Tomando sempre novas qualidades. /
(...)
E, afora este mudar-se cada dia, /
Outra mudança faz de mor espanto, /
Que não se muda já como soía. /
Este artigo insere-se num ambiente de intercomunicação entre saberes, para participar da discussão do ensino e da aprendizagem da literatura. Enfim, é objetivo integrar-se ao estudo da problemática referente à relação entre educação, linguagem e produção do conhecimento.
Na prática, o presente estudo pode dividir-se em duas partes. Na primeira, colocam-se alguns aspectos da relação entre educação e linguagem, ou entre linguagem e educação, na dependência de essa relação ser vista da perspectiva de teóricos da educação ou sob o enfoque de lingüistas. Na segunda parte, apresenta-se a temática em um poema que inter-relaciona linguagem comumente tratada como científica com outra dita poética.
- O poema que será enfocado
A poesia moderna ou aquela surgida após os movimentos de vanguarda do Modernismo podem nos proporcionar, com mais propriedade, esse tipo de aproximação, o que resulta num estranhamento para usar o termo empregado pelos formalistas russos. (EIKHENBAUM, 1976). Segundo esses teóricos, era o estranhamento causado por certo tipo de linguagem, ou, como em alguns casos, a combinação de linguagens. Isso caracterizava a literariedade, ou seja, o ser literário, de um texto. No caso que será tratado é a aproximação ou a convivência de uma linguagem da área das ciências com outra mais conhecida em textos literários ou, especificamente, na poesia.
2 Educação e linguagem.
Barthes, na introdução de Elementos de semiologia, como fizeram os semiologistas e lingüistas de todos os tempos, enfatiza a importância da linguagem na “tradução” de todos os “objetos, imagens, comportamentos”, porque, segundo ele, “qualquer sistema semiológico repassa-se de linguagem”. É mais enfático ainda quando afirma: “o mundo dos significados não é outro senão o da linguagem”. (BARTHES, 1977 , p.12) . Hoje, quase um século após Saussure, pai da lingüística moderna, e mais de quarenta depois do estruturalismo francês são compreensíveis tais afirmações. O mesmo, porém, não acontecia naquelas épocas, em que os estudos lingüísticos se guiavam por orientações historicistas e evolucionistas dos denominados neogramáticos do século XIX. (DUBOIS et al., 1978 e LYONS, 1979).
Wittgenstein, com toda sua complexidade, parece tornar-se claro quando afirma que “o homem possui a capacidade de construir linguagens com as quais se pode exprimir todo sentido”. Para mim, ao menos, volta a ser altamente complexo quando esse mesmo autor escreve: “Toda filosofia é crítica da linguagem” (WITTGENSTEIN, 1994, p. 165). Em ambos os casos, porém, ressalta-se a importância da linguagem. No primeiro, reforça-se a idéia de que os sentidos, ou seja, os significados, no dizer de Barthes, são traduzidos, expressos, transmitidos e construídos pela linguagem; no segundo, parece tratar-se do fato de a linguagem fundamentar toda a filosofia. É a filosofia se fazendo na linguagem e com a linguagem, se esta minha interpretação estiver correta.
De modo geral, os autores, mesmo ao criticar os lingüistas, preocupam-se com a linguagem como meio de comunicação e, também, do aprender, do construir e do receber e transmitir o conhecimento. É o caso, por exemplo, de Bakhtin (1981, p. 106), que, ao procurar explicar pela dialética marxista o sentido da palavra, afirma: “Quando o filólogo-lingüista alinha os contextos possíveis de uma palavra dada, ele acentua o fator de conformidade à norma; o que lhe importa é extrair desses contextos dispostos lado a lado uma determinação descontextualizada, para poder encerrar a palavra num dicionário.” Logo adiante, no seu texto, declara: “Os indivíduos não recebem a língua pronta para ser usada; eles penetram na corrente da comunicação verbal; ou melhor, somente quando mergulham nessa corrente é que começam a operar.”
Tudo isso fica mais claro, quando ele reitera e amplia o campo do seu entendimento de língua: “Os sujeitos não ‘adquirem’ sua língua materna; é nela e por meio dela que ocorre o primeiro despertar da consciência.” (BAKHTIN, 1981, p. 108). É a língua - ele fala de língua materna em oposição a língua estrangeira - que forma a consciência, o próprio indivíduo, porém num ambiente de interação pelo produto da fala, a enunciação. Nas palavras do próprio Bakhtin (1981, p. 109), “A enunciação é de natureza social”.
Sabemos todos da importância que tiveram os estudos de Vigotski para educação. A teoria construtivista promoveu mudanças na escola, nos currículos, na forma de ensinar e, principalmente, contribuiu para o surgimento de novos paradigmas na educação. O construtivismo de Vigotski e de seus seguidores - Luria, por exemplo -, ao lado de outras teorias como o interacionismo de Piaget, alteraram profundamente o modo de ver todo o processo do ensino e da aprendizagem. (POZO, 2002; UCHÔA, 2005; CAMPOS, 2005).
Ao tratar da comunicação, uma das funções da linguagem e fundamental para a educação, Vigotski (2003, p. 7), após criticar teorias lingüísticas que se apoiavam apenas na idéia do signo (a palavra ou o som) como meio de comunicação, afirma: “um estudo mais profundo do desenvolvimento da compreensão e da comunicação na infância levou à conclusão de que a verdadeira comunicação requer significado – isto é generalização -, tanto quanto signos.”
O conceito de “generalização” ao lado do conceito de “simplificação”, Vitgoski aproveita, segundo sua própria declaração, do lingüista norte-americano Edward Sapir. Segundo este último, nas palavras do próprio Vigotski:, “o mundo da experiência precisa ser extremamente simplificado e generalizado antes que possa ser traduzido em símbolos.” (VIGOTSKI, 2003, p. 7).
Dessa forma, Vigotski (2003, p. 7-8) pôde concluir seu raciocínio: somente assim a comunicação torna-se, de fato, possível, pois a experiência do indivíduo encontra-se apenas em sua própria consciência e é, estritamente falando, comunicável. Para se tornar comunicável, deve ser incluída numa determinada categoria que, por convenção tácita, a sociedade humana considera uma unidade. Assim, a verdadeira comunicação humana pressupõe uma atitude generalizante, que constitui um estágio avançado do desenvolvimento do significado da palavra. As formas mais elevadas da comunicação humana somente são possíveis porque o pensamento do homem reflete uma realidade conceitualizada.
No campo mais específico da relação entre linguagem e educação, Rondal (1980, p. 73) declara: “La escuela (...) tiene por objeto el explicitar y elaborar por el lenguaje los principios y las operaciones que se aplican a los objetos (ciencias) y a las personas (humanidades).”. Pela afirmação, pode-se perceber a importância que a linguagem assume para a escola e, consequentemente, para a educação.
Concluindo este tópico, reitera-se o reconhecimento pelo que a linguagem representa e pelo papel que desempenha na construção e na comunicação do conhecimento na escola ou em outra instância em que se ensina e se aprende. Pedagogos, lingüistas, psicolinguistas, como é o caso do último autor citado, educadores de um modo geral dedicam-se ao tema e contribuem com suas pesquisas, seus estudos, suas propostas para o fortalecimento da relação que há entre linguagem e educação.
3. Educação, literatura e construção do conhecimento: uma problematização.
O que se disse sobre a relação entre educação e linguagem poderia se repetir no enfoque deste item, por se tratar a literatura de um produto da linguagem. Porém, como certa especificidade da linguagem, o texto poético apresenta características que lhe são próprias e que podem ser enfocadas de modo específico. É o que se busca fazer nesta parte do estudo.
O problema com que se depara é de como a literatura tem frequentado, ao menos teoricamente, a sala de aula, e que contribuição ela pode trazer para o ensino e para aprendizagem nos diferentes ramos do saber, mais especialmente nas áreas da Educação e de Letras.
Sabe-se por alguns estudos, principalmente dos programas de pós-graduação, que o texto literário, ao lado de textos de outros gêneros, vem aparecendo com bastante frequência, e não só nos cursos das duas áreas referidas, mas em diversas outras. Muitas vezes, tem a função apenas de ilustração, com frases de autores mais popularizados – não populares - como Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, ou letras de compositores famosos. Chico Buarque talvez seja o exemplo mais claro dessa tendência.
Tratando da problemática de se trabalhar com o texto em sala de aula, há diversos trabalhos de mestrado, defendidos em diversos Programas de Pós-Graduação em Educação e em Letras, ou afins. Eles se inscrevem no contexto da produção do conhecimento na área da educação, mas tendo como apoio o conhecimento e o estudo de disciplinas relacionadas com a linguagem, como é a proposta deste artigo.
4. Um poema, uma lição.
O poema Lição sobre a água, que será enfocado, é de autoria do poeta português António Gedeão, pseudônimo de Rômulo de Carvalho (Lisboa: 1906-1997). Licenciado em Ciências Físico-Químicas e em Ciências Pedagógicas, Rômulo de Carvalho, exerceu o magistério em Coimbra e Lisboa em diversos Liceus. Publicou inúmeros livros didáticos, como, por exemplo, Compêndio de Química para o 3.º Ciclo.
Como poeta, seu primeiro livro somente saiu publicado em 1956, embora desde a infância demonstrasse tendências literárias, que foram deixadas de lado até a maturidade pelo envolvimento com a ciência e com o magistério. Foi nessa primeira obra, Movimento perpétuo, que surge o pseudônimo Antônio Gedeão.
Dois anos após, em 1958, surge novo livro de poemas, Teatro do mundo. Transcorreram mais três anos para aparecer o novo livro, Máquina de fogo, e em 1967 lança Linhas de força, que, no ano seguinte, é incorporado aos outros três sobre o título Poesias completas: 1956-1957.
Na literatura, publicou ainda uma peça de teatro, RTX 78/24, em 1963, e uma coletânea de contos, A poltrona e outras novelas, de 1973. Publicou ainda poemas que versam sobre temas científicos.
Novamente, sua produção poética e literária é prejudicada pelas várias atividades científicas e culturais em cargos que passou a ocupar e, também, pela publicação de inúmeras outras obras de caráter científico e pedagógico. Embora não tivesse produzido obra literária, nem especificamente poética, de grande fôlego depois de 1968, nunca deixou de publicar poemas em revistas e jornais literários de Portugal. A sua marca na literatura, na ciência - quer como professor, quer como divulgador – e na cultura portuguesa são inegáveis. Foi uma vida de 91 anos voltada para a profissão de ensinar, que a exerceu como verdadeira missão, e voltada também para o desenvolvimento da ciência em Portugal, que está sempre presente na sua obra.
LIÇÃO SOBRE A ÁGUA - Antônio Gedeão -
Este líquido é água. /
Quando pura /
é inodora, insípida e incolor/
Reduzida a vapor /
Sob tensão e a alta temperatura, /
Move os êmbolos das máquinas que, por isso, /
Se denominam máquinas de vapor./
.
É um bom dissolvente. /
Embora com exceções mas de um modo geral, /
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais. /
Congela a zero graus centesimais /
E ferve a 100, quando à pressão normal. /
.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão, /
sob um luar gomosos e branco de camélia,/
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia /
com um nenúfar na mão.
(GEDEÃO, 1975, p. 244-5.) -
Este poema faz parte do livro Linhas de força, publicado inicialmente em 1967 e, posteriormente, incluído em Poesias completas, de 1968. Linhas de força é a obra poética considerada pela crítica a mais significativa do autor. Sena (1968, p. LXXVI), no estudo introdutório de Poesias completas, declara: “Tomara muitos publicar um livro como este, é óbvio. E alguns dos poemas dele são por certo dos melhores de António Gedeão”. Referindo-se especificamente ao poema que está sendo enfocado, e fazendo menção ao perfeito equilíbrio entre diferentes tipos de linguagens, o mesmo crítico afirma: “No terceiro dos livros, em dois poemas a síntese era perfeita entre a terminologia científica e a linguagem-padrão. Pode dizer-se que, neste 4.º livro tal síntese só se verifica – aliás admiravelmente – num poema (Lição sobre a água)” (SENA, 1968, p. LXXIV).
Iniciando o enfoque do poema pelo título, podem-se deduzir daí duas “lições”. Uma sobre o elemento água, o que reflete um posicionamento científico; e uma outra “lição” que se mostra sobre a água, ou seja, boiando sobre ela.
Na introdução do poema – as duas primeiras estrofes – são expostas em forma de lição, as características da água, numa descrição muito próxima daquela que é comum aparecer em textos de livros científicos. Aí estão presentes as qualidades físico-químicas da água. Há, portanto, uma identificação com o denominado discurso científico. É um texto descritivo, em oposição à segunda parte, claramente uma opção pelo texto narrativo. É o que se denominava discurso objetivo, aquele cujo sujeito seria a própria ciência e não um sujeito da enunciação, numa visão estruturalista, como a de Greimas (1976).
Essa semelhança se ressalta no momento em que se comparam as duas primeiras estrofes do poema com fragmentos de um texto de uma enciclopédia:
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Este líquido é água. /
Quando pura /
é inodora, insípida e incolor. /
Reduzida a vapor, /
Sob tensão e a alta temperatura, /
Move os êmbolos das máquinas que, por isso /
Se denominam máquinas de vapor. /
.
É um bom dissolvente. /
Embora com exceções mas de um modo geral, /
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais. /
Congela a zero graus centesimais /
E ferve a 100, quando à pressão normal.
(GEDEÃO, 1975) -
A água pura é um líquido inodoro, insípido, transparente e quase incolor. (...) Suas propriedades físicas são usadas para a definição de muitas constantes físicas. Funde-se a 100,000º C, sob pressão de 760 mm Hg. (...) Tem grande capacidade calorífica; a 14,5º C, seu poder calorífico é de 1,000 caloria. (...) Reage com os óxidos básicos, formando bases; e com os óxidos ácidos, formando ácidos. Decompõe diversas substâncias, pela reação de hidrólise. Toma parte na constituição de muitos compostos, principalmente sais, formando os hidratos.
(ENCICLOPÉDIA BRASILEIRA MÉRITO, s.d.)
O diálogo entre os dois textos é facilmente constatado, o que nos mostra certa “postura científica” no texto poético de António Gedeão. Essa postura científica, como procedimento, ou com figura poética, apresenta-se de dois modos: primeiramente, pela descrição de um fazer científico - o descrever a água – e pela contraposição de um discurso aparentemente científico a um discurso consagrado tradicionalmente como poético.
Passando para a segunda parte do poema – a terceira estrofe -, que também traz em si uma “lição”, porém de caráter mais subjetivo, e agora não mais num tom de ciência, mas num estilo de aviso, de advertência, próprio dos ensinamentos. É como se chamasse a atenção para o perigo da água ou, então, considerar a água como um local e instrumento de suicídio. Assim, comentando o poema, interpretou Mattos (s.d.), com apoio em Braga. Formalmente, apresenta-se de modo diferente, com nova técnica na construção do texto. Recordando a estrofe, ela é a seguinte:
.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão, /
sob um luar gomosos e branco de camélia, /
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia /
com um nenúfar na mão.
(GEDEÃO, 1975) -
Aqui, como já se mencionou, o gênero é narrativo. As formas verbais - Foi e apareceu - denotam um tempo que passou, característica de tal gênero textual. Como na primeira parte, que se relacionava a um outro texto, o mesmo acontece com esta segunda parte do poema. Agora, a intertextualidade se dá não mais com um texto proveniente da ciência, mas da literatura, mais precisamente com um trecho da peça Hamlet, de Shakespeare:
.
Ao tentar pendurar suas coroas
nos galhos inclinados, um dos ramos
invejosos quebrou, lançando na água
chorosa seus troféus de erva e a ela própria.
(SHAKESPEARE, s.d.)
Mesmo levando-se em conta o fato de se tratar de uma tradução, a semelhança, neste caso, é mais de assunto do que de estruturação linguística. Há uma maior liberdade criativa por parte de Antônio Gedeão na construção do seu texto poético, pela própria natureza subjetiva da narração. Com isso, a ligação estrutural, formal, torna-se menos acentuada.
Com a reprodução e o enfoque do poema Lição sobre a água, de Antônio Gedeão, procurou-se exemplificar a profunda ligação entre educação e linguagem. Mais especificamente, buscou-se mostrar a ligação da educação a um tipo específico de linguagem, a linguagem poética.
5. Considerações finais
A relação entre educação e linguagem é clara, como se viu ao longo deste texto e, pode-se dizer, já pertence ao domínio do saber estabelecido. No ideário de teóricos da educação e de estudiosos da linguagem essa relação é ressaltada e valorizada como intrínseca e fundamental. Nesse contexto, procurou-se mostrar também o aproveitamento que o texto poético faz do tradicionalmente denominado discurso científico como um procedimento, ou seja, como figura poética.
O que pode ficar de “lição”, neste artigo, aproveitando a atmosfera poética do texto de Antônio Gedeão, é que a relação entre educação e linguagem e, especificamente, entre educação e poesia, ou linguagem poética, podem tornar-se elementos constitutivos da construção e da difusão do conhecimento. Portanto, e consequentemente, podem contribuir para o ensino e para a aprendizagem em todos os níveis da educação.

Prof. Jayme Bueno [Blog: http://jaymebueno.blogspot.com/ ]

26 abril, 2009

O Educador Paulo Nathanael / Arnaldo Niskier

APÓS A LEITURA DO ARTIGO, VAMOS DIALOGAR SOBRE O ENSINO MÉDIO?? [Pensar, ao menos...]
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Foi uma cerimônia muito bonita, no auditório do CIEE/SP. Era a posse do educador Paulo Nathanael Pereira de Souza como membro efetivo da Academia Paulista de Letras. Na ocasião, suas varias ações, sobretudo como homem público, foram lembradas pelos oradores, um dos quais, entusiasmado, chegou a chamá-lo de “Santo”.

Conheci de perto a grande paixão de Paulo Nathanael Pereira de Souza pela educação brasileira durante os anos de convívio, no antigo e saudoso Conselho Federal de Educação. Suas intervenções, sempre sábias, constituíram permanente aprendizado. Minha admiração não era só pela figura do presidente do CFE, mas pelo especialista, notadamente em educação média e profissionalizante, que visitei, de uma feita, no Cenafor, também por ele comandado.

Não posso lhes garantir que ele, quanto mais velho ficou melhor. Por uma simples razão: suas ideias jamais envelheceram, como pude verificar ao fazer em parceria o livro “Educação, Estágio e Trabalho” (Editora Integrare), felizmente com muito sucesso. Aliás, devido às suas judiciosas considerações sobre a educação em nosso País, sempre uma prioridade verbal, mas não prática. Diz Paulo Nathanael, agora membro também da Academia Paulista de Letras e da Academia Brasileira de Educação (eleito na semana passada) que “o ensino médio brasileiro tem sido o calcanhar de Aquiles do sistema educacional. Jamais conseguiu definir o seu objetivo.”

Concordo inteiramente com a sua tese de que o segredo do ensino médio no Brasil é que ele não sabe realmente para que existe. Tanto isso é verdade que passou a ser a grande preocupação das autoridades no MEC, empenhadas na associação inteligente da formação propedêutica com a necessária visão profissionalizante. Todos concordamos que o ensino médio não pode ser apenas um corredor de acesso ao ensino superior. Novas necessidades sociais, econômicas e culturais obrigam a esse casamento, sem esquecer que o humanismo deve ser prevalecente, pois se deseja a formação integral do educando – e isso não pode ser secundarizado.

Defendemos, em conjunto, a melhor formação dos professores. Tudo o que é ensinado hoje na escola deve ser acompanhado da explicação clara da sua aplicabilidade na vida real. “Quando fui reitor de uma universidade, em São Paulo, não me cansei de proclamar essa necessidade.” – diz o mestre Nathanael, com a firmeza com que defende as suas convicções. Outro fato marcante em sua personalidade é a defesa intransigente do valor dos profissionais brasileiros. Por que essa mania de exaltar somente o que vem de fora, como se ainda vivêssemos a fase de predomínio dos índios botocudos?

Não se pode deixar de admirar o educador Paulo Nathanael Pereira de Souza, também, pelo muito que fez na direção do Centro de Integração Empresa-Escola Nacional. Foram anos de grande produtividade, com a incorporação de um número recorde de estagiários e aprendizes, com uma particularidade essencial: todos estão sendo orientados com uma visão moderna, para o futuro, com o pleno emprego da educação à distância e de outras tecnologias de ponta. É um brasileiro que merece todas as homenagens, um dos melhores amigos que fiz na vida.

*****Jornal do Commercio (RJ), 13/4/2009

13 abril, 2009

Poetas de 45


Antonio Olinto




Estamos em 1945, a guerra terminara em 8 de maio. Não sabíamos que ela ia terminar. Mas, no fundo, sabíamos. Sabíamos porque desde o fim de abril, um grupo de jovens poetas, preparamos uma exposição de poesia. Isto mesmo: uma exposição de poesia. Datilografamos poemas em folhas de papel, emolduramo-los como se quadros fossem, e penduramo-los nas paredes da sala de entrada da Escola Nacional de Belas Artes na Rua Araújo Porto Alegre do Rio de Janeiro. Pertencíamos ao grupo: Antonio Fraga, Luciano Maurício, Aladir Custódio, Ernande Soares, Hélio Justiniano e este que vos fala. Conseguimos imprimir um catálogo, para o qual escrevi uma apresentação, com um poema de cada expositor. Inauguramos a mostra em 10 de maio de 1945 (dia do meu aniversário). Era a primeira demonstração pública da geração que viria mais tarde a ser chamada de Geração de 45. Verdade é que; antes dessa data, Nelson Rodrigues lançara o seu Vestido de noiva, Clarice Lispector publicara Perto do coração selvagem e Guimarães Rosa ganhara prêmio, em 1936, com os contos de Sagarana, só publicados mais tarde. Em todos eles havia a marca dos novos tempos. Que veio a ser afinal a Geração de 45? Terá sido simplesmente a negação da Semana de 22? A Semana já havia feito o que tinha de fazer, já havia conquistado o que tinha de conquistar. Mais importante, ainda, entre 22 e 45 houvera uma nova guerra mundial e uma tecnologia que mudava por completo o equilíbrio político das nações.
Era natural que a poesia de 45 abandonasse o poema-piada, que fizera parte do protesto de 1922. Tivéramos um holocausto e uma verdadeira matança que reduzira a população de muitos países. Passáramos por uma ditadura de 15 anos. O ano de 1945 surgia como o início de uma libertação. Estávamos prontos para a mudança. Foi então que um jovem poeta, nascido no Espírito Santo e residente no Rio de Janeiro a partir dos 11 anos, com experiência de vida no mar, como piloto da Marinha Mercante Brasileira, apareceu com seus poemas na face do país. Era uma voz nova. Geração de 45? Pelo calendário, sim – mas não só e nem tanto. Seu lugar em nossa literatura era muito pessoal para ficar assim adstrito. Antes de tudo, Geir Campos escreveu sob um primado ético. Estaria mais perto da poesia dos sucessores de 22, o Jorge de Lima dos sonetos, Jorge e Murilo de Tempo e eternidade e o Carlos Drummond de Claro enigma, publicado um ano depois do livro de estréia de Geir. Depois da famosa e infeliz classificação de José Guilherme Merquior, chamando-a de "dege(ne)ração de 45", muito poeta desejou afastar-se da categoria, tomando-a com isto, pouco atraente. Houve, sim, uma geração de 45, em que estiveram Tiago de Melo, Lêdo Ivo, Paulo Mendes Campos, Antonio Rangel Bandeira e o injustamente esquecido Nilo Aparecida Pinto, entre muitos outros. Aconteceu que a referida geração acabou espremida entre a maré da Semana de 22 e a eclosão do movimento concretista de meados dos anos 50, em que Merquior estava inserido. Nada disso, porém, tem muita importância. A poesia de Geir Campos é de uma clareza tal que se destaca, no período de sua vida, como das coisas mais sérias que a literatura brasileira teve. Suas palavras são as de todo dia, seu ritmo escorre com facilidade, seu significado fica na memória. Eis os oito versos de seu poema Tarefa:
"Morder o fruto amargo e não cuspir/ mas avisar aos outros quanto é amargo,/ cumprir o trato injusto e não falhar/ mas avisar aos outros quanto é injusto,/ sofrer o esquema falso e não ceder/ mas avisar aos outros quanto é falso;/ dizer também que são coisas mutáveis.../ E quando em mitos a noção pulsar/ – do amargo e injusto e falso por mudar,/ então confiar à gente exausta o plano/ de um mundo novo e muito mais humano".



Jornal do Brasil, 5/4/2009.
Imagem disponível no Google Imagens

07 abril, 2009

A temática aliança das civilizações

Candido Mendes de Almeida


O Programa da Aliança das Civilizações depara uma circunstância nova no seu horizonte imediato. Ou seja, a do advento do governo Obama, que afasta o recrudescimento da pespectiva americana num fundamentalismo ameaçador em defesa do Ocidente, no seu impacto sobre a "guerra das religiões".

Avança também o reconhecimento dos limites do terrorismo intenacional, a partir de um enfoque realista, que debata a visão crítica da hegemonia, tal como avançada na última década.

Importa, e já, num quadro dos Direitos Humanos, salientar a garantia crucial das diferenças de identidade, nas culturas ameaçadas pela terraplanagem de um progressismo, vivido como um álibe das relações de dependência entre centro e periferia, passadas à globalização. O essencial é superar a síndrome do 11 de setembro, que nos levou à coexistência com o permanente medo, a ponto de comprometermos a visão da alteridade social, e do respeito às subjetividades coletivas, fora dos simulacros em que as pode reconstruir uma razão universal, desatenta ao concreto do processo histórico.

O avanço do terrorismo específico do século XX é da negação do respeito a essa identidade, violentada pelo colonialismo dos últimos séculos, nascidos do monopólio civilizatório de que se investiu o Ocidente. O trabalho à nossa frente vai além dos mea culpa, tal como do arrependimento europeu, frente à escravidão ou à vitimização das culturas que viveram esta dominação chegada à sua visão de mundo e seu estilo de vida.

No quadro, hoje, do respeito às autonomias culturais, inclusive dentro do próprio Ocidente, organizações como a Academia da Latinidade querem frisar, tal como no mundo islâmico, as diferenças internas dessas dominantes de identidade. E por aí mesmo dissociar o "vis-à-vis" de nosso tempo de determinates geopolíticas históricas, e entender, por exemplo, a estratégia de um mundo mediterrâneo, que permita o enlace com a Turquia e o Oriente Médio, ou compreenda, numa legítima helenística, o que seja hoje o mundo Atlântico e a América Latina, passando ao Mar Aberto.

E é esse mundo das diferenças, no ganho de sua voz, que permitirá ao mundo do pós 11 de setembro sair das polaridades sem remédio em que possamos repetir a Guerra Fria em contrapontos estéries como o do centro e periferia. A pressão desde agora pela diferenciação ocidental dissociada, pela latinidade, do universo saxônico cria cabeças de ponto para o futuro pluralismo de encontro, fora da convensão do que seja o outro e os fatos consumados de um confronto.

No empenho de uma globalização liberada da hegemonia, a afirmação das identidades coletivas contemporâneas calça-se também sobre o patrimônio pré-ocidental da América Latina, nos reclamos da interculturalidade aymara ou quetchua nos países andinos.

Da mesma forma, o clamor pelos direitos humanos se torna a primeira plataforma para o universal do diálogo na atualidade, permitindo um consenso crescente quanto aos crimes contra a humanidade, do genocídio à tortura.

Não é sem razão que o potencial de uma iniciativa como a da Aliança das Civilizações tenha a Espanha ou a Turquia como fiadoras desses desbalizamentos dos universos de poder em que atravessamos o século. Seu enfoque e iniciativa assentam a ótica por onde pode começar o novo de uam visão realmente prospectiva, e dialética dos macroconflitos de nosso tempo.


Jornal do Commercio (RJ), 3/4/2009

31 março, 2009

A questão da observação.


Todas as pessoas sensíveis, não apenas os Educadores, sabem que a observação é a chave da "avaliação". Esta avaliação está entre aspas porque não diz respeito a uma avaliação crítica apenas. Mas a uma avaliação que busca conhecer, saber melhor dos detalhes, que fazem toda a diferença entre uma e outra criatura humana. Seja ela criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso.
A observação, especificamente das crianças, num momento de lazer; num momento lúdico - principalmente por serem crianças - as revelam tais como são, sem artifício algum; inibidas, desinibidas, arredias, sociaveis, com espírito de liderança, apáticas e, também, com suas genialidades que, sem uma observação atenta, tais peculiaridades passam desapercebidas ...
O autor da crônica que vou postar captou toda uma questão Educacional Pedagógica - importantíssima - sem nem se dar conta, pois sendo um cronista, seu olhar é observador por natureza.
Não existe ensino aprendizagem sem o recurso da observação. O professor pode errar feio em sua avaliação, planejamento e estratégias.
Tal assunto me remete ao texto de Mark Twain : "O camelo extraviado" - que postei no meu outro blog; No rastro da Poesia... http://norastrodapoesia.blogspot.com/2008/07/o-camelo-extraviado.html
Vamos, então, a Crônica da Semana do Café Impresso - do Cronista Antonio Caetano.
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Domingo, 29 de Março de 2009
O show do Artur
O Artur é uma figuraça! Deve ter uns três anos, mas o seu prazer não é andar nessas máquinas infantis que se espalham pelos shoppings. Não! Ele gosta é de vê-las funcionando. A mãe coloca a ficha e o Artur começa a correr em volta da máquina sob o olhar preocupado da mãe, temerosa que o menino acabe sofrendo um acidente. Mas ele parece atento aos riscos pois, ao mesmo tempo que se curva e agacha e espicha todo para acompanhar os detalhes do movimento da nave espacial que sobe e desce e vai e vem, esquerda e direita, para cima e pra baixo, olhando-a por todos os ângulos possíveis, o Artur também foge dela e se desvia e esquiva, enquanto comenta com a mãe numa linguagem muito expressiva, cheia de exclamações de surpresa e êxtase, mas que só eles dois entendem. Quem passa e calha de prestar atenção na cena ou não entende nada ou pára discretamente para assistir o show do Artur. Outro guri chega com o pai e os dois parecem dispostos a esperar pacientemente a sua vez, mas a mãe do Artur logo oferece: - Se você quiser, pode colocar o seu filho no brinquedo... O que o meu gosta mesmo é de ficar olhando... Penso sentir certo tom de resignada estranheza na voz da mãe de Artur, como se o gosto do menino fosse de uma bizarrice incompreensível... Talvez seja só um pouco de enfado por ter de novamente repetir a mesma oferta e a mesma explicação, o espírito já pronto para responder a alguma réplica cheia de ironia ou espanto. Mas o pai do outro menino simplesmente atende a sugestão da mãe do Artur e coloca o filho na cabine da nave - para alegria redobrada do Artur que agora também se dirige ao piloto em sua linguagem alienígena! O outro menino está visivelmente constrangido com a quebra da ordem previsível e olha para o pai com a expressão universal de quem não está entendendo nada. E eu, ali ao lado, tirando uma xerox, encantado por ter o privilégio de testemunhar os primeiros passos de um gênio. Porque [...]
Você pode continuar a leitura no Café Impresso :
Podem comentar aqui ou lá, tanto faz.
Para os educadores ou interessados no assunto, este texto dá um "bom caldo".
Grande beijo,
Taninha

28 março, 2009

Prisões especiais

Olá amigos!

Vocês acham que alguém que se iguala aos criminosos - como um criminoso - deve ter direitos especiais porque teve acesso à cultura, ou melhor, aos estudos e obteve um diploma de nível superior??

A Justiça é justa neste sentido?

Achei importante o artigo de Carlos Heitor Cony e trouxe o assusnto para provocar, quem sabe, um debate.

Abraços!!
Taninha


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Carlos Heitor Cony


Entrou em discussão o caso das prisões especiais. Pelas novas normas, elas serão extintas genericamente mas as exceções são tais e tantas que o privilégio continuará sendo adotado na prática. Resumindo: só serão encaminhados aos presídios e celas de delegacia aqueles que não têm costas quentes.
Apesar de minha ignorância em todas as matérias, amplio a ignorância pessoal metendo a colher em mingau que não pretendo comer. Dito isto, direi mais. Segundo recente decisão da Justiça, o réu só é considerado criminoso após o julgamento do último recurso a que terá direito. Acontece que o réu pode ser qualquer um, do presidente da República ao empurrador do carro alegórico da Beija Flor. Condenados em última instância, tanto a autoridade como o operário perdem o cargo respectivo, retornam à situação de cidadãos comuns, sujeitos a lei comum, que pune com prisão proporcional ao crime cometido.
Se um presidente da República matar ou roubar, uma vez condenado, perde a condição de autoridade, é destituído do cargo e como cidadão comum sujeito às mesmas penas e condições de qualquer outro criminoso. Quem irá para a cadeia não mais será um presidente da República, mas um criminoso comum.
O mesmo raciocínio se aplica aos ministros, que são cidadãos comuns exercendo provisoriamente um cargo público do qual podem ser destituídos por diversos motivos, inclusive por ter cometido crime comum.
A prisão especial estabelece na prática um privilégio que contraria o princípio básico de que todos são iguais perante a lei. Evidente que, em caso de prisão preventiva, o princípio da pena pode ser flexibilizado até que venha a sentença definitiva. Mas uma vez proferida por quem de direito, não dá motivo para a excessão.

Folha de S.Paulo (SP) 15/3/2009

14 março, 2009

Efeito Perverso


Arnaldo Niskier

Para muitos, o assistencialismo é uma prática diversionista, pois camufla as necessidades reais profundas da nossa sociedade. É sempre difícil ao observador criticar os seus efeitos imediatos. Veja-se o caso do Bolsa-Família, de que tanto se orgulha o governo Lula. Há mais gente se alimentando, sobretudo nos estamentos mais pobres da população – e isso para os pragmáticos é o que interessa. No entanto, isso tudo tem um caráter eminentemente efêmero. Pode acabar com uma penada oficial – e o que restará? Possivelmente, mais gente revoltada, dada a perversidade do sistema implantado nos últimos anos.
Há sintomas de que a evasão no ensino médio, especialmente no Norte e no Nordeste, pode estar associada a essa ilusão de atendimento. Famílias recebem R$ 130 e desestimulam os jovens em relação aos estudos, dando preferência ao trabalho precoce (quando existe) ou até mesmo demonstram leniência quanto ao afastamento da escola, sem compreender a sua importância para o futuro dessa geração de brasileiros. Pesquisas estão sendo feitas, mas ainda são incipientes.
A educação brasileira, universo de 60 milhões de pessoas, vive de espasmos. Tivemos a fase de crescimento do ensino fundamental. Agora, é a vez da "revolução" na educação média. Pelo menos, é o que anuncia o MEC.
Uma das inovações pretendidas é a introdução do módulo semipresencial, com o limite de 20% da carga horária total. A medida, para ser adotada nas redes pública e privada, precisa de amparo legal. Depende de autorização das respectivas Secretarias Estaduais de Educação, para a oferta de módulos complementares de estudos, com ênfase nas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC).
Na tarefa de reforço aos conhecimentos dos alunos, isso ainda não é uma garantia plena. Se as aulas forem mal dadas? Mas essa janela poderá significar um avanço apreciável, se bem conduzidas as novas tecnologias. Será uma sacudida nos currículos convencionais, o que advogamos há muito tempo. Aulas expositivas não são exemplo de mesmice? Fala-se também em exaustão do modelo.
Sabemos que no Brasil há 3,3 milhões de estudantes no ensino médio, com um dado trágico: a metade não conclui os estudos. Por quê? A escola não atrai?
Quando os olhos se voltam para a qualidade, temos outro dado aterrador: 50% dos matriculados, nesse nível, frequentam o ensino noturno, com a sua reconhecida precariedade. Se a Sociedade do Conhecimento exige 12 anos de boa escolaridade, temos muito o que se fazer. Há premente necessidade de valorização de professores e diretores, estes em geral entregues ao deus-dará. Quando o ensino é profissionalizante (só 8% das escolas de nível médio têm essa característica), os cuidados devem ser ainda mais especiais.
Aulas de redação e reforço são aconselháveis, aproveitando-se o avanço tecnológico assegurado pela internet rápida, presente em cerca de 10 mil escolas públicas. O emprego da educação à distância, permitido por lei, vale para casos emergenciais ou de complementação de estudos. Isso tudo merece muita reflexão.


Jornal do Commercio (PE) 13/3/2009

28 fevereiro, 2009

Alexandre Spinelli


Alexandre Spinelli,
é um escritor de Porto Alegre - RS , 38 anos, que pode se autodefinir assim: "A vida, sem nome, sem memória, estava sozinha. Tinha mãos, mas não tinha em quem tocar. Tinha boca, mas não tinha com quem falar. A vida era uma, e sendo uma era nenhuma.Então o desejo disparou sua flecha. E a flecha do desejo partiu a vida pela metade, e a vida tornou-se duas.As duas metades se encontraram e riram. Ao se ver, riam; e, ao se tocar, também." Eduardo Galeano[1]. Em seu trabalho de escritor, escreve poesias, contos, crônicas e textos teatrais[2]. Uma de suas crônicas me ecantou. Sua sensibilidade achou em minha subjetividade uma espécie de catarse. E, também, uma chamada de atenção aos educadores para que, além de proporem a arte, proponham também o respeito a esta tão importante forma de linguagem que sai do cerne daquele que se propõe a fazê-la com seriedade. Vaias e risos cruéis só desestimulam a criatividade. Na infância é algo muito comum. Mas, pode acarretar danos psicológicos para uma vida inteira. Nós mesmo - adultos - nos ressentimos dos comentários irônicos e maldosos... E, principalmente, da arrogâcia dos que se acham muito melhores e nos ignoram. Inclusive, falo dos famosos. Pois, há na internet talentos a olhos vistos que são desconsiderados por pessoas que têm poder na mídia de trazerem tais artistas ao mundo aqui fora. Porém, não o fazem... Enfim... Passemos à belíssima e poética crônica de Alexandre Spinelli.
O Palhaço Nu




O palhaço perdeu o nariz e se sentiu nu. Estava ali, sozinho, no centro do palco, luzes nele, quando se viu assim: nu, sem o nariz. Nunca a platéia fora tão grande, nunca tantos olhares se dirigiram para ele. E ele ali, nu, e a platéia e as luzes e o palco enorme à sua volta. E ele, centro da vergonha. E riam e todos riam e riam muito. E ele não achava graça alguma. Só vergonha e constrangimento. E riam às gargalhadas dele. Quanto maior seu constrangimento, quando maior sua vergonha, mais riam. Ele só fazia esconder seu nariz com as mãos, como Adão. E se sentia tão nu, ali no centro, mãos cruzadas sobre o nariz, que se viu trançando as pernas, encolhido: algo além do sexo estava exposto. Estava ali, totalmente desnudo e, em troca, recebia risos, os risos que ele nunca quisera. Já sem saber como sair daquela situação, viu uma criança escapar da platéia, correr ao seu encontro e lhe pular nos braços. E foi obrigado a tirar as mãos do rosto, para que a menina não caísse e, assim, lhe pegou no colo. Ela o olhou bem dentro dos olhos e sorriu: - Sr. Palhaço, o senhor não precisa ter vergonha. Nós te amamos além do nariz. Não é ele que te faz palhaço. Ele sorriu, meio desapontado, constrangido, sorriu. Ela subiu as mãozinhas até seu nariz, para lhe tapar. Suas mãos formaram uma conchinha sobre ele. Bem redondinha. Depois lhe olhou novamente e sorriu. Suas mãos eras vermelhas, brilhantes, seus olhos também. - Palhaço, vai, ria, faça com que riam contigo, da tua arte e nunca mais de ti, da tua vergonha. E, enquanto falava, ela foi sumindo. Restaram suas mãozinhas vermelhas, restaram seus olhinhos, sempre à sua frente. Sempre que hesitava, os olhinhos da menina anjo estavam ali, sorrindo, incentivando, lembrando que ele devia seguir adiante. E o palhaço sorriu e riu e gargalhou. E foi tanta alegria, que toda platéia chorou.
http://escritosporescrever.blogspot.com/ Alexandre Spinelli visite o site

[1] Texto que consta em seu perfil do Orkut.
[2]Material que consta no site do escritor.
Agradeço a Alexandre a autorização da postagem em meu blog. E, convido-os a visitarem o site do escritor.

20 fevereiro, 2009

Leitura e Pobreza



Sou leitora assídua do cronista Antonio Caetano. Antonio mantém seu blog há 10 anos, o Café Impresso. Hoje li este texto e achei interessante postá-lo aqui, pois - de fato - trata-se de uma verdade... Porém, observações podem e devem ser feitas.


Leitura e pobreza


Antonio Caetano


Uma das maiores tolices sobre o baixo índice de leitura dos brasileiros ouvi agora na TV, num documentário da TVE sobre a biblioteca de José Mindlin, foi dita por Antonio Candido. Segundo ele, o brasileiro lê pouco porque o país é economicamente injusto.
Depois até gostaria de pensar mais longamente sobre as causas da aversão à leitura dos brasileiros, mas a falta de dinheiro é a menor delas. Cito a mim como exemplo: há anos que só compro livros em sebo. Raramente gasto mais do que 20 reais em um livro, preço pago por uma edição em capa dura de Os Lusíadas, publicada como parte das comemorações do sesquicentenário da Independência. Mas [...]



Você poderá continuar a leitura no blog "Cafe Impresso" do cronista Antonio Caetano:



http://cafeimpresso.blogspot.com/2009/02/leitura-e-pobreza.html

13 fevereiro, 2009

HF nas "Cordas de Correspondência (releitura)"


Hercília Fernandes
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Autora de versos, imagens e canções. Professora no curso de Pedagogia (CERES / UFRN); Mestra em Educação (PPGED / UFRN) e Especialista em Ed. Infantil (UFRN).
É, resumindo, uma grande educadora e poetisa desse Brasilzão de meu Deus. De Caicó – RN . Cidade onde nasceu e passou sua infância, adolescência e mocidade; lugar onde vive.
Hercília é uma dessas gratas surpresas que a internet nos reserva. Somos amigas. Aprendo muito com ela sobre Literatura, Poesia e Educação. Nunca nos encontramos pessoalmente, mas nutrimos um carinho enorme, uma pela outra, como se fôssemos duas irmãs. Carinho e respeito.
Sou fã de carteirinha de HF e tenho todos os seus livros já publicados e ainda um CD com seus poemas traduzidos em canções. Lindo demais! Poemas em canções que falam com delicadeza e beleza das coisas do nosso lindo Nordeste.
Esta breve Biografia é para falar de sua postagem “Cordas de Correspondência (releitura); que se encontra em seu blog HF diante do espelho.
Em conversa informal, Hercília fala que o poema discute "paradigmas e liberdade de expressão na criação", através de uma abordagem histórica e da adoção de uma linguagem poética, cujo objetivo é levar o leitor à reflexão dos consensos e preconceitos existentes nos valores dos escritores. Já a linguagem, no poema, busca unir formalidade e ruptura a qual - exatamente - pretende acentuar que ambas não são divergentes, porém os valores sobre como se pensam os padrões de criação é que precisam e devem ser repensados; como, por exemplo, no tocante à formalidade da linguagem e à métrica, no uso de rimas e à valorização da oralidade. A ruptura, por sua vez, acontece na irregularidade dos versos, na ausência de vírgulas, letras maiúsculas, etc... Sobretudo na apresentação de um flexível olhar sob o processo criativo aliado a antigas fórmulas de composição, como o uso de aliterações que causa movimento, ritmo e leveza lúdica ao poema.
Na exposição poética do tema, o canal de comunicação é o próprio fazer metalinguístico, já que os versos pontuam, historicamente, os valores inerentes à criação literária, estabelecendo analogias com algumas características existentes nas correntes literárias brasileiras.
Convém ressaltar que essas cordas de correspondência é uma síntese de diálogos travados com Fernando Cisco Zappa - no blog Novidades & Velharias. Zappa é formado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, reside em Belo Horizonte, e difunde sua prosa e poesia no blog Cisco Zappa. Passemos ao poema:

Cordas de Correspondência (releitura)
(Para todos os leitores e poetas que por essas águas repousam os olhos).
nessas cordas de correspondência
fervilha formalidade em padrões de literariedade
seja de ruptura ou de tradição
desde que não se reprimam possibilidades
e se afirmem ditaduras com normas obscuras
de uma entulhada convenção


o que se busca é a existência da palavra
com letras alvas / obtusas ou à bastão
na voz do lírico / do filósofo / do telúrico /
do profeta ou do pagão


pois que venham os aluísios / os machados / os fabrícios
e os freis da santa rita durão

os simbolistas com chumaços de fumaça / de sumos /
de uma amálgama ou dulcíssima digestão

os modernistas / os regionalistas / com seus travos e desagravos
nas espingardas / nas alpargatas da Revolução

e os neoconcretistas com ausência de verso / de metro
e anuência de berro de significação


pois que nessas cordas de correspondência...
só se nega a linearidade
da opressão!

(Hercília Fernandes)








Bem, eu enquanto educadora, fiquei maravilhada com essa "prosa" entre os dois poetas e, comentei o seguinte:

"Oi, amiga Hercília. Diante de um texto assim, só me resta aplaudir e, de pé... Você simplesmente conseguiu reunir num só poema tantos e tantos temas e conceitos acerca da LINGUAGEM que, um bom seminário, em um só dia, não daria conta. É um hipertexto sem links. Uma associação de idéias e analogias em versos. Transmitir conhecimento usando a poesia é espetacular. O texto é riquíssimo. Brilhante, amiga. Dá orgulho ser Educadora e saber que no Brasil há profissionais assim. Parabéns! Grande abraço, Taninha."


Não posso deixar de parabenizar também o poeta Fernando Cisco Zappa pela visão de linguagem e ludicidade de seus poemas.


Abraços fraternos a ambos,
Taninha Nascimento.

11 fevereiro, 2009

Senhor das letras

Dedico este texto aos , também mestres, Hercília Fernandes e Jayme Bueno e ao amigo Sidney por terem me incentivado a continuar com os meus blogs.

É o primeiro texto que posto desde o falecimento de meu pai. Fato que me deixou profundamente abatida e sem ânimo para fazer este trabalho - que apesar de amador - despende tempo e dedicação.
Não me considero nem poetisa nem escritora, mas tudo que escrevi até hoje foi com amor e sinceridade. Meus amigos me mostraram que é isso que importa. Então, estou recomeçando pelo blog No Rastro da Educação que, na verdade, tem mais textos escritos por amigos colaboradores e, textos que leio e acho que serão do interesse dos da área [e simpatizantes, rs].

Não tenho muitos amigos, mas os que tenho me são caros e raros. Obrigada a estes citados e aos demais que , de alguma forma, tentaram me consolar dessa dor terrível que é a da perda de um ente tão amado e querido.

Taninha
Senhor das letras
Evanildo Bechara tinha 11 anos quando cometeu seu primeiro erro de tradução. Viajando de Pernambuco para o Rio de Janeiro, de navio, o garoto que se tornaria um dos gramáticos mais famosos do Brasil fez uma parada em Salvador.
Entrou num restaurante e pediu um vatapá. O garçom perguntou como ele queria o prato. Bechara respondeu: "bem quentinho", como era costume fazer-se em sua terra para determinar a temperatura da comida. Acabou tendo de engolir um bocado com muita pimenta. Foi então que as lágrimas brotaram de seus olhos.
"Aprendi na pele que "bem quentinho", na Bahia, era "bem apimentado". Por conta desse episódio e de outros que vivi quando minha família me mandou para o Rio para estudar, passei a me interessar pelas diferenças que a língua portuguesa tem em diferentes lugares. Aí virei professor, viajei, dei aulas no exterior, lancei meus livros e cheguei aqui", resume.
Bechara, 80, hoje ocupa a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 2000, e tem uma dura tarefa pela frente. A partir de 1º de janeiro, quando as regras do Novo Acordo Ortográfico entrarem em vigor em oito nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, será ele a autoridade máxima no Brasil para decidir as possíveis querelas e pendências com relação ao modo como os brasileiros terão de passar a escrever.
"Não me sinto confortável nessa posição. É muito incômodo. E é claro que a interpretação que fiz está sujeita a erros. Só não erra quem não faz", disse em entrevista à Folha, na sede da instituição, no Rio.As regras têm como objetivo unificar as diferentes grafias que o português tem nos países em que é língua oficial.
Elas começarão a ser aplicadas em janeiro de 2009, mas as atuais continuarão sendo aceitas até dezembro de 2012.
No caso brasileiro, as principais mudanças serão a eliminação de alguns acentos e do trema e a adoção de outras regras para a hifenização (leia ao lado). "Tem gente fazendo tempestade em copo d’água. Já passamos por cinco reformas e nunca houve um grande trauma. E mais, o Brasil sempre foi quem mais cedeu até hoje. Nesta reforma, está acontecendo o contrário, os outros países, Portugal principalmente, é que estão cedendo mais", diz.
De todas as mudanças, as que regulam o uso do hífen têm causado mais polêmica. Bechara explica que a idéia, de um modo geral, foi a de "suavizar" sua utilização. "Como um homem comum, que não é um gramático nem tem formação técnica sobre a língua, pode saber, por exemplo, que uma expressão é um substantivo que em outros casos pode ter outra função? Ao tirarmos os hífens, estamos facilitando a sua vida."
Contexto
O gramático explica que o espírito das novas regras é deixar que o contexto explique aquilo que a ortografia não alcança.
É o caso, por exemplo, da contestada retirada de acento de "pára", do verbo "parar".Como diferenciá-lo da preposição "para"? "Bem, quando se diz "manifestação para avenida", fica bastante claro que se trata do verbo, porque os outros elementos na frase levam a essa dedução", diz.
O caso dos ditongos que perdem o acento, como "idéia", também causaram estranhamento. "Não é possível termos duas grafias diferentes para o mesmo tipo de formação. Por que "aldeia" não tem e "idéia", sim?" Bechara acha que a retirada do acento não vai confundir, por exemplo, crianças em processo de alfabetização. "O primeiro aprendizado de uma pessoa é sempre imitativo. Depois vem a reflexão. Quando ela for aprender a escrever, já saberá a diferença de pronúncia das duas palavras sem que seja necessário usar um sinal gráfico."
Para Bechara, a reforma ortográfica é necessária para defender a língua portuguesa. Trata-se do único idioma falado por um grupo majoritário -mais de 230 milhões de pessoas- no mundo a ter duas grafias diferentes. "É essencial que o português se apresente internacionalmente com uma única vestimenta gráfica. Para manter o prestígio e para que seja melhor ensinado e compreendido por todos", conclui.



Folha de S. Paulo (SP) 29/12/2008

31 janeiro, 2009

A crise na janela - José Sarney

Baía de São Marcos em São Luís
Independentemente de qualquer outra questão, admiro quem sabe escrever... Entretanto, sei que quem sabe escrever está longe..., muito longe de saber tudo e de ter sempre razão. O SER LETRADO sempre estará abaixo do SER... SEMPRE! Deixo aqui, portanto, uma homenagem a minha avó - que feneceu aos noventa e seis anos "analfabeta e pouco letrada". Uma das mulheres mais inteligentes, sábias e honradas que conheci. Minha fascinação por ela se dá por um único e especial motivo: ela me ensinou - sem dizer nada - a, de fato, fazer o bem sem olhar a quem [não digo que aprendi, longe disso!!! Preciso - sempre - voltar às "lições de casa". Esforçada, eu sou!...

Bem, se o leitor amigo acha que isso nada tem a ver com política, se engana!! É tudo o que falta!! Falta fazer o bem [comum] sem olhar a quem [não apenas aos amigos e parentes; tampouco a si próprio!].
Ah... eu amo e odeio política!!! Amo e odeio o discurso!! Amo e odeio a palavra [humana] escrita ou falada!! Posto ser arma perigosa - pode levar ao óbito por assassinato ou suicídio...
Ah, Sêneca... Ah, Senado... Ah, Sarney...

O post abaixo é uma reedição.
Taninha Nascimento [21.07.09]

Oi, amigos... Crise é uma assunto "velho" e o artigo do início do ano, mas achei que Sarney se colocou de maneira poética e trouxe informações interessantes que passam desapercebidas. Por isso , a postagem. Beijos e, aproveito para agradecer aos amigos as palavras de conforto e carinho. Eu estou "bem"...
Muito obrigada.
Taninha
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Ano novo, dores de cabeça novas. Vim passar o Natal e o fim de ano em São Luís. Minha casa tem uma vista para o mar, de frente para a baía de São Marcos, onde ficam fundeados os navios que vão para o porto da Madeira, da Vale do Rio Doce, ou Itaqui, terminal de carga geral.
Um dos meus hábitos, ao levantar, sempre foi contar os navios fundeados. Chegaram a mais de 30, e nos davam euforia pelo desenvolvimento do Estado. São Luís é hoje o segundo porto do Brasil, pois, com sua posição estratégica e profundidade, pode receber navios de qualquer tonelagem. Agora, abro a janela e vejo, em vez dos 30 navios, apenas um solitário barco envolto na bruma de sal que levantam do mar os ventos alísios ainda presentes neste dezembro sem chuvas.
Meu neto, vendo-me com os cotovelos na janela, olhar distante, me perguntou o que observava. Respondi: “Uma coisa de que muito se fala, mas nunca tinha visto: a crise.”
Ela fez o porto parar e os navios desaparecerem. Pelo Maranhão, exportamos mais de 110 milhões de toneladas de minério de ferro in natura e em pelotas, alumina e alumínio, além de soja, milho, óleos vegetais refinados, arroz e babaçu. É o terceiro saldo de exportação da região, a contribuir para os bons números de nossa balança comercial.
Para que esse volume seja movimentado, há um apoio logístico de estradas de ferro, dezenas de comboios imensos de 200 vagões rodando dia e noite, milhares de operários, lavra, energia e estradas.O Estado do Maranhão tem hoje a melhor infraestrutura da Região Nordeste, com a maior fábrica de alumínio do mundo, da Alcoa, e três importantes estradas de ferro: a de São Luís a Teresina, no Piauí, de 450km; a que vai a Carajás, no Pará, de 860km; e a Norte-Sul, que atravessa todo o Maranhão e passa para o Estado do Tocantins, até Araguaína.
Foi preciso vir aqui para ver pela janela aquilo que os economistas viram: a crise. Devemos vigiá-los e fiscalizar os remédios que eles prescrevem. Se falharem, eles que treinem o corpo para ter agilidade parecida com a do Bush, a esquivar-se dos sapatos no Iraque.Melhor Cinderela com seu sapatinho encantado. O príncipe, todos acham que se chama Barack Obama.
Ah! Meus navios, quando voltarão?





Jornal do Brasil (RJ) 02/01/2009